Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Fruticultura

Produtores de maçã atribuem falta de mão de obra ao Bolsa Família

Produção de maçã depende de colheita manual, mas setor enfrenta dificuldade para contratar mão de obra por causa do Bolsa Família
Produção de maçã depende de colheita manual, mas setor enfrenta dificuldade para contratar mão de obra por causa do Bolsa Família (Foto: Aires Mariga/Epagri)

Ouça este conteúdo

Em meio à expectativa de uma safra histórica, produtores de maçã têm enfrentado dificuldade para contratar mão de obra para o período de colheita. Uma das causas identificadas pelo setor é o receio que beneficiários do Bolsa Família têm de perderem acesso ao benefício caso ocupem a função.

O impasse reside na natureza temporária do trabalho, que dura em média 90 dias. Considerando as atuais regras do programa, o risco que se considera é o de que o recebimento do salário suspenda, ainda que temporariamente, o pagamento do auxílio.

“Dentro da política atual, eles estão certos”, diz Moisés Lopes de Albuquerque, diretor-executivo da Associação Brasileira de Produtores de Maçã (ABPM). “Como o emprego é temporário, como ele vai ter a segurança de que, no momento que esse trabalho terminar, ele vai conseguir voltar para o programa?”

Albuquerque explica que, como entidade representativa do setor, a ABPM não é contra o Bolsa Família, mas defende que, nesse tipo de situação, o beneficiário possa ser contratado temporariamente sem perder o benefício.

VEJA TAMBÉM:

Diferente de grandes culturas como soja e milho, nas quais a colheita pode ser integralmente mecanizada, a maçã exige o trabalho manual. “O que se pode fazer é adotar tecnologias semimecanizadas que ampliem a produtividade do trabalhador, mas a mão humana ainda é necessária”, explica Albuquerque.

Conforme dados da associação, o Brasil tem cerca de 35 mil hectares de pomares de maçã, embora em 2010 tenha chegado próximo de 40 mil. “Há um conjunto de fatores que levaram a essa retração, mas o principal deles foi justamente a falta de mão de obra”, afirma.

O período de colheita de maçã ocorre entre o final de janeiro e o mês de abril. Estima-se que o setor demande cerca de 70 mil pessoas para dar conta da produção nacional, considerando uma média de dois trabalhadores por hectare no pico da colheita.

O cultivo comercial de maçã no Brasil está fortemente concentrado no Sul do país, principalmente nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, que juntos respondem por 95% da produção nacional. Os principais polos produtores são Vacaria (RS), Fraiburgo (SC) e São Joaquim (SC).

VEJA TAMBÉM:

Segundo o diretor da ABPM, a carência de pessoal é generalizada, atingindo todas as regiões produtoras do país, mas é relatada principalmente na Serra Catarinense, onde o perfil de pequenos produtores limita a capacidade de recrutamento em regiões mais distantes do país.

De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS), o Rio Grande do Sul tem 519.749 famílias contempladas pelo Bolsa Família, enquanto Santa Catarina conta com 201.518 famílias beneficiárias.

Dificuldade de contratação por causa do Bolsa Família atinge outras produções

O problema afeta também outros segmentos da fruticultura brasileira e tem sido reportado por representantes do setor ao governo federal há anos. Em 2024, o diretor institucional da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), Luiz Roberto Barcelos, chegou a ser recebido, em Brasília, para tratar do assunto.

Na ocasião, o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias, disse que mudanças realizadas no Bolsa Família permitem que beneficiários tenham carteira assinada e aumentem sua renda sem perder o auxílio.

“Assinar a carteira, regularizar o CNPJ, não são mais razões para perder benefício, conta somente a renda do trabalho”, afirmou Dias.

A chamada Regra de Proteção, que assegura que um beneficiário não perca o auxílio com aumento da renda, não contempla todos os empregados temporários do período de colheita de maçã.

O Bolsa Família é pago a famílias cuja renda total seja de até R$ 218 por integrante – valor considerado limite da linha de pobreza. A Regra de Proteção prevê que a elevação de renda per capita para até R$ 706 não excluirá o beneficiário imediatamente.

Um aumento até esse patamar dará direito ao beneficiário de continuar no programa por até 12 meses, recebendo 50% do valor do benefício.

VEJA TAMBÉM:

Salário médio de trabalhador na colheita de maçã é de R$ 3 mil, segundo associação

Segundo o diretor da ABPM, o salário médio de um contratado temporário para o período de colheita de maçã gira em torno de R$ 3 mil.

Em uma família com três pessoas, por exemplo, esse valor pode elevar a renda mensal total para cerca de R$ 3.654 no período da colheita, o equivalente a R$ 1.218 por integrante — bem acima do limite de R$ 218 por pessoa exigido para acesso ao Bolsa Família.

Pelas regras do programa, em casos de grande variação de renda, é considerada a média dos últimos 12 meses, mecanismo criado para evitar a exclusão imediata de famílias com ganhos sazonais. Assim, segundo representantes do setor, beneficiários são desestimulados a procurar outros trabalhos temporários para não elevar a renda média acima do limite do programa.

Bolsa Família: Projeto prevê mudanças para trabalhadores safristas

No Congresso Nacional, uma solução para o entrave está prevista no projeto de lei (PL) 715/2023, de autoria do deputado federal Zé Vitor (PL-MG). Apelidado de “PL dos Safristas”, o texto propõe que a remuneração recebida em contratos de safra não afete a elegibilidade de benefícios sociais.

“No intuito de fomentar a contratação formal, ainda que por prazo determinado e sem que se deixe de assistir às famílias que necessitem de tais benefícios, que podem vir a suportar dificuldades a longo prazo em razão de um contrato de curta duração, é que se propõe o presente projeto de lei”, explica o parlamentar na justificativa da proposição.

O projeto foi aprovado na Câmara em junho de 2024 e no Senado em dezembro de 2025, mas retornou à primeira Casa legislativa em razão de alterações feitas pelos senadores. Desde então, aguarda a análise final por parte dos deputados.

Governo diz que famílias podem solicitar retorno ao programa até 36 meses depois do cancelamento

Procurado pela reportagem, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social afirmou que o cálculo da renda no Cadastro Único, critério para acesso ao Bolsa Família, já leva em conta a alta variação de renda das famílias, especialmente aquelas que dependem de atividades informais, sazonais ou da agricultura.

Segundo a pasta, a análise considera duas formas de cálculo da renda familiar:

  • A renda familiar per capita do último mês;
  • A renda familiar per capita média dos últimos 12 meses.

“Na prática, o sistema compara esses dois valores e considera o menor deles para fins de elegibilidade e permanência no Bolsa Família. Esse mecanismo evita que famílias com renda instável ou sazonal sejam excluídas do programa devido a ganhos pontuais”, diz a pasta.

VEJA TAMBÉM:

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.