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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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O casamento está se tornando coisa de rico?

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Em Esquerda Caviar, tentei mostrar como as ideias “progressistas” da elite acabam produzindo efeitos negativos normalmente na vida dos mais pobres. Não é uma tese minha, tampouco nova. O médico britânico Theodore Dalrymple tem vários livros sobre o impacto das ideias “moderninhas” na vida do povão, assim como Chesterton antes dele. Christopher Lasch em A revolta das elites também foi nessa linha, e Charles Murray, em Coming Apart, fez um relato chocante de como elite e povo criaram mundos separados, dependendo do CEP.

Um dos fenômenos que ilustram isso é o casamento. A fundamental instituição social, que permite mais segurança e felicidade para os filhos, vem sofrendo abalos ao longo do tempo. Mas não em proporção igual entre ricos e pobres. Se é a elite que mais cospe no casamento, em teoria, é o povo que mais se afasta dele, na prática. Faça o que eu digo, não faça o que eu faço: eis a mensagem dessa elite “progressista”.

Em um recente artigo na The Spectator, Ed West trata do assunto, tendo a Inglaterra como palco de análise. Mas certamente não se trata de um caso particular. West defende que o casamento pode estar fora de moda, mas apenas no andar de baixo da sociedade. Se o povo ficou feliz com a notícia do casamento do príncipe Harry com a atriz Meghan Markle, isso é sinal de que há esperança. Mas infelizmente não temos visto a mesma empolgação e voto de confiança no futuro quando é para os mais pobres casarem entre si. Diz o autor em defesa da importância do casamento:

O casamento não é fácil e nunca foi, como Harry saberá de sua própria infância. No entanto, as pessoas sempre aceitaram que as uniões conjugais e as famílias estáveis ​​tornam a sociedade mais saudável, mais feliz e mais próspera. É por isso que os celebramos tão publicamente, e sempre o fizemos.

Hoje em dia, porém, o casamento está ameaçado, e quase metade dos filhos nasce de pais separados. O dado chocante, contudo, esconde um detalhe essencial: há grande divergência entre ricos e pobres. Para os mais ricos, as taxas de casamento são mais elevadas; é nas classes sociais mais baixas que as mudanças realmente ocorreram. E isso em apenas uma geração!

De acordo com um estudo da própria revista, alguém do topo da pirâmide tem 48% a mais de chance de ser casado do que alguém no fundo dela. Um diretor de empresa ou um professor universitário tem uma probabilidade bem maior de ser casado do que um torneiro mecânico ou um faxineiro. Na virada do século, esse hiato era de apenas 22%.

Eis aí uma das mais gritantes formas de desigualdade, e essa sim, deveria incomodar a esquerda igualitária. Afinal, vários estudos empíricos já comprovavam como famílias estáveis são importantes para o futuro dos filhos, para seu sucesso profissional, para mantê-los longe das drogas, da depressão, de abusos sexuais etc. West apresenta algumas possíveis causas para o problema:

Os números para a proporção de filhos nascidos fora do casamento raramente aumentaram acima de cinco por cento da era vitoriana até a década de 1960. Então as coisas começaram a mudar. Na época do casamento do príncipe Charles e Lady Diana, em 1981, era 13 por cento. Desde então, quase quadruplicou. E o declínio do casamento foi muito mais pronunciado nas áreas da classe trabalhadora do que no meio da Inglaterra central. A Marriage Foundation descobriu recentemente que 87% das mães de grupos de renda mais alta estão casadas hoje, em comparação com apenas 24% das do outro lado da escala social.

O que o autor mostra, em outras palavras, é a hipocrisia da classe mais alta, que despreza o casamento com palavras, mas o preserva na prática, afetando negativamente os mais pobres com suas ideias “avançadinhas”. West argumenta:

O casamento está em forma muito saudável para a classe média alta. Na verdade, para toda a sua política progressista, a alta burguesia é altamente conservadora em seu comportamento. Mesmo na parte muito liberal de Londres, onde moro, poucas pessoas vivem o que o Channel 4 costumava chamar de “estilos de vida alternativos”. Claro, a maioria das mães volta para o trabalho depois que seus filhos entram em educação em tempo integral, mas as escolas locais também dependem de pais voluntários, principalmente mães, para ser a cola social segurando tudo junto, assim como suas avós fizeram. Como um dos pais locais me falou, observando a contradição entre o quão ‘correto’ as pessoas estão em suas políticas e o quão tradicional em suas vidas: “Eu gosto disso por aqui, é como a década de 1950, não é?”

