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José Carlos Fernandes

Os arquivos de Madame Felicidade

Texto publicado na edição impressa de 20 de julho de 2012

Houve um tempo em que cronistas assinavam com pseudônimos. A prática tinha suas vantagens. Com nome falso, jornalistas da área policial, por exemplo, podiam escrever, sei lá, sobre o brilho das estrelas sem correr o risco de serem chamados de maricas pela turma da delegacia. Além do mais, ficava o mistério sobre, oh, quem se esconderia por trás daquela assinatura floreada, não raro homens na pele de mulheres. Nelson Rodrigues se travestiu de Suzana Flag, disfarce com o qual assinava o folhetim Meu destino é pecar. E Antônio Maria adorava se fazer “de outra” para responder a cartas adocicadas das leitoras, atividade clandestina com a qual vivia se fiando em confusões.

De modo que algum pesquisador nos deve um dicionário ilustrado com os melhores codinomes de todos os tempos. Seria um best seller. Quem se der ao trabalho de folhear uma Gazeta do Povo da Era Paleozoica vai se deparar com uma dessas identidades secretas, de charme irretocável. Chamava-se Madame Felicidade. Não, não se tratava de nenhum marmanjo em disfarces, mas da professora primária Selene Amaral Di Lenna Sperandio (1915-2002), mãe de cinco filhos, dada à filantropia e à virtude, elementos estranhos em meio à alta dosagem etílica e boêmia que movia as redações de antanho.

Pois ela veio e venceu. Enquanto as máquinas de escrever Olivetti cuspiam fogo, Selene – que escrevia de casa – se impôs pianinho, permanecendo na berlinda por quase 30 anos. Tudo teria começado por acaso, em 1959, com uma missiva para a Seção de Cartas. Uns assinavam “Gino do Santa Cândida” outros “Salete do Rebouças”. Todos reclamavam de buracos na rua. Mas ela assinou “Madame Felicidade” e, em vez de lamúrias, ofereceu uma crônica sobre as mães, escrita com a pena delicada das normalistas, o que deve ter agradado ao editor. Bingo.

Em 1962, estreou a convite seu espaço semanal na Gazeta. Àquela altura estava aposentada e, sem saber, dava início ao segundo tempo de sua biografia. Ficaria conhecida e publicaria livros feito o delicioso Um feixe de emoções, de 1971, verdadeiro relicário de crônicas maternais, no melhor do estilo anos dourados. Resta saber por que escolheu para si esse apelido, algo Doris Day, algo Lucille Ball, dois ícones da época e tão diferentes dela mesma.

Perguntei à sua caçula, Seleninha Nicz, e ao mais velho, Guto Sperandio. Eles responderam colocando sobre a mesa uma pasta amarelada, forrada de guardados, em cuja capa está escrito “Arquivo Sentimental”. Página a página, mal dá para respirar diante de cartas de amor escritas à pena do tinteiro, fotos e mimos dos tempos da delicadeza. A pasta pertencera à mãe de Selene, a lapiana Júlia Ferreira do Amaral, mulher ilustre que cedo conhecera a viuvez e a perda de uma filha, Lucy. São da menina morta os cachinhos presos aos alfarrábios, seguidos de uma tocante descrição da mortalha com que fora sepultada.

Entendi: para saber de Selene seria preciso saber de Júlia, que qual uma heroína não esperou favores – tornou-se educadora na Colônia Argelina, criou sua Selene e para a guria deixou o tal arquivo. Ela o continuou, registrando suas lidas de mocinha, o casamento com o comerciante Ary Sperandio [foto], o trato das crianças. Não faltam aos diários textos de próprio punho que parecem lapidados no cinzel. Chamam atenção as cartas que mandava à Nestlé, tratando dos pendores do lar, bem a gosto do pós-Segunda Guerra, quando o mundo parecia um filme de Douglas Sirk.

Tenho para mim que o “Arquivo Sentimental” de Júlia e Selene é mais que um documento íntimo: é uma imensa crônica sobre mulheres que tinham tudo para acharem suas vidas uma impiedosa soma de perdas, mas que lhes reservou pequenas epifanias, como o chio das cigarras, quaresmeiras em flor ou o prazer dos bolinhos de chuva num dia de frio, para citar alguns temas que comoviam uma e outra.

Ao começar a escrever sobre isso para jornais – território onde uma moça bem comportada teria pouca chance de se criar –, Selene tocou tantas mulheres que eram qual ela. Quem a lia por certo suspirava ao lembrar que, apesar de..., cada dia é uma promessa de felicidade, servida no perfume das flores. Madame sabia das coisas.

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