Expedição Safra 

Agrônomo de Goiás é pioneiro ao ‘transformar’ cana em soja - e vice-versa

Produtor garante: é possível utilizar áreas de cana para o plantio de soja sem ‘tocar fogo’. Sistema sustentável beneficia produção e meio ambiente

Fernando Zequinão/Gazeta do Povo O engenheiro agrônomo Paulo Henrique Cardoso em área de plantio de soja.  | Fernando Zequinão/Gazeta do Povo

O engenheiro agrônomo Paulo Henrique Cardoso em área de plantio de soja. 

Panamá e Goiatuba (GO) |

  • Giorgio Dal Molin, enviado especial

O nome dele é Paulo Henrique Garcia Cardoso. Paulista, se mudou para Goiás ainda nos anos 90 para buscar trabalho como agrônomo. Foi além: hoje é sócio de uma empresa de insumos agrícolas e adquiriu terras, onde aplica seus conhecimentos. Há quatro anos, foi pioneiro no estado ao aplicar um modelo de ‘transformação’ de cana em soja sem queimadas.

Pelo modelo convencional, para transformar cana em uma área de soja, utiliza-se fogo para queimar a palha de cana e, após, trabalhar a terra. Pelo plantio direto aplicado por Paulo Henrique, a palha da cana é mais do que aproveitada: ela auxilia na produtividade da soja. 

Como o carro chefe dos 3 mil hectares do engenheiro agrônomo é a cana, a cada ano uma nova parte dos hectares é destinado à soja. No ano seguinte, essa mesma área volta a ser cana. E das boas. 

Vamos ao exemplo desta safra. Atualmente, ele tem 2,1 mil hectares de cana. Os 900 hectares restantes eram cana até meados deste ano e vão virar soja. “Desseco a cana [em uma altura menor] e uso a palha de cana como adubo verde mesmo. Então, plantamos a soja em cima da palhada de cana”, explica. Confira no vídeo como funciona: 

O equipamento foi originalmente projetado para plantar a soja sob a palha de trigo, e passou por adaptações graças à consultoria de Paulo Henrique, que foi convidado pela empresa fabricante a ajudar no projeto da nova plantadeira. “Agora tem várias usinas copiando o trabalho que fazemos aqui”, afirma. 

Solo fresco e produtivo

Esse método é aplicado após 7 anos de cortes na cana. O resultado é uma soja diferenciada: na safra passada chegou a 67 sacas por hectare - enquanto a média nacional fica em 55. Isso acontece pela manutenção da área sem a queimada, o que além de evitar a degradação ambiental, faz o solo ser mais nutritivo para o crescimento da planta. 

“Ocorre um equilíbrio maior do sistema. E com o preço do diesel, fazer esse plantio direto evita umas quatro gradagens de área [que seriam necessárias com queimada]”, destaca. A gradagem é uma etapa de preparação de solo com máquinas que funcionam a óleo diesel. 

Outro benefício é o bem-estar da planta, trazendo melhores resultados: “Com o plantio convencional (que utiliza o fogo), em um dia com temperatura de 33 graus, a terra pode passar dos 40 graus, e a planta de soja pode ter escaldadura, uma doença fúngica que mata a planta. Quando trabalhamos com a palha, os mesmos 33 graus, no solo, a temperatura cai para 22 ou 23 graus”, explica o agrônomo. 

Fernando Zequinão/Gazeta do Povo

Paulo Henrique Garcia Cardoso em área de plantio de cana. Após sete anos de cortes, a cana dá lugar a uma safra de soja. 

A palha da cana já se mostrou, inclusive, melhor que a palha de milho - utilizada após a colheita do milho segunda safra em diversos estados brasileiros, inclusive em Goiás, para auxiliar no crescimento da planta da soja.

“Eu chamo até essa palha de seguro. Há alguns anos, tivemos um veranico de 33 dias, que prejudicou muito nosso estado. Em uma área que fiz o plantio com palha de milho, colhi 33 sacas por hectare, e tive que acionar o seguro rural. Na palha de cana, foram 56 sacos. Isso em fazendas uma ao lado da outra, que passaram pelo mesmo déficit hídrico”, lembra o agrônomo, referindo-se à safra 2015/16, quando o Brasil teve prejuízo superior a R$ 16 bilhões devido à quebra de safra. 

Com os bons resultados comprovados, anualmente, uma parte dos hectares de cana continua sendo utilizado para a soja – que no próximo ano dará novamente lugar à cana. Mas o sucesso não é reflexo apenas da rotação das culturas. Como a cana ‘só sai de cena’ em uma área reduzida, e leva pelo menos 7 anos de cortes para dar lugar à soja, o agrônomo destaca que faz um trabalho diferenciado. “Fazemos a manutenção de produtividade todos os anos, com a correção de solo, com gesso, calcário, fósforo. Isso é bom tanto para a cana quanto para a soja”, explica Paulo Henrique. 

Ele conta que, em testes recentes de laboratório, comprovou: o perfil do solo está totalmente corrigido. Bom para a produtividade, para os resultados financeiros e também para o meio ambiente, que não sofre com queimadas, erosão de solo, entre outros problemas. 

Expedição Safra 2018-19 em Goiás Ampliar

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