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A situação do Rio Grande reflete uma tendência mais ampla no Oeste, onde temperaturas mais quentes estão diminuindo a quantidade de neve e o fluxo de água dos rios. | /NYT
A situação do Rio Grande reflete uma tendência mais ampla no Oeste, onde temperaturas mais quentes estão diminuindo a quantidade de neve e o fluxo de água dos rios.| Foto: /NYT

Mario Rosales, agricultor que cultiva 147 hectares ao longo do Rio Grande, sabe que o rio está em péssimo estado este ano. Já secou a ponto de virar uma faixa de areia empoeirada em alguns pedaços, e a maior parte da água que ainda flui está sendo desviada para irrigar plantações, incluindo os campos de trigo, aveia, alfafa e as amadas pimentas do Novo México de Rosales.

Como a quantidade de neve nas montanhas no ano passado foi a segunda menor já registrada, mesmo a água de irrigação pode acabar no final de julho, três meses antes do normal. Mas Rosales não está preocupado. Ele tem certeza que as tempestades de verão, que aqui são conhecidas como monções, virão. “Mais cedo ou mais tarde, teremos água”, diz ele.

Porém, as chuvas de monções com as quais está contando são notoriamente imprevisíveis. Então, ele e vários outros fazendeiros que trabalham nos 25 mil hectares ao longo dos 225 quilômetros do Rio Grande, no centro do Novo México, poderão evitar o problema – ou não.

“Ninguém tem muita água”, diz David Gensler, hidrólogo do Distrito de Conservação do Médio Rio Grande, cujo trabalho é administrar a água do rio entregue a Rosales e a outros consumidores por meio de barragens de desvio, canais e valas. “Se acabarmos com tudo no começo da estação e não tivermos chuva mais para frente, vai dar tudo errado.”

O que quer que aconteça na primavera e no verão, a perspectiva de longo prazo para o rio está sendo obscurecida pelas mudanças climáticas.

O Rio Grande é um clássico rio de “tudo ou nada”, com um ou dois anos secos normalmente seguidos de dois anos molhados que permitem a recuperação. Se o aquecimento da temperatura causado pela emissão de gases de efeito estufa deixar os anos molhados menos molhados e os anos secos ainda mais secos, como preveem os cientistas, a recuperação ano a ano vai se tornar mais difícil. “O efeito do aquecimento em longo prazo é que fica mais difícil contar com a neve derretida nos tempos úmidos, e faz com que os períodos de seca sejam muito mais complicados do que costumavam ser”, diz David S. Gutzler, cientista de clima da Universidade do Novo México.

Com o derretimento da primavera em cerca de um sexto da média e mais de noventa por cento do Novo México em uma seca excepcionalmente severa, as condições aqui chegaram ao extremo. Mesmo em anos mais molhados grandes parcelas do leito do rio às vezes secam quando a água é direcionada para os fazendeiros, mas este ano a seca começou dois meses antes do normal. Algumas pessoas estão preocupadas que a seca chegue até Albuquerque, 120 quilômetros ao norte.

A situação do Rio Grande, no entanto, reflete uma tendência mais ampla no Oeste, onde temperaturas mais quentes estão diminuindo a quantidade de neve e o fluxo de água dos rios.

Um estudo feito no ano passado sobre o Rio Colorado, que fornece água para 40 milhões de pessoas e é muito maior que o Rio Grande, mostrou que o fluxo entre os anos 2000 e 2014 estava quase 20% abaixo da média do século XX, sendo que cerca de um terço dessa redução pode ser atribuída ao aquecimento causado pelos humanos. O estudo sugere que, se as mudanças climáticas continuarem como estão, esse aquecimento pode acabar reduzindo o fluxo de água do Colorado em pelo menos mais um terço neste século. “Esses dois rios são a marca do que as mudanças climáticas estão fazendo com o Sudoeste”, diz Jonathan T. Overpeck, reitor da Escola de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Universidade de Michigan e autor do estudo sobre o Colorado.

Apesar de tanto o Rio Colorado quanto o Rio Grande estarem sendo afetados pelo aquecimento, segundo Overpeck, este último também sofre com a diminuição da precipitação de inverno. “É um problema duplo”, diz.

O ano passado, porém, foi úmido no Rio Grande, com uma grande quantidade de gelo no inverno de 2016-2017 que permitiu que o distrito de conservação armazenasse água em reservatórios rio acima. O uso dessa água agora vai ajudar Gensler a manter as torneiras de irrigação ligadas por vários meses. “De certa maneira, estou mais preocupado com 2019 do que com 2018. Há a possibilidade de termos que secar até a última gota este ano, e chegar no ano que vem sem nada.”

As temperaturas no Sudoeste aumentaram em quase um grau Celsius de 1901 a 2010, e os modelos climáticos preveem que essa tendência vai continuar. Como em vários lugares do Oeste, temperaturas mais altas no inverno significam que mais precipitações caem como chuva do que como neve nas montanhas San Juan e Sangre de Cristo que alimentam o Rio Grande.

Gutzler diz que as temperaturas de primavera também têm um impacto, com o ar mais quente fazendo com que mais neve vire vapor e essencialmente desapareça. Uma estação de crescimento mais longa e quente também possui um efeito, diz Overpeck, porque as plantas usam uma quantidade maior de água, reduzindo ainda mais o fluxo.

Por lei, parte da água do Rio Grande também precisa chegar mais longe no rio, até um reservatório que serve fazendeiros no sul do Novo México e do Texas. Essa parte do rio, que faz fronteira com o México e termina no Golfo do México, também tem seus problemas severos e precisa de um afluente mexicano para conseguir boa parte de sua água.

À medida que o rio seca, equipes do Serviço de Peixes e Vida Selvagem dos Estados unidos entram em ação, trabalhando para resgatar os peixinhos prateados do Rio Grande, uma espécie ameaçada de extinção e protegida pelo governo que costumava prosperar ao longo de todo o rio e agora pode ser encontrada apenas na parte alta.

As equipes vêm resgatando os pequenos peixes na maioria das primaveras e verões há cerca de 20 anos, passando redes por poços que perduram enquanto o rio seca e colocando os peixes em áreas com mais água rio acima.

Normalmente, as equipes começam esse trabalho em junho, diz Thomas P. Archdeacon, biólogo do Serviço de Peixes e Vida Selvagem que lidera a operação de resgate dos peixinhos. Este ano, diz ele, fizeram seu primeiro resgate em dois de abril e foram indo para o norte à medida que partes do rio secavam. “Vejo como uma espécie guarda-chuva”, diz ele sobre os peixes. “Como ela tem essas proteções federais, está protegendo basicamente tudo ao longo do rio.” O Rio Grande ainda é margeado por salgueiros, oliveiras russas e outras espécies de vegetação e junto com as fazendas irrigadas forma um oásis longo e estreito em meio a uma paisagem normalmente seca e marrom.

Grande parte do rio em si, porém, está extremamente seca.

Ao norte de Albuquerque, Derrick J. Lente, membro do Sandia Pueblo, cultiva 61 hectares, alguