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Uma pitada de não

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Na comédia Sim Senhor!, de 2008, o personagem do ator Jim Carrey é um sujeito negativo e solitário que diz não a tudo. Forçado por um amigo, se inscreve num programa de autoajuda cujo mote é dizer sim a qualquer proposta que lhe apareça. Em pouco tempo, a atitude positiva melhora sua vida. É promovido no emprego e arruma uma bela namorada. Mas o sim também lhe traz uma série de inconvenientes. Aceitar reiteradamente aquilo que não deseja é, enfim, negar a si próprio.

A armadilha em que o personagem do filme se meteu pode servir como alegoria bem-humorada de um drama dos tempos contemporâneos. De uma sociedade culturalmente restritiva até a década de 50 do século 20, passou-se a um mundo libertário. “É proibido proibir” virou o lema que, desde então, influencia as gerações. O não se acabrunhou e, para o bem ou para o mal, o sim tomou seu posto como imperador quase absoluto da vida cotidiana. Dizer não virou motivo de vergonha e sinônimo de chatice, inadequação social, negativismo.

Mas há sinais de que o absolutismo do sim é tão nocivo como o totalitarismo de um mundo dominado pela exclusividade do não. Cidadãos se revoltam com o desrespeito à lei – o não legal. As pessoas se queixam de que não sabem dizer não e de que, com isso, se anulam. Pais lamentam a incapacidade de impor limites aos filhos, de negar-lhes todos os desejos. E assim não os preparam para a vida real. Alguns chegam a temer tão profundamente a rejeição – o não vindo do outro – que deixam de se arriscar a viver; e se isolam na comodidade dos pequenos e previsíveis sins do dia a dia.

Talvez não haja palavra mais antipática que o não. Ela traz consigo a ideia do negativo, da restrição, da proibição, do limite. Mas, embora duro, o não ao menos é honesto. O mesmo não se pode dizer de todo sim que sai das bocas.

E foi justamente o não, essa pequena palavra, que construiu a civilização – a negação da barbárie e da animalidade humana. A família surgiu quando o homem decidiu não abandonar a mãe de seus filhos para ajudá-la na criação da prole. O Estado nasceu da restrição dos desejos e liberdades individuais em nome da segurança proporcionada por uma organização maior, o governo. A maioria das leis e de códigos de conduta social tem o não como sustentáculo. Não matarás. Não roubarás. Não furarás o sinal vermelho. Não jogarás lixo na rua.

No caldo da moderna cultura do sim, talvez falte uma pitada de não. Paradoxalmente, às vezes é preciso dizer sim ao não. Mas sempre com parcimônia.

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