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Brasil tenta vencer guerra que americanos já perderam

Doença disseminada por um inseto que suga a seiva das plantas, o greening devastou os laranjais da Flórida e mantém pressão sobre áreas produtivas no Brasil

Jonathan Campos  | Jonathan Campos
  • Marcos Tosi

Para tirar o azedume das laranjas produzidas na Florida, os americanos precisam adicionar uma mistura cada vez maior de suco importado de países ainda não tomados pela epidemia de “huanglongbing” – grande dragão amarelo, em mandarim -, doença conhecida como greening ou HLB.

Os Estados Unidos dão como perdida a guerra contra a bactéria disseminada pelo inseto psilídeo; o país, agora, trabalha pela chegada de uma variedade de laranja geneticamente modificada resistente à doença. Por enquanto, é a laranja brasileira que adoça e corrige a acidez da laranja americana. Mas até quando?

Por ser uma doença sistêmica, sem cura, a preocupação está em manter o greening sob controle. O Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) de São Paulo criou uma lista de “10 mandamentos” de combate ao greening, por entender que apenas uma série de ações integradas podem fazer frente à praga, que é transmitida de uma planta à outra por um inseto sugador de seiva. Um dos preceitos mais importantes é a recomendação agronômica de erradicar as plantas doentes.

Não é fácil convencer um fruticultor a arrancar a árvore que ainda dá fruto. Quando o greening começou a se instalar nos pomares da Flórida, há 20 anos, houve muita resistência dos produtores em erradicar as plantas infectadas. “Quando eles deram conta do problema, já estava num nível muito elevado. A doença tinha se espalhado e eles passaram a só controlar os insetos vetores, mas, em pouco tempo, quase todas as árvores ficaram contaminadas”, observa o pesquisador Rui Pereira Leite Jr, do Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR), em Londrina.

O greening é devastador para a produtividade do pomar. No início dos anos 2000, a Flórida produzia mais de 200 milhões de caixas de laranja. Na última safra, foram apenas 48 milhões. Plantas infectadas ainda jovens nem chegam a produzir. A doença altera o sabor da fruta e ainda derruba os frutos precocemente.

No Brasil, maior produtor e exportador mundial de laranja, a incidência de greening no cinturão citrícola de São Paulo e Minas Gerais chegou a 18,15% das laranjeiras, o que corresponde a 35 milhões de árvores - segundo o Fundecitrus. É o maior índice de infestação desde a identificação da doença no País, em 2004, e 8,5% superior à estimada em 2017, de 16,73%. O Fundecitrus estima que, em 2017, cerca de 4% das frutas caíram precocemente por causa da doença, o que corresponde a 19 milhões de caixas perdidas.

Divulgação

Psilídeo é comum em cítrus e na planta ornamental conhecida como dama da noite

Para controlar o HLB, já foram erradicados 52,6 milhões de pés de laranjeiras dos pomares brasileiros, desde 2005. Só “cortar o mal pela raiz”, no entanto, não ganha a guerra contra o greening. Um estudo da Embrapa defende que a Instrução Normativa Mapa 53, de 2008, seja revisada para prever medidas de controle do inseto-vetor da doença, o psilídeo. Atualmente, qualquer pomar em produção que alcançar 28% das árvores com sintomas deve ser removido completamente.

“Se você remove uma planta sintomática que ainda está produzindo, pode não ser bom para o agricultor, mas, ao deixá-la no campo, ela vai servir de fonte para a propagação do greening na região. Ou seja, não é bom para o controle da doença. Apesar disso, para plantas mais novas, vale a pena remover. Em uma escala regional, demonstramos que isso não é suficiente [para controlar a doença]. É preciso reduzir a população do inseto-vetor. A instrução normativa só atua em relação à planta e é omissa quanto ao vetor”, diz Francisco Laranjeira, pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura, na Bahia.

Laranjeira é contra o limite para remover toda uma unidade de produção. Segundo ele, as pesquisas indicam que não adianta o produtor erradicar as plantas e combater o inseto-vetor em sua área, se os demais na região não aderirem. “Por isso, é preciso que haja um grupo de citricultores muito bem organizado ou uma estrutura regional em que haja um grande produtor que auxilie os pequenos a fazer o controle ou alguma ação pública de organização”, diz o pesquisador. Em artigo publicado no Journal of Applied Ecology, Laranjeira e outros autores defendem a necessidade de o poder público implantar ações de controle nas áreas de manejo. “Isoladamente os citricultores não vão conseguir controlar a doença”, destaca.

