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Por que produção, exportações e até importações de milho despencaram em 2018

Quebra de safra, demanda interna, fábricas de etanol de milho: como explicar a baixa das exportações com o preço em bons patamares para os produtores?

Albari Rosa/Gazeta do Povo Exportações e importações de milho em 2018 no Brasil tiveram recuo: respectivamente de 20% e 30%. | Albari Rosa/Gazeta do Povo

Exportações e importações de milho em 2018 no Brasil tiveram recuo: respectivamente de 20% e 30%.

  • Giorgio Dal Molin

As exportações de milho no Brasil despencaram em 2018: 19,5% a menos que em 2017, no período de janeiro a dezembro, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). De 29,2 milhões de toneladas no ano anterior, em 2018 foram 23,5 milhões exportadas.

Não existe um motivo para isso: existem vários. Especialista da consultoria Safras e Mercado, Paulo Molinari destaca a quebra da safra de inverno: “A quebra da safrinha no Paraná, no Mato Grosso e em São Paulo levou o produtor à retenção do milho, o que também inibiu o fluxo de exportação”.

Segundo ele, o ano comercial encerrado no período de fevereiro – que “é o que vale” para o setor econômico, explica o analista – traz saldo um pouco diferente. A estimativa preliminar da consultoria é fechar com 23,4 milhões de toneladas em exportações (o número pode aumentar com atuais 2,5 milhões de toneladas na fila de exportações dos portos), contra 30,8 milhões do ano comercial anterior.

INFOGRÁFICO: Menor produção de milho no Brasil em 2018 provocou impacto direto nas exportações

“Houve seca no mês de abril e maio, o que pegou o milho na floração e pendoamento, ou seja, a fase crítica. Em algumas regiões do Paraná e do Mato Grosso, houve lavouras com perda de mais de 50%. Essa quebra provocou a retenção das exportações”, afirma Molinari.

Ao todo, o Brasil colheu 80 milhões de toneladas de milho somadas 1.ª e 2.ª safra 2017/2018, contra 97 milhões no período anterior, segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).

Exportações de milho: Porto de Paranaguá

Um impacto direto aconteceu nas exportações de milho pelo Porto de Paranaguá em 2018. Em 2017, 3,55 milhões de toneladas saíram pelo terminal rumo ao exterior. No ano recém encerrado, ficou em 1,1 milhão: queda de 69%, revelou a Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina (Appa) em seu último balanço.

Diretor-presidente da Appa até 31 de dezembro, Lourenço Fregonese avalia a redução como ‘normal’: para ele, a preferência da produção foi pelo mercado interno para abastecer granjas de aves e suínos, além da pecuária bovina:“Foi uma questão de preço, quebra de safra e demanda do grão por ração animal, que teve prioridade”.

Albari Rosa/Gazeta do Povo

Crescimento de lavoura de milho em Maringá, no Noroeste do Paraná.

Importações de milho também recuam

O mercado da região de Cascavel, no Oeste do Paraná, confirma a avaliação de Fregonese. Por lá, 90% da produção de milho é utilizada para ração, estima Paulo Cézar Vallini, diretor do sindicato rural do município. “Praticamente tudo fica na região, que é altamente transformadora. Às vezes tem que trazer um pouco do Mato Grosso do Sul”, indica.

Ainda que o Paraná seja o segundo maior produtor do país, atrás do Mato Grosso, outra fonte de compra é o Paraguai, destaca Paulo Molinari. Mesmo assim, as importações de milho no Brasil em 2018 despencaram, a exemplo das exportações: 30% menos milho importado, comparado a 2017. Em números: de 1,32 milhão de toneladas recuou para 923 mil toneladas.

No Brasil como um todo, o consumo para ração animal também não cresceu muito: pulou de 50 para 50,8 milhões de toneladas em 2018, estima o especialista da Safras e Mercado.

“O que houve de novo no processo foram novas fábricas de etanol de milho que começaram a surgir no Mato Grosso e Goiás”, afirma Paulo Molinari. Faz sentido: o Brasil vem crescendo a produção do etanol de milho, com um modelo flex, capaz de produzir o combustível com o grão ou com a cana.

Preço do milho em 2018: o que dizem os produtores

Após o boom de preços em 2016, batendo em R$ 50 a saca (60kg) em algumas regiões, a área de plantio saltou de 15,9 milhões de hectares no Brasil para 17,6 milhões no ano seguinte, segundo dados da Conab.

Com o excesso de oferta, em 2017 o grande problema foram os preços baixos: o valor da saca chegou a uma média de R$ 25, segundo o indicador Esalq/BM&FBovespa. Em algumas regiões, ficou abaixo dos R$ 20. Um ano depois, recuperou valor e chegou ao pico de R$ 42,69 na média de maio, pelo indicador da Esalq.

“A safrinha, desta vez, pagou os custos de produção e deu uma margem. Aqui a perda não chegou a 10% e a qualidade do grão foi fantástica, com 100, 110 sacas por hectare. E o preço não dá para reclamar, já que a maioria foi de contratos travados a R$ 35”, afirma Valmir Schkalei, produtor em Assis Chateubriand, no Oeste paranaense.

Arquivo pessoal

Valmir Schkalei, agricultor de Assis Chateubriand.

Conforme avaliação do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Esalq/USP), “a menor oferta sustentou os preços domésticos na maior parte do ano, reduzindo a competitividade do cereal no mercado externo, contexto que limitou as exportações do milho”.

A grande preocupação, geralmente, não é nem dar lucro – já que a aposta de 100 entre 100 produtores é sempre a soja –, mas pelo menos cobrir os custos de produção. “É uma cultura de risco. A questão climática pesa muito”, afirma Vallini. O grande objetivo é fazer a rotação de cultura preparar o solo e fazer palhada para a soja, com o objetivo de ampliar a produtividade da safra de verão.

O agricultor Valdir Fries, de Itambé, no Noroeste paranaense, confirma: “Em termos de milho safrinha 2018 na região, não houve perdas significativas que tenha comprometido os custos de produção. E em relação a cultivo de milho plantado no verão, também não se tem plantado por aqui, uma vez que a rotação já se da na prática de soja verão e milho inverno”.

Diferente de Valdir Fries, que já iniciou o plantio do milho, com o objetivo de colher para formar uma 3ª safra de trigo, Valmir Schkalei preferiu não arriscar. A forte estiagem fez com que, desta vez, as plantadeiras não acompanhassem as colheitadeiras. “Vou esperar chover mais”. Agora, é esperar que o tempo (tanto clima quanto o período de plantio) colabore com ambos.

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