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Rodrigo Constantino

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Recordar é viver: a ambição desmedida de Eike Batista

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Eike Batista foi do céu ao inferno em pouco tempo, da mesma forma que o ex-presidente Lula. Ambos chegaram a acreditar que nem o céu era mais o limite, tamanha a arrogância desses personagens. Como Ícaro, a queda foi brutal, pois a ambição fora desmedida. Do empresário mais rico do país e um dos mais ricos do mundo, Eike Batista virou um foragido procurado pela Interpol que estaria negociando os termos de sua rendição à polícia, já que sequer possuiria diploma superior. Lula anda acuado, e também pode ser preso a qualquer momento.

Segue um artigo que escrevi no GLOBO, em 2014, sobre essa ambição desmedida do fanfarrão ex-bilionário, com base na excelente biografia de Malu Gaspar. Recordar é viver, e é preciso entender que a ascensão e queda de Eike não tem muito a ver com o liberalismo, mas tudo a ver com o “capitalismo de laços” que os liberais tanto criticam e a esquerda, paradoxalmente, acaba endossando:

Ambição desmedida

Atuava no mercado financeiro, e acabara de sair de um almoço de um banco de investimentos que apresentou o case da primeira emissão de ações do grupo X, de Eike Batista. Ao término, conversando com investidores, quis saber quantos realmente acreditavam naquilo. Poucos. Era um tiro no escuro, uma grande aventura. Não obstante, a coisa toda viraria uma febre depois, e o empreendedor se tornaria o homem mais rico do Brasil.

O episódio me veio à memória ao ler o excelente livro-reportagem “Tudo ou nada” (Editora Record), em que a jornalista Malu Gaspar, de “Veja”, disseca a verdadeira história do mais excêntrico empresário brasileiro. Com mais de cem pessoas entrevistadas, a autora traz inúmeros relatos que reconstroem o dia a dia frenético da ascensão e queda do que foi o império de Eike.

Com espírito aventureiro e muita ousadia, o filho de Eliezer Batista, o poderoso ex-presidente da Vale, já havia tido uma experiência similar antes, no Canadá. Mas não absorveu lições importantes, ao menos não a ponto de impor maior cautela a um inveterado otimista disposto a “dominar o mundo”. É um típico caso em que megalomania pode ser confundida com autoconfiança.

De forma irresponsável, Eike foi ignorando alertas ao longo do caminho, e abraçando cada vez mais empreitadas em diversos setores diferentes. Malu chama a história do grupo X de “a epítome de um período do capitalismo brasileiro”. De fato, foi isso mesmo. Já fiz um paralelo, aqui nesse espaço, entre Eike e Lula em suas respectivas áreas. Se um virou o Midas da economia, o outro foi alçado ao patamar de gênio da política, ignorando-se que perdeu três eleições seguidas, duas delas no primeiro turno para Fernando Henrique.

Tanto um como o outro são carismáticos e muito ambiciosos. Mas ambos eram apenas a pessoa certa na hora certa, surfando uma onda que fora produzida fora do país, pelo crescimento chinês somado ao baixo custo de capital no mundo desenvolvido. Criou-se o ambiente perfeito de “tsunami monetário” para um país como o Brasil, com recursos naturais abundantes. O ciclo favorável das commodities explica os “fenômenos” Eike e Lula mais do que qualquer mérito individual de cada um deles.

Outra coisa que a autora faz com maestria é desvendar em riqueza de detalhes aquilo que já sabíamos em termos gerais: a enorme simbiose entre Eike e o governo. O empresário ficou obstinado em se transformar num “empresário do PT”, ao perceber que tal parceria lhe seria extremamente vantajosa. Com o BNDES presidido por Luciano Coutinho, que desde a década de 1980 defendia o fomento de fortes grupos nacionais dirigidos pelo Estado, o casamento seria inevitável.

“Mais do que um empresário símbolo do novo capitalismo que emergia no Brasil, Eike Batista era agora alguém de confiança do BNDES — o mais poderoso banco de fomento da América Latina. Se havia tal coisa como um ‘empresário do PT’, ele sem dúvida era um deles”, escreve. Foram bilhões injetados no grupo X pelo banco estatal. Eike diria pouco depois que o BNDES era “o melhor banco do mundo”.

O relacionamento promíscuo chegou ao ápice quando a própria presidente Dilma pediu, por meio de Coutinho, que Eike não desistisse do investimento na fábrica de semicondutores em Minas Gerais, empreendimento com a IBM em que o empresário aceitou entrar só para agradar ao presidente do BNDES. A autora revela que Eike sucumbiu à pressão política: “Não vai dar para sair da fábrica. Pelo menos não agora.”

A saga do grupo X, portanto, ilustra com perfeição as mazelas de nosso “capitalismo de compadres”, que já existia, mas que foi expandido pelo governo do PT. Quando a desgraça se tornou inevitável, porém, até o PT precisou encontrar um limite para o que poderia ser feito pelo governo para salvar o empresário. Quando Coutinho se negou a resgatar o estaleiro OSX, Eike não pôde segurar a decepção: “Baixou a cabeça, chorando, deu as costas e foi embora.”

Além de ótimo entretenimento, o livro de Malu Gaspar é extremamente relevante para mostrar como o Brasil ainda precisa avançar rumo a um modelo de economia de mercado, em que o sucesso ou o fracasso das empresas não dependam tanto das amizades com o governo. E deixa, ainda, um alerta sobre a ambição desmedida, que pode arruinar mesmo alguém que parecia ter tudo.

Eike tombou feio. Hoje é acusado de crimes financeiros e pode acabar até preso, como provavelmente seria o caso se o Brasil fosse um país em que o império das leis realmente valesse para todos, como ocorre nos Estados Unidos. Talvez chegue a vez de Lula tombar também.

Rodrigo Constantino

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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