Se existe um lado positivo na seca, é o estímulo à discussão em torno da defesa de práticas agrícolas ambientalmente sustentáveis. Entre as lideranças de movimentos sociais, pesquisadores e estudiosos é cada vez mais comum encontrar críticos do atual modelo agrícola brasileiro, que favorece o cultivo de extensas áreas com uma única espécie, nas quais são usadas grandes quantidades de adubos químicos e pesticidas.
Esse modelo, desenvolvido no país a partir de meados dos anos 60, e chamado de Revolução Verde, tem como princípio a produção em larga escala de poucas culturas agrícolas, geralmente destinadas à exportação as chamadas commodities. Foi ele que fez brotar Brasil afora, lavouras monocromáticas e intermináveis de soja, milho, algodão e cana-de-açúcar. Até as pequenas propriedades trocaram as roças de subsistência por cultivos comerciais.
"A fertilidade de um solo está na diversidade de seres vivos que o habitam. Com o uso intensivo de inseticidas, herbicidas e adubos químicos, eliminamos essa diversidade dada pela matéria orgânica e retiramos do solo a capacidade de absorver e armazenar água", afirma o agrônomo e engenheiro florestal Sebastião Pinheiro, funcionário do Núcleo de Economia Alternativa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e especialista em agricultura orgânica.
Nas palestras e cursos que ministra em toda a América Latina, Europa e África, Pinheiro descreve um raciocínio no qual as extensas monoculturas, ao mesmo tempo em que "promovem" a seca, exigem mais água para se desenvolver.
O uso intensivo de insumos químicos solúveis, explica o estudioso, aumenta a salinidade das plantas, fazendo com que elas precisem de mais água. Nesse cálculo, a produção de um quilo de soja orgânica consome 1,7 mil litros de água. Na soja convencional, a relação é de 2,5 mil litros. Na soja transgênica, chega a 3,5 mil litros.
Na avaliação de Altemir Tortelli, coordenador geral da regional Sul da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf-Sul), o domínio das monoculturas, além de contribuir para o agravamento da questão climática, gerou um problema de segurança alimentar. "As famílias viviam no campo e produziam feijão, trigo, milho, porco, leite, carne, frango, vinho. Com o novo modelo agrícola induzido, elas abandonaram as lavouras e criações de subsistência, comprando tudo na cidade", analisa Tortelli. "De produtor de alimentos, o agricultor virou consumidor. A sobrevivência de sua família passou a depender de fatores externos à propriedade."
Depender de apenas um cultivo, geralmente com demanda e preço formados no exterior, também é um péssimo negócio para os agricultores, especialmente os pequenos. O alerta é do economista paranaense José Germano Batista Rodrigues, do Departamento de Estudos Sócio-Econômicos Rurais (Deser), uma ONG criada há 18 anos e que defende a agroecologia.
Rodrigues, com formação em Agroeconomia na Alemanha e especializado em mercados agrícolas e negociações internacionais, defende que os produtores com área até 40 hectares só cultivem soja como segunda opção, depois de destinar áreas a lavouras de subsistência. Nesse perfil fundiário se encaixam as 300 mil famílias de agricultores familiares do Paraná, que somam 1 milhão de pessoas.
"Não somos contra produzir soja, mas contra depender exclusivamente dela", diz Tortelli. A Fetraf elaborou uma escala de prioriedades econômicas para a agricultura familiar: produzir comida para a família; atender mercados locais com hortaliças, frutas e grãos; produzir leite, que tem baixo custo de produção e oferece renda mensal e unir-se em cooperativas para industrializar a produção e lucrar mais.
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