Parasita “do bem”

Um aliado na redução da população de psilídeos nos pomares se chama tamarixia radiata. Trata-se de uma vespinha que é parasita natural do inseto. Ele coloca seus ovos dentro do hospedeiro, quando ele ainda está no estágio de ninfa. Em vez de nascer um psilídeo, é uma tamarixia que eclode do ninfa parasitada. E, dali, aquela vespinha vai parasitar outra ninfa e assim por diante. O Iapar já distribuiu 2 milhões de vespas desde 2016 em pomares da região de Londrina, Paranavaí e Umuarama. O foco é soltar as tamarixias em pomares caseiros e em áreas urbanas, que, ao contrário das fazendas comerciais, não recebem aplicação de inseticidas.

“A tamarixia é um parasita específico do psilídeo. Ela não se multiplica em outro inseto. Às vezes, ela não encontra o psilídeo e morre. Quando diminui a população da praga, diminui também a população do parasitoide, porque não encontra o hospedeiro. Daí aumenta de novo a praga, e voltamos a aplicar o parasitoide”, explica Rui Pereira Leite Jr.

Somada a outras práticas de manejo, como a pulverização das bordas dos pomares comerciais (onde geralmente o psilídeo ataca), a introdução das vespinhas já se mostrou eficiente em parasitar até 80% a população de psilídeos.

Defender apenas os pomares, no entanto, não é suficiente. Para enfrentar o greening, o “front” de batalha precisa ser estendido às cidades e fundos de quintais. O inseto psilídeo se abriga nos limoeiros e laranjeiras domésticas e nas murtas, plantas ornamentais popularmente conhecidas como dama da noite.

Em São Paulo, técnicos do Fundecitrus percorrem áreas urbanas propondo à população a erradicação dessas plantas hospedeiras. Eles explicam o mal que o psilídeo causa e oferecem três ou quatro árvores frutíferas alternativas para substituir as plantas que precisam ser erradicadas.

O coquetel de medidas preventivas, prescrito nos “10 mandamentos contra o Greening”, é visto, por enquanto, como a melhor forma de enfrentar a doença.”Muitos pomares comerciais que seguem com rigor estas medidas estão conseguindo um controle bastante efetivo do greening, com índices da doença inferiores a 1%”, relata o pesquisador Renato Bassanezi, do Fundecitrus.

A esperança de uma solução definitiva para o greening, tanto no Brasil como nos Estados Unidos, está no desenvolvimento de uma variedade de laranja transgênica resistente à doença. O Iapar já pediu autorização da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) para testar uma variedade modificada. No ano que vem devem começar os testes e, depois, serão necessários outros quatro ou cinco anos para avaliar o comportamento das plantas e a qualidade dos frutos.

Ou seja, ou se mantém o greening sob controle, seguindo à risca os “10 mandamentos” do Fundecitrus, apelando para vespinhas, pulverizações e erradicação de plantas doentes, ou a laranja vai mesmo azedar. 

Os 10 mandamentos contra o greening, segundo o Fundecitrus

1- Planejamento e escolha do local de plantio, priorizando regiões com baixa incidência de greening;

2- Plantio de mudas sadias e de qualidade, vindas de viveiros certificados;

3- Aceleração do crescimento e da produtividade das plantas, que antecipa o início da produção e reduz o período de exposição das árvores ao psilídeo na sua fase mais suscetível, que é nos primeiros cinco anos após o plantio;

4- Manejo intensificado na faixa de borda do pomar, local onde o psilídeo predominantemente se instala e onde estão as maiores incidências da doença;

5- Inspeção de plantas para detectar árvores doentes;

6- Erradicação das plantas com sintomas;

7- Monitoramento do psilídeo por meio de armadilhas adesivas amarelas e inspeção visual;

8- Controle do psilídeo com uso de inseticidas;

9- Manejo regional e participação no sistema de Alerta Fitossanitário do Fundecitrus;

10- Ações externas de manejo, nos arredores das propriedades, pois o psilídeo pode migrar de murtas e plantas de cítrus sem controle, localizadas em chácaras, sítios, ranchos e quintais, nas áreas rural e urbana, para dentro dos pomares comerciais, comprometendo todas as ações descritas acima.

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