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Herói do futebol inglês encara ‘campo minado’ ao defender refugiados no Reino Unido

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Gary Lineker, de 56 anos, se transformou “sem querer” em porta-voz da elite liberal inglesa. | Andrew Testa/NYT
Gary Lineker, de 56 anos, se transformou “sem querer” em porta-voz da elite liberal inglesa. Andrew Testa/NYT
 
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Um grupo de crianças refugiadas havia acabado de chegar ao Reino Unido e os tabloides de direita do país estavam em fúria, falando sobre estrangeiros chegando ilegalmente ao país e mentindo sobre sua idade. Em meio à cacofonia, uma opinião surgiu no Twitter, vindo de uma fonte inesperada.“O tratamento dado por certas pessoas a esses jovens refugiados é terrivelmente racista e totalmente insensível. O que está acontecendo com nosso país?”

O tuíte não veio de um defensor dos direitos humanos ou de um legislador liberal, mas de Gary Lineker, um dos melhores atacantes da história do futebol inglês e apresentador veterano de Match of the Day, programa de esportes da BBC e o mais popular do país, que mostra os melhores momentos da Premier League.

O comentário transformou Lineker em porta-voz improvável da caluniada “elite liberal”, a categoria amorfa que descreve aqueles britânicos incomodados com a retórica anti-imigração e antieuropeia que domina o país desde a votação, no ano passado, para sair da União Europeia.

Lineker tocou em um assunto sobre o qual nem o Partido Trabalhista, de oposição, fala hoje, por medo de ser visto como desconectado da realidade.

O jornal The Sun, irritado por ter sido chamado de racista ao exigir exames de raios-x dentários para determinar a idade das crianças refugiadas, publicou um artigo de primeira página acusando Lineker de “vender” uma mentira, e exigiu que a BBC, bancada por contribuintes, o demitisse. Seu feed no Twitter, seguido por aproximadamente 5,6 milhões de pessoas e que basicamente fala sobre futebol, foi tomado por ataques e ocasionais pedidos mais educados para que ele “se restringisse ao futebol”. (”Restrinja-se à política”, responderam seus fãs.)

Lineker, que não se deixa abalar com facilidade, não dá muita bola para o furor.

Na verdade, diz ele, o que essa crítica fez foi aumentar sua determinação de falar o que pensa. “Por que sou um esportista, sou bastante competitivo, por isso não iria recuar”, disse em uma tarde recente em Barnes, o bairro de Londres onde mora.

Com cabelos prateados e ar juvenil para seus 56 anos, Lineker é um tipo de tesouro britânico. Com 48 gols, o antigo capitão de Inglaterra marcou mais na Copa do Mundo do que qualquer outro jogador inglês até hoje. Na Copa de 1986, marcou seis vezes e ganhou a Chuteira de Ouro como artilheiro, o único jogador inglês a receber o prêmio.

Durante sua carreira de 16 anos, nunca teve um cartão amarelo ou vermelho e já recebeu o troféu Fair Play da Fifa. Tão forte é a sua imagem de cara legal que as propagandas da Walkers, empresa de batata frita com sede em sua cidade natal, Leicester, no centro de Inglaterra, usaram isso em comerciais durante anos, apresentando variações de um “Gary desagradável” que rouba batatas das crianças e nunca as oferece a ninguém.

Ele normalmente apresenta seu programa em ternos italianos elegantes, mas, em um dos episódios, de setembro passado, estava apenas de cueca, para pagar a promessa feita um ano antes, caso o Leicester City ganhasse a Premier League. “Na verdade, eu tinha certeza absoluta de que o Leicester não tinha chance de vencer. Nenhuma!”, disse ele. Como a votação para a saída da UE e a eleição de Donald Trump, disse ele, “era simplesmente impossível”.

Se sua primeira transformação já foi incomum, as incursões de Lineker no campo minado da política pós-Brexit são de certa forma ainda mais impressionantes.

Defensor e fã de tudo que é europeu, aprendeu espanhol muito bem quando jogou pelo Barcelona, dizendo até que costumava sonhar nessa língua. Lineker pedia para o Reino Unido permanecer na União Europeia antes do referendo de junho. “A UE tem as suas fraquezas, mas é muito boa para nós e tem sido muito boa para a Europa, e mantém a paz”, disse ele.

