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Rodrigo Constantino
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Os liberais deveriam apoiar ou fazer oposição a Trump?

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Por João Luiz Mauad, publicado pelo Instituto Liberal

Passados alguns meses do impeachment de Dilma, parece que o brasileiro estava sentindo falta de um novo Fla x Flu.  E ele está acontecendo novamente, depois da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos.  As torcidas organizadas andam tão fanáticas que dispensam qualquer pensamento crítico.  Na TV, nos blogs e nas redes sociais, o que vale é o nós contra eles.  Para uns, o novo presidente só tem defeitos.  Para outros, apenas virtudes.  Em resumo, o jogo atualmente jogado é o seguinte: idolatria x demonização.

Nas torcidas de fanáticos, de um lado e de outro, o que não faltam são falácias.  A mais comum delas é aquela denominada “cherry picking”, que consiste em fazer escolhas seletivas entre evidências e dados concorrentes, de modo a enfatizar os resultados que suportam uma determinada posição, ignorando ou descartando quaisquer achados que não apóiam o seu lado.

Jeffrey Tucker escreve um ótimo artigo a respeito desse novo Fla x Flu, no site da FEE.  Tucker começa nos lembrando que a tentativa de colocar nossos cérebros na prateleira, com o objetivo de obter vantagem política, tem uma longa tradição filosófica. Ele começa citando, evidentemente, os marxistas, “que classificam as pessoas como opressores ou oprimidos, baseados na identidade de classe – e … aplicam essas designações ao ponto de absurdo, incluindo uma enorme variedade de características, como raça, sexo, religião, capacidade física e identidade de gênero.  Para eles, a vida não existe, senão em permanente conflito.”

Outro expoente dessa corrente filosófica, segundo Tucker, é Carl Schimitt, o principal filósofo do Nacional-socialismo.  “Para Schmitt, a política é o chamado mais elevado da pessoa humana, e isso sempre significa separar as pessoas de entre amigos e inimigos. [Não por acaso] ele desprezava o liberalismo clássico e a ciência econômica, precisamente pela razão de que tanto um quanto outra tentam desfazer o dualismo amigo / inimigo, substituindo-o pelo comércio, pela cooperação e formas de competição em que todo mundo ganha.” Em resumo, se não há ganhadores e perdedores, não interessa.

Para os liberais o problema é particularmente grave na medida em que a agenda política até então divulgada por Donald Trump tem pontos absolutamente discrepantes do ponto-de-vista liberal.  De um lado, o novo presidente defende políticas protecionistas, tanto no comércio quanto na imigração, aumento nas despesas de infra-estrutura e incentivo a empresas locais como forma de incrementar a economia.  Nada muito diferente da famigerada “Nova Matriz Econômica” de Dilma Rousseff ou da velha política de substituição de importações , tão cara aos economistas da Unicamp e congêneres neo-keynesianos.

Ao mesmo tempo, Trump tem algumas propostas muito interessantes sobre desregulamentação, reduções de impostos, redução da burocracia, educação e saúde, entre elas o fim do “Obamacare”. Propostas essas caras a qualquer amante da liberdade.  Na melhor das hipóteses, portanto, a agenda de Trump é bastante confusa quando analisada pelo olhar liberal.

Assim, Tucker encerra o oportuno artigo com uma sugestão valiosa:

“Não devemos ficar obcecados com a questão de saber se devemos apoiar Trump ou condená-lo, nos tornarmos seus fãs ou fazer-lhe oposição, defendê-lo contra os inimigos ou nos tornarmos, nós mesmos, seus inimigos.”

“Há outra abordagem possível. Não é fácil em um ambiente político extremamente partidário, mas é o correto. Permanecer independente, pensar claramente, observar cuidadosamente, aderir a princípios, falar sem medo, elogiar as coisas boas e criticar as coisas ruins, dizer a verdade, como nós a enxergamos, e estar sempre vigilante na defesa dos direitos e das liberdades. Ser firme e honesto nestes tempos é o auge da virtude política.”

Fica a sugestão.

Comentário do blog: Em linhas gerais, concordo com Tucker e Mauad, e eu mesmo critiquei mais de uma vez o viés protecionista/mercantilista de Trump. Dito isso, acho um pouco ingênuo achar que dá para ficar sempre acima das disputas políticas, apontando apenas pontualmente o que é bom e o que é ruim em cada lado. Não se vence eleições assim, e não são somente as eleições que importam. A guerra é cultural, e acho que é isso que muitos liberais ainda não entenderam. Há uma forte campanha de difamação e demonização de Trump por parte da esquerda global. Se não houver uma reação mais firme, não haverá a menor possibilidade de ele levar adiante as tais propostas boas para os liberais. Adoraria viver num ambiente mais civilizado em que os debates fossem estritamente racionais. Mas alguém acha mesmo que vive nesse mundo idealizado? A própria vitória de Trump deveria ensinar uma lição política a esses liberais. Mitt Romney podia ter melhores propostas, mas perdeu para Obama. Ted Cruz podia ser alguém mais alinhado aos liberais, mas perdeu para Trump e perderia para Hillary. Trump venceu, de vários republicanos, e da candidata esquerdista. E vencer é importante também, não? Afinal, queremos resultados concretos, não apenas a satisfação de defender o que é melhor, perdendo. Só falta alguém defender a tese de que o certo era apoiar o bobalhão libertário Gary Johnson…

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Rodrigo Constantino
Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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