Após quarta visita a Moscou, presidente do Sindicarne e Abrafrigo, Péricles Salazar, surpreende-se com mudança de discurso do cliente brasileiro.| Foto: Felipe Rosa / Gazeta Do Povo
Previsão do governo brasileiro é que importações somem US$ 300 milhões no primeiro ano.
Retomada de compras do país tende a favorecer principalmente a suinocultura. Antes do início do embargo, africanos chegraram a ficar entre os cinco maiores clientes do Brasil.

Uma comitiva formada por técnicos e autoridades sanitárias paranaenses acaba de chegar da Rússia com um certo otimismo em relação à retomada do cliente internacional. Tradicional importador de bovinos, o país europeu mudou seu discurso sobre a importância dos fornecedores brasileiros para o suprimento de seu consumo interno de carnes. Agora, os russos admitem a necessidade de continuar buscando suínos e também aves fora de seu continente.

CARREGANDO :)

A informação é do presidente do Sindicato das Indústrias de Carnes do Paraná (Sindicarne) e da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), Péricles Salazar, que participou da missão em Moscou com o secretário da Agricultura e do Abastecimento, Norberto Ortigara, e com o presidente da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), Inácio Kroetz.

“Foi uma surpresa para nós. Os russos sempre diziam que dependeriam da carne bovina, mas que seriam autossuficientes em suínos e aves. Agora, falaram que continuarão precisando de bovinos, suínos e aves”, disse Salazar em entrevista ao AgroGP (Agronegócio Gazeta do Povo) nesta segunda-feira (23). Com uma população de mais de 140 milhões (30% menor que a do Brasil), a Rússia vem sofrendo com mudanças no sistema de produção e está preocupada com a dificuldade em manter os jovens nas propriedades, acrescenta Salazar.

Publicidade
Maior prejudicado pela interrupção de vendas para a Rússia, suinocultura brasileira tenta estancar perda de mercado com exportações para a Ucrânia. 

Desde 2011 o país vem impondo uma série de restrições de compras do Brasil, afetando o desempenho econômico do setor e de estados produtores de carnes. Atualmente, Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso estão impedidos de exportar ao país. Logo no primeiro ano de embargo, as vendas externas do complexo carnes caíram mais de US$ 300 milhões, afetando especialmente a suinocultura, que desde então vem perdendo mercado. Somente de janeiro a agosto deste ano, o volume de carne de porco embarcado pelo Brasil caiu 7% em relação ao mesmo período do ano passado, conforme dados da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora da carne (Abipecs).

Mesmo após embargos, Brasil praticamente manteve faturamento com vendas de bovinos para a Rússia em US$ 1 bilhão. 

Embora mantenha o embargo ao Paraná, a Rússia liberou a compra de carne de frango de duas cooperativas do estado -- a C.Vale, de Palotina, e Lar, de Medianeira – em março deste ano. "Isso mostra a incoerência [típica dos russos]. Se o estado está embargado, como podem abrir mercado para somente duas empresas”, questiona o presidente da Abrafrigo.

Segundo passoPara reconquistar o cliente europeu, o Paraná aposta agora na vinda de uma comitiva de Moscou  para auditar o estado. Um convite oficial deve ser emitido pela Seab e Adapar nos próximos meses e tem como objetivo apresentar oficialmente todo o sistema de Defesa Agropecuária adotado pelas indústrias.

Publicidade

De acordo com Salazar, a morte de uma vaca de Sertanópolis (Norte do Paraná) no ano passado, que continha o agente patogênico causador da doença da vaca louca, é o maior empecilho à reabilitação do Paraná. “Esse trabalho não será fácil. Os russos têm muitos fornecedores. Para eles, o comércio internacional, além de garantia de abastecimento, é um instrumento de política econômica. E mesmo que concordem com o nosso sistema e retirem o embargo, não significa que as empresas voltarão a exportar automaticamente”, alerta Salazar.

Os cadernos de Economia e Agronegócio da Gazeta do Povo trazem mais informações sobre esse caso e sobre o cenário de carnes na edição desta terça-feira (24).