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Comportamento

Generais, semideuses e amantes

Relações sexuais entre dois homens eram aceitas na cultura greco-romana, inclusive no exército

  • Pedro de Castro
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Aquiles, Hércules e Alexandre são personagens (reais ou fictícios) do mundo greco-romano que, além da bravura e da capacidade de liderança, tinham em comum o fato de se relacionarem sexualmente com outros homens. Se a existência de militares que mantêm relações homoafetivas ainda é vista com ressalva em muitos países, inclusive no Brasil, a realidade era bem diferente entre os povos que geraram muitos dos ícones de heroísmo nas forças armadas.Os antigos gregos e romanos não concebiam a orientação sexual em termos de hétero, homo ou bissexualidade, e por isso tais personagens não se encaixam nesses conceitos. No entanto, ambas as sociedades estabeleciam uma relação entre a posição ativa ou passiva que um dos parceiros assumia durante o ato sexual e sua cidadania – cidadãos adultos na primeira; escravos, mulheres, estrangeiros e adolescentes, na segunda.Na Grécia Antiga, a mais difundida e aceita forma de relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo – ou homoerotismo – era a pederastia entre homens adultos e adolescentes. Cidadãos plenos (homens adultos, livres e gregos) da pólis com mais de 30 anos cortejavam garotos entre os 13 e 20 anos que viriam a ser cidadãos. O próprio casamento se dava entre homens na casa dos 30 e meninas com metade dessa idade. “Isso não excluía relações com a esposa, escravos e prostitutos, de ambos os sexos. O importante é que o cidadão fosse o ativo”, sintetiza o historiador Daniel Barbo, autor do livro O triunfo do falo: homoerotismo, dominação, ética e política na Atenas Clássica.O adulto erastes (aquele que ama) se aproximava do jovem erômenos (objeto do amor) no ginásio de esportes e nos banquetes para homens. A relação entre os dois tinha um aspecto pedagógico, uma vez que era função do erastes introduzir o jovem na vida pública grega, nas artes da guerra e servir-lhe de modelo de conduta. “A vida pú­­bli­­­­ca era extremamente complexa e o mais jovem se beneficiava do conhecimento e círculo de amizades do mais velho”, esclarece o historiador. Aos 20 anos, o jovem se tornava um cidadão pleno, e era esperado que a relação acabasse, mas havia certa tolerância se continuasse.

Havia atração sexual entre os dois, que era consumada com mais ou menos frequência, dependendo da pólis. “Para o antigo grego era a forma mais elevada de expressão de Eros, o deus do amor, uma vez que se dava entre iguais. Ao contrário do casamento, em que a mulher era vista como inferior e instrumento de reprodução da vida. A esposa era ligada ao lado animal do homem e o amante, à cultura”, analisa Barbo.

Guerreiros

O modelo exemplar desta relação era justamente aquela entre dois guerreiros – Aquiles e Pátroclo, personagens da Ilíada de Homero. “Apesar de a obra, que é do século 9 a.C., não deixar claro qual o caráter do envolvimento entre os dois, a leitura que todo grego do século 6 antes de Cristo fazia era de que se tratava de uma relação pederástica”, observa o doutor em História Social Fábio Lessa, que pesquisa a sexualidade na Grécia clássica. É a morte de Pátroclo em batalha pelas mãos de Heitor, príncipe de Troia, que faz Aquiles retornar à batalha e vingar seu erômenos.

A ideia de que o perigo que se abatia sobre um amante motivaria o guerreiro foi o que levou à criação do Batalhão Sagrado de Tebas, formado por 150 casais de amantes. O ímpeto desse batalhão garantiu a supremacia militar de Tebas sobre a Grécia por quatro décadas, desde a libertação do jugo espartano, em 371 a.C., até a derrota e extermínio para o exército macedônico de Filipe II, em 338 a.C., comandado por seu filho, Alexandre – o mesmo Alexandre que viveria para se tornar um herói clássico nos moldes de Aquiles e manteria uma relação com seu general Hefestião, similar à que havia entre os personagens da Ilíada.

Alexandre e Hefestião eram amigos de infância que lutaram juntos as campanhas macedônicas. Historiadores de períodos posteriores não eram explícitos sobre o envolvimento dos dois, mas a cultura da época torna pouco provável que não houvesse um componente sexual. É relatado que, de passagem pelas ruínas de Troia, Alexandre e Hefestião prestaram homenagens – o primeiro ao túmulo atribuído a Aquiles; o segundo, ao de Pátroclo. Mas a importância de Hefestião fica evidente após sua morte, em 324 a.C. Alexandre ficou arrasado e chorou por vários em dias em cima do corpo do amante, ao fim dos quais cortou seu cabelo curto e colocou as mechas nas mãos do morto, como fizera Aquiles com Pátroclo. O próprio Alexandre morreria poucos meses depois.

Roma

Na Roma republicana, o componente hierárquico no homoerotismo era mais forte. A relação visava somente a satisfação sexual do cidadão com es­­trangeiros e escravos. O jovem romano atingia a cidadania plena ao 14 anos, o que impedia a prática da pederastia nos moldes gregos, uma vez que a convenção social não permitia a passividade ao adulto. En­­­­quanto na Grécia o homoetorismo en­­­volvia os social­men­­te iguais, mas de diferentes idades, em Roma acon­­­­tecia en­­­tre ho­­­mens de diferentes ca­­­madas so­­­ciais.

“Pelo Direito romano, escravos e mulheres eram propriedades e, portanto, objetos sexuais”, resgata o professor de Anti­­guidade Greco-romana da Universi­­dade Fe­­­deral de Pelo­­tas Pau­­lo Possamai. Ao longo do declínio da Repú­­blica e início do Impé­­rio, no século 1 a.C., a cultura grega foi assimilada e uma forma adaptada de pederastia se tornou comum. O senhor romano buscava no jovem escravo, servo liberto ou estrangeiro não mais somente a satisfação sexual, mas o amor de Eros.

“Para evitar que comandantes assediassem seus subalternos, uma vez que o exército romano era composto por cidadãos, instituiu-se a tradição de levar os escravos amantes durante as longas campanhas. Como acontecia com as prostitutas e os exércitos ocidentais até o século 19”, compara. O homoerotismo passou a ser alvo de críticas cada vez mais contundentes até ser banido no século 4, com a adoção do cristianismo no Im­­­pério.

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