Expedição safra

Um olho na soja e outro no milho: estratégia errada, dizem especialistas

Produtores do Paraná antecipam o plantio da oleaginosa para evitar problemas na safrinha de milho; mas nem sempre essa é a melhor estratégia

Jonathan Campos  | Jonathan Campos

Londrina e Maringá (PR) |

  • Gabriel Azevedo, enviado especial

Desde que a segunda safra de milho, a chamada ‘safrinha’, se tornou mais produtiva que a primeira, em 2011, os produtores passaram a se preocupar cada vez mais com a chamada ‘janela ideal’ e a antecipar o plantio da soja. A lógica é simples. Quanto mais cedo a oleaginosa é colhida e o cereal semeado, a segunda cultura fica menos suscetível a riscos climáticos como geadas, por exemplo.

No Paraná, no último ciclo, o anseio por uma boa safrinha fez com que muitos produtores plantassem a soja no seco. Muitos foram frustrados e precisaram fazer replantio. Quem plantou um pouco mais tarde, quando as chuvas vieram, também não teve bons resultados. Além do atraso para retirar a oleaginosa, a safrinha sofreu com uma forte estiagem que provocou uma quebra de 30% no Paraná.

De olho neste cenário, alguns produtores dobraram a aposta. Segundo o presidente do Sindicato Rural de Maringá, José Antonio Borghi, aumentou substancialmente o número de agricultores que estavam com as máquinas reguladas na véspera do início da janela de plantio de soja, 10 de setembro. “No ano passado era um ou outro. Neste ano foram vários. E se o clima continuar assim, eles vão ter bons resultados”, afirma. De acordo com Borghi, que também é produtor rural e vai plantar 500 hectares de soja neste ano, foi o cenário do ano passado que provocou essa corrida.

O presidente conta que o plantio da safrinha no ano passado atrasou demais, a média de produtividade do cereal na cidade ficou em 3.500 kg/ha. “Não foi tão ruim. Mas acredito que existe uma tendência do produtor plantar safrinha com mais segurança. E isso pode provocar uma redução na área nos próximos anos. Tem muito produtor pensando em plantar aveia, braquiária. O custo de milho é quase igual da soja. E o risco é muito grande”, conta.

Jonathan Campos/Gazeta do Povo
Produtor e agrônomo, Otávio Perin Filho inspeciona condições da lavoura no Norte do Paraná

Os pesquisadores da unidade de Soja da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em Londrina, Alvadi Balbinot e Dionisio Gazziero concordam. “No ano passado, os produtores e técnicos estavam desesperados com a seca antes do plantio da soja. Eu defendo que os produtores precisam se dedicar com exclusividade naquela cultura que estão trabalhando, do começo ao fim. Pensar em outra cultura antes de terminar a outra provoca erros no manejo que podem acarretar em perdas na produtividade. A soja é uma cultura privilegiada. Ela merece atenção”, diz Gazziero, que também é conselheiro do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná.

Segundo Balbinot, a pressa por uma boa safrinha provoca erros de manejo, que podem diminuir a rentabilidade. “Muitos produtores fazem a sucessão soja-milho em 100% da área. E isso pressiona a dessecação antecipada. Muitas vezes essa pressa é um tiro no pé, que acaba aumentando os custos de produção. Por isso a importância de um planejamento agronômico bem feito, um acompanhamento técnico”, afirma.

Expectativa

As regiões de Londrina e Maringá vão semear 580 mil hectares de soja. Na cidade do Norte, o plantio atingiu 55%; na segunda cidade, 85%. Na opinião do produtor rural e agrônomo Otávio Perin Filho, que neste ano plantou 270 hectares de soja, a expectativa é muito boa para safra. “No ano passado, fiquei com uma média de 65 sacas por hectare. Neste ano, pretendo tirar o mesmo ou mais. As lavouras, pelo menos neste início, estão muito boas”, afirma.

O presidente do Sindicato de Maringá concorda. “As lavouras estão muito boas. Nós tivemos alguns dias de sol, que permitiu que os produtores pudessem continuar o plantio. No ano passado, Maringá teve uma média de 3.500 kg/ha. Temos potencial para chegar no mesmo índice. Tudo vai depender do clima, é claro. Mas esperamos uma boa safra, o plantio não teve problemas”, conta.

Jonathan Campos/Gazeta do Povo

José Antonio Borghi, produtor rural de Maringá

Em Londrina, os pesquisadores também têm a mesma impressão. “Os produtores estão bem equipados, trabalhado a todo vapor com as máquinas. Na média, não estamos atrasados. Tivemos uma boa condição de implantação. A previsão é que as chuvas terminem no sábado. Aí teremos uma boa janela para continuar e fechar as áreas”, diz Balbinot.

O pesquisador Dionisio Luiz Pisa Gazziero diz que tudo está ocorrendo normalmente até o momento. “Não ouvimos nenhuma reclamação de produtores até o momento. A percepção é de uma largada muito boa. É claro que algo pode acontecer no caminho. É preciso ter um bom manejo integrado de pragas, controle com doenças, cuidar com o manejo. Mas a expectativa é de uma boa safra”.

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