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O amor e a lei no caixão perdido

  • fernandor@gazetadopovo.com.br
 
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Se um gênio caísse do céu neste exato momento e nos ofertasse uma caixa mágica que preserva para a eternidade um único sentimento, o que colocaríamos nela? O que, enfim, deixaríamos como herança aos que virão? Muitos optariam por perenizar o amor. Outros, saudosistas dos afetos que partiram, elegeriam a saudade – esse misto de melancolia e felicidade. Haveria ainda os generosos, cujo legado seria a esperança.

E se o gênio dissesse que ainda cabe algo mais na caixa? Mas não uma emoção pessoal e sim um desejo – um único desejo – para a nação inteira. O que seria então que depositaríamos nesse recipiente fantástico? Talvez fosse a expectativa de um país mais digno, em que a lei se cumpra para todos sem distinção.

Uma caixa como essa acaba de se abrir onde menos se esperava: o Congresso Nacional. Como no mito de Pandora, depois de um longo período expelindo porções grandiosas de vilanias e males humanos, enfim o parlamento brasileiro produziu uma notícia boa, que mostra que ainda há esperança. Nem que ela esteja escondida.

Na semana passada, em meio às obras para conter uma teimosa goteira no Salão Verde da Câmara dos Deputados, funcionários da manutenção do Legislativo encontraram uma relíquia histórica no vão entre duas lajes superiores do Congresso – espaço chamado de “caixão perdido” no jargão da engenharia, pelo fato de nunca mais ser aberto após ser cimentado. Nas paredes daquele ambiente improvável estavam ocultas mensagens escritas em 1959 por operários que construíram o prédio. Ainda que redigidas num português por vezes precário, elas revelam mais verdade do que uma vida inteira de muitos políticos.

“Amor, palavra sublime que domina qualquer ser humano”, escreveu o candango Nelson. “Saudade: palavra que nunca morre, quando morre fica arquivada no coração”, grafou outro trabalhador, acossado pela melancolia da distância que não pode ser vencida.

O esperançoso operário José Silva Guerra fez ainda um pedido aos políticos do futuro: “Que os homens de amanhã que aqui vierem tenham compaixão dos nossos filhos e que a lei se cumpra”. Outro vaticinava a solução para os males nacionais: “Si todos os brazileiros fossem dignos de honra e honestidade, teríamos um Brazil melhor”. Ele se mostrava, porém, pouco otimista com sua geração: “Só temos uma esperança: nos brazileiros de amanhã”.

Os brasileiros de amanhã somos nós. Talvez a atual geração não tenha honrado as expectativas daqueles homens simples. Cada vez damos menos atenção aos sentimentos alheios, em meio à vida corrida. Os políticos tampouco têm se mostrado dignos. Quem acabou nos dando esperanças foram os brasileiros de ontem.

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