Pimenta no olho dos outros é refresco, certo? Replicar um estilo de vida mais vitoriano enquanto prega aos demais “estilos alternativos” pode soar “tolerante”, “cabeça aberta” e “moderninho”, mas acaba influenciando a vida do andar de baixo de forma negativa. As classes governantes não estão pregando aquilo que fazem.

Basta pensar na apresentadora global Fernanda Lima, casada, com dois filhos, mantendo até onde tudo indica uma educação tradicional, enquanto apresenta o programa mais alternativo e “progressista” de todos, vendendo libertinagem como se fosse liberdade. É “lindo” usar os outros como mascotes para ganhar dinheiro ou posar de compreensivo, mas na prática os filhos dos ricos são protegidos desse universo bizarro enaltecido na telinha.

O que explica, então, o hiato? Os conservadores apontam para o declínio dos “valores da família”, enquanto a esquerda aponta para questões econômicas. West acha que há verdade em ambos. O modelo do estado de bem-estar social certamente influi, pois quando casas populares são dadas antes para mães solteiras do que casais, as pessoas reagirão aos incentivos perversos. O próprio estado acaba incentivando o desmonte familiar em troca de benesses e privilégios.

Mas há fatores culturais ligados à industrialização e ao estilo de vida moderno, que dificilmente poderão ser alterados radicalmente. É complicado colocar o gênio de volta na garrafa. Além disso, o comportamento é fomentado de acordo com a realidade local, num círculo vicioso ou virtuoso, como diz West:

A diferença matrimonial está se ampliando o tempo todo porque a gravidez, o casamento e o divórcio são contagiosos. Se os amigos próximos ou os pares se separam, as chances de seu casamento acabar aumentam em 75 por cento, de acordo com um estudo de 2010; as pessoas com amigos divorciados em seu círculo social têm mais do dobro de chance de se divorciar. Do mesmo modo, os homens não casados ​​da classe média ainda enfrentam pressões sociais para fazer a coisa honrada e resolver a questão, não por qualquer pressão aberta, mas pelo simples exemplo de seu grupo de amizade. Para as famílias mais pobres, essa sensação de expectativa – de obrigação, mesmo – diminuiu, enquanto os mais ricos acumulam os benefícios financeiros de reunir seus recursos.

Afrouxar a pressão social, o estigma do homem que engravida a mulher e “pula fora”, ou da mulher que resolve ser mãe solteira, certamente contribui para o aumento dos divórcios ou filhos fora do casamento, alimentados ainda mais numa era de egoísmo e hedonismo, em que filhos são considerados fardos insuportáveis muitas vezes. Mas, novamente, no topo da escala social a pressão ainda é bem maior, apesar de toda a retórica dos formadores de opinião. E os efeitos disso são evidentes:

Os problemas se acumulam, especialmente para meninos, quando eles não só não têm uma figura paterna, mas também todos os outros em seu círculo social. Mesmo quando as famílias de classe média se separam, as crianças estão mais isoladas da explosão, mais propensas a ter modelos positivos para substituir um pai e muito menos propensas a serem ameaçadas por um homem violento e sem vínculo familiar. Isso torna o jogo da vida, sempre distorcido contra crianças mais pobres, uma solução completa.

Como remediar? Não sei, e não há uma só resposta. Com certeza a desvalorização que o casamento tem tido no campo das ideias em nada ajuda. Feministas têm um grau de responsabilidade nessa configuração atual, ao demonizarem o matrimônio, tratado como um esquema de luta de classes marxista, com o marido na figura do opressor e a esposa na figura da vítima. Os mecanismos perversos de incentivo do estado tampouco ajudam. West conclui:

Quanto o governo liga para isso? A resposta é não muito. Cerca de uma década atrás, David Cameron disse que seria o líder mais pró-casamento que os Tories tiveram em sua vida, mas seu entusiasmo esfriou rapidamente. É improvável que Jeremy Corbyn esteja falando sobre valores familiares, o que é uma pena porque um verdadeiro guerreiro da justiça social ficaria obcecado com essa questão. O casamento está se tornando um item de luxo, uma tendência que provavelmente causará desigualdades cada vez maiores nas gerações. Qualquer governo que esteja genuinamente preocupado em ajudar os que estão no fundo deve pensar sobre o que poderia fazer para tornar o casamento acessível para muitos, e não para poucos. 

Podemos todos divergir sobre as soluções, mas não sobre o problema. Ele existe, é bastante real e tem aumentado. Famílias desestruturadas, especialmente entre as classes mais baixas, têm usurpado das crianças a possibilidade de um futuro melhor. Simplesmente ignorar isso e tratar a questão como paranoia de reacionário é o cúmulo da insensibilidade para com essas crianças.

Rodrigo Constantino

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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