Em novembro, chamou Nigel Farage, ex-líder do Partido da Independência do Reino Unido e um dos principais defensores da saída da Europa, de “racista” por descrever o presidente Barack Obama como uma “criatura”.

Recentemente, começou também a falar sobre o presidente americano. Após Trump dizer que queimar a bandeira dos EUA deveria ser um crime punível com a perda de cidadania, Lineker tuitou: “Está tão frio aqui que eu até queimaria uma bandeira”.

Quanto ao seu tuíte sobre refugiados, disse que foi “humanitário, e não político”. Ele usou uma linguagem ousada para alguém cujo público vem de todas as classes, etnias, idades e formações acadêmicas e chega até a tender um pouco para a classe operária, que inclui a imigração como sua principal preocupação e que votou por deixar a União Europeia.

As pessoas estão fartas da situação. Há muita raiva, muita revolta em relação à falta de trabalho e às preocupações para a próxima geração. Entendo tudo isso; cresci com isso, mas, de repente, botamos a culpa de todos os males do país nos refugiados e estrangeiros. Está errado

Gary Lineker ex-jogador da seleção da Inglaterra

Leicestershire, o condado inglês central onde Lineker cresceu, apoiou a saída da Europa. Ele acredita que seu pai também o fez. “Não gosto de perguntar, porque tenho muito medo da resposta”, disse.

Lineker, cujos bens são estimados em US$ 15 milhões, veio da classe trabalhadora. Descendente de três gerações de feirantes, ele não terminou o ensino médio. (Seu último boletim dizia: “Deve dedicar menos tempo ao esporte se quiser ser bem-sucedido”.) Mesmo depois que o time de futebol local o contratou, ele continuou a ajudar na barraca da família nos primeiros anos de sua carreira profissional.

“As pessoas estão fartas da situação. Há muita raiva, muita revolta em relação à falta de trabalho e às preocupações para a próxima geração”, disse ele. “Entendo tudo isso; cresci com isso, mas, de repente, botamos a culpa de todos os males do país nos refugiados e estrangeiros. Está errado.”

Conversando com Lineker, percebe-se que o futebol é quase uma parábola sobre o que deu certo e o que deu errado no Reino Unido nos últimos 30 anos.

Quando jogava profissionalmente, na década de 1980, o racismo era desenfreado. Ele diz que se lembra das bananas que eram jogadas aos jogadores negros. Cantorias abusivas nos estádios eram comuns. Uma vez, ele se recorda de ter pegado um avião com John Barnes, jogador negro de sua equipe, e um torcedor gritou: “Não deveriam permitir que você usasse a camisa da Inglaterra.”

“Progredimos muito desde então, e não queremos ver tudo regredir”, disse Lineker.

Para ele, a globalização das equipes fez muito para aumentar não só os padrões, mas também a tolerância no esporte. “Os jogadores de futebol crescem com pessoas de diferentes origens e diferentes cores de pele. Quando você está no vestiário com 15 companheiros, não olha à volta e pensa: ‘Ele tem a pele negra. Ele é asiático’, mas sim: ‘Ele é um grande jogador. Ele é um bom jogador. Ele precisa melhorar’.”

Se o futebol tem, de certa forma, mostrado uma tolerância crescente na sociedade, conta também com o espetacular aumento da desigualdade de renda que se desenvolveu nas últimas décadas.

O avô do Lineker jogava futebol no exército e recebeu ofertas de alguns clubes, mas preferiu trabalhar vendendo frutas e legumes, que, na época, era uma opção economicamente mais estável. Lineker se deu bem financeiramente, mas ainda estava em uma geração de jogadores de alto nível que precisava procurar outro emprego após a aposentadoria. Os astros de hoje, como Cristiano Ronaldo ou Lionel Messi, ganham em uma semana “o que eu ganhava em um ano”, contou Lineker.

“Dá para comparar com o que está acontecendo na sociedade em geral”, disse ele.

A menção desses grandes jogadores deixa Lineker visivelmente animado. “Temos sorte de viver na época desses dois, vendo esses gênios ao mesmo tempo. Enquanto Ronaldo é prolífico, um atleta incrível e um jogador brilhante, Messi é a alegria. É lindo vê-lo jogar. Ele sempre será meu favorito.”

Na política, diz ele, as pessoas não têm essa escolha. “Esse é o maior problema agora. Acho que não há oposição neste momento neste país.”

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