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Lavoura de soja em duas etapas de maturidade, em lavoura no Maranhão.
Lavoura de soja em duas etapas de maturidade, em lavoura no Maranhão.| Foto: Lineu Filho / Arquivo Gazeta do Povo

Volta e meia o discurso pseudoambientalista direciona suas baterias contra a agropecuária brasileira, tanto aqui como no exterior, tentando associar os produtores a ações predatórias no uso dos recursos naturais. "Essas pessoas, ou mal informadas ou por vontade ideológica contra o agro, acabam sendo mais eficientes na comunicação do que os técnicos, os cientistas que estão realmente na lida do agro diariamente. A contribuição dos agricultores para produção de alimentos, de fibras e de energia renovável, deveria ser motivo de orgulho para todo brasileiro, independente de visão ideológica ou partidária", diz José Otávio Menten, professor da USP/Esalq e membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS).

Uma maneira de separar mitos e preconceitos dos fatos é olhar as séries históricas consolidadas da produção de alimentos no País, compiladas pela Embrapa. Apoiados em bases científicas, nas últimas três décadas os produtores adotaram um considerável número de tecnologias que culminaram em “altos volumes, com alta qualidade, além de permitir que as florestas do País sejam protegidas tanto nas propriedades agropecuárias quanto em áreas nativas”.

O trecho entre aspas é de um relatório de 2021 da Embrapa intitulado Tecnologias Poupa-Terra, que leva a assinatura de 57 autores – todos pesquisadores, mestres e doutores da instituição. O documento refuta, com números e estatísticas, o “diz-que-me-disse” e os achismos sobre a agricultura brasileira. Em cada cultivo agrícola, os avanços têm estreita ligação com adoção massiva de tecnologias, boas práticas e processos modernos de produção.

Veja exemplos de sustentabilidade pelo efeito poupa-terra (produzir mais em menos espaço) obtido em diferentes cadeias produtivas.

Café reduziu área, mas triplicou produção

De 1997 para 2020, a produção de café triplicou no Brasil, mesmo com redução de mais de 20% da área plantada. O Valor Bruto da Produção saiu de R$ 20,3 bilhões em 1997 para R$ 36 bilhões em 2020. O País é o maior produtor e exportador de café, e segundo maior mercado consumidor. A participação brasileira na produção mundial, no período de comparação, saltou de 19% para 37%.

Contribuíram para esse desempenho o sequenciamento de 33 mil genes do café, incluindo aqueles responsáveis pelo aroma, sabor, corpo, acidez, tolerância à seca e resistência a nematoides. Cultivares mais adaptadas a cada região produtora do País também foram desenvolvidas, diminuindo a exigência de defensivos e perdas por intempéries climáticas sazonais. A aplicação de nutrientes essenciais na dose certa para desenvolvimento dos cafezais também foi possível após experimentos financiados pelo Consórcio Pesquisa Café. O plantio adensado, ainda que diminua a produção anual por planta, aumenta em contrapartida a colheita por unidade de área.

Milho quadruplicou colheitas em três décadas

Segunda commodity mais produzida no País, o milho quadruplicou o volume colhido em três décadas, o que permitiu ultrapassar pela primeira vez a marca de 100 milhões de toneladas em 2019/20. A produtividade média, que era de 1.841 kg/ha em 1990, saltou para 5.520 kg/ha. Para produzir as 102 milhões de toneladas colhidas em 2020, mantidas as produtividades de trinta anos atrás, seriam necessários 55,5 milhões de hectares (foram utilizados 18,5 milhões). O efeito poupa-terra foi de 37 milhões de hectares.

Único cereal do mundo a produzir anualmente mais de 1 bilhão de toneladas, o milho ganhou renovado impulso no Brasil graças ao cultivo de segunda safra, que no começo era chamado de “safrinha” devido à menor relevância. Pois a safrinha virou “safrona”, e em 2019/20 representou 75% do volume produzido, contra 25% do milho verão. A área plantada com milho safrinha, de 256 mil hectares em 1990, saltou para 13,73 milhões de hectares em 2020. Plantio direto, genética e biotecnologia explicam a versatilidade do cereal nas mãos dos produtores brasileiros.

O desenvolvimento de variedades de soja mais precoces, antecipando o plantio em quase 50 dias, também abriu uma janela maior no calendário de cultivo do milho, diminuindo os riscos climáticos. A dobradinha soja-milho, pelo sistema de plantio direto, bateu antecipadamente a meta do governo de 8 milhões de hectares em 2020 (chegou a 9,97 milhões de hectares) como forma de mitigar a emissão de gases de efeito estufa.

A transgenia foi um marco no controle de ervas daninhas – atualmente 93% do milho plantado no Brasil é transgênico – assim como o manejo integrado de pragas para controlar o ataque de insetos. O crescimento da produção de etanol de milho no Brasil, de quebra, favorece um novo impulso à pecuária, já que os Grãos Secos por Destilação (DDG) são importante fonte alimentar para confinamento dos bovinos.

Laranja poupou 499 mil hectares de terra

Na fruticultura, em que o Brasil é o terceiro produtor mundial (atrás apenas da China e da Índia), o volume das colheitas, por hectare, aumentou em média 64%, entre 1990 e 2018. A laranja, que lidera em área cultivada, produção e exportação, elevou a produtividade em 84,8% no período, o que representa um efeito poupa-terra de 499 mil hectares (cerca de 82% da área total plantada). Ou seja, se fosse mantida a mesma produtividade de três décadas atrás, a colheita atual demandaria pomares de 1,08 milhão de hectares, quase o dobro dos atuais 589 mil hectares.

Contaram para os ganhos de desempenho, entre outras tecnologias, o adensamento do plantio, a irrigação, a migração para regiões mais favoráveis em termos climáticos, e o desenvolvimento de novos porta-enxertos – mais precoces, resistentes a doenças, carregados de frutos e com suco de melhor qualidade.

O dobro de uvas, com destaque para as sem sementes

A produção de uvas para exportação no Vale do São Francisco passou nos últimos 15 anos por uma rápida substituição de cultivares. As novas variedades dobraram a produtividade média por hectare (de 25 para 50 toneladas), com a possibilidade de uma segunda safra anual. Cultivares como a BRS Vitória consolidaram o consumo de uvas sem sementes no País e reduziram os volumes importados. A colheita naquela região, segundo o IBGE, passou de 232,8 mil toneladas em 2004 para 551,3 mil toneladas em 2019, um incremento de quase 120%, enquanto a área cultivada aumentou apenas 30% nesse período. Os avanços se deram, entre outros motivos, pela alta fertilidade das gemas, adensamento do plantio e adoção de copas com cordão duplo.

Melões dobraram produtividade

Outra fruta que dobrou a produtividade foi o melão, de 14 toneladas por hectare em meados dos anos 90 para 29 toneladas por hectare em 2021. O Rio Grande do Norte responde por mais de 50% da produção e da exportação de melões, seguido por Ceará, Pernambuco e Bahia, locais de clima seco e temperaturas elevadas, ideais para o desenvolvimento da cultura. Dentre os principais fatores que elevaram a produtividade, estão a introdução de sementes híbridas, adubação conforme análise do solo, irrigação por gotejamento, cobertura do solo (mulching), uso de manta agrotêxtil, adensamento de plantio, manejo integrado de pragas e doenças, qualificação da mão de obra.

Algodão poupou 20 milhões de hectares com ganhos de tecnologia

O algodão merece um capítulo à parte na evolução tecnológica, e teve sua queda e reerguimento já contados em reportagem desta Gazeta do Povo. Na década de 70 a produtividade era de somente 140 kg/ha. Na média das últimas cinco safras o salto foi de 1.100%, chegando a uma colheita de 1.730 kg/ha. É a maior produtividade mundial em sistema de plantio sem irrigação. Se não fosse esse salto, o País precisaria 20 milhões de hectares para colher os volumes atuais, que demandam apenas 1,5 milhão de hectares. O Brasil deixou de copiar o sistema de cultivo de regiões temperadas, “tropicalizou” o algodão no Cerrado com melhoramento genético, plantio direto e fertilização sob medida. A acidez dos solos foi corrigida com a ajuda de sistemas conservacionistas que preservam alto teor de matéria orgânica.

Tecnologia poupou 71 milhões de hectares no cultivo da soja

O Brasil é o maior produtor mundial de soja ocupando apenas 4,5% do seu território para cultivá-la. Em termos de efeito poupa-terra, se fosse mantida a mesma produtividade da época de introdução da cultura no país (anos 60), a área necessária para obter a mesma produção da safra 2019/20 precisaria ser 195% superior. Ou seja, uma poupança de 71 milhões de hectares. Pode-se somar a isso outros 15,8 milhões de hectares economizados pela intensificação do uso da terra (segundas safras de algodão e milho). Tem-se, assim, 86,8 milhões de hectares poupados pela evolução tecnológica da soja no país.

A soja brasileira chegou à liderança global graças à atenção dos agricultores quanto às recomendações do zoneamento agrícola de risco climático, melhoramento genético para maior potencial produtivo, transgenia, fixação biológica de nitrogênio, cultivares resistentes a pragas, adubação de precisão, plantio direto sobre a palha, redução das perdas na colheita, e, mais recentemente, Integração Lavoura Pecuária e Floresta.

Bois brasileiros estão mais gordos

Na pecuária, a Embrapa projeta que o Brasil poderá até dobrar a produção de carne bovina nas próximas décadas sem necessidade de abrir novas áreas. Desde 2004, o país já é o maior player mundial do setor, liderando as exportações, ainda que 80% da produção seja voltada para atender o mercado interno. O número de abates anual cresceu 25% de 2004 a 2019, enquanto o rebanho aumentou 4,5%. Esse crescimento da taxa de desfrute aponta para melhoria na eficiência da produção. No mesmo período, as carcaças tiveram peso total aumentado em 39%, de 5,9 milhões de toneladas para 8,2 milhões. Nossos bois estão sendo abatidos mais gordos, com 253 kg, ante 228 kg no início dos anos 2.000.

A área com pastagens no País praticamente não se alterou no período, em torno de 160 milhões de hectares. O que aumentou foram as pastagens plantadas (+10%) em detrimento das áreas com pastagens naturais (18%), indicando um maior investimento em tecnologia.

Um dado relevante é que o percentual de bois terminados com mais de 36 meses, de 2004 a 2019, diminuiu de 34,2% para 5,9%, o que representa maior qualidade da carne em função do abate mais precoce. O efeito poupa-terra da pecuária se dá graças ao melhoramento genético dos rebanhos, manejo e recuperação de pastagens, suplementação alimentar a pasto e confinamento, controle de doenças e sistemas integrados de produção.

Ao se comparar a produtividade da pecuária de corte dos anos 70 com a atual, o efeito poupa-terra pelo melhoramento genético é de 2,49 milhões de hectares por ano; a inseminação artificial teve impacto de economizar 1,02 milhão de hectares por ano. A taxa de lotação, cabeça de gado por hectare, saiu de 0,51 em 1970 para 1,31, atualmente. Uma lotação 257% maior. Se não houvesse o ganho de produtividade por área, seriam necessários 418 milhões de hectares para produzir os volumes atuais, e não 160 milhões de hectares.

Frango e suíno engordam mais comendo menos

Nas cadeias produtivas de frangos e suínos, os avanços tecnológicos das últimas décadas evitaram a demanda por 2,55 milhões de hectares adicionais para produção de milho e soja no país. O ganho se deu pela otimização da conversão alimentar dos grãos em carne. O Brasil é o terceiro maior produtor mundial de frango, com 14,2 milhões de toneladas (2020) e maior exportador mundial, com 4,2 milhões de toneladas.

Na carne suína, o país ocupa a quarta posição como produtor (4,2 milhões de toneladas) e exportador (1,01 milhão de toneladas). As duas cadeias geram 4,2 milhões de empregos diretos e indiretos. O frango brasileiro, climatizado por fontes energéticas renováveis, é produzido com nível de emissão de dióxido de carbono (CO2) 45% inferior ao frango inglês e 50% menor que o frango francês. Quase toda a produção, 80%, é feita no Sul e Sudeste, fora do bioma amazônico.

Melhoramento genético, nutrição, sanidade, manejo e ambiência explicam em parte o sucesso do frango e do suíno brasileiros. Em 1975, o frango precisava de 2,1 kg de ração para ganhar um quilo de peso vivo. Em 2020, o mesmo peso foi obtido com apenas 1,7 kg de ração. Se o desenvolvimento tecnológico não tivesse melhorado a capacidade das aves de converter ração em peso, a avicultura de corte demandaria um adicional de 1,55 milhão de hectares cultivados para entregar as mesmas 16,4 milhões de toneladas de frango produzidas em 2020.

Ganho similar ocorreu na suinocultura. Em 1975, o suíno consumia em média 3,5kg de ração para ganhar um quilo de peso vivo. Em 2020, esse consumo foi de 2,6 kg de ração. Se não houvesse esse ganho de conversão, seria necessário um adicional de 1 milhão de hectares de terra para produzir as mesmas 5,3 milhões de toneladas de suínos de 2020.

Ainda há espaço para mais ganhos de produtividade

O ritmo do avanço da agropecuária brasileira, naturalmente, tende a diminuir na medida em que o “grosso” do dever de casa já foi feito por boa parte dos produtores. Marcelo Morandi, pesquisador da Embrapa, diz, no entanto, que ainda há muito espaço para ganhos de produtividade. “Nem todo mundo está no mesmo nível. A gente já tem um grupo de produtores diferenciados que utiliza as melhores tecnologias, mas temos também um grande grupo que utiliza só uma parte disso. E muitos ainda não se beneficiam do acesso ao crédito, a toda essa informação, conhecimento e tecnologia”, pondera.

Uma nova fronteira agrícola, em termos de produtividade, foi aberta pelo sistema de Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF). Na prática, como demonstrou reportagem desta Gazeta do Povo, o produtor intensifica o uso da terra e passa a colher madeira, grãos e carne bovina numa mesma área. A meta é chegar até 2030 com o sistema de integração implantado em 35 milhões de hectares - atualmente já são 18,5 milhões.

Para Morandi, além dos ganhos a serem incorporados pelo sistema ILPF, haverá ainda um outro salto, proporcionado pela tecnologia digital. “Já é possível mapear com dados georreferenciados em que parte da lavoura você precisa aplicar mais ou menos fertilizantes. Com a tecnologia digital, você consegue também melhorar a eficiência das máquinas e ampliar a janela para produção de uma segunda safra, naquelas regiões em que é possível fazer, mas o déficit hídrico é muito forte. Ainda temos muito a avançar nesse sentido”, conclui o pesquisador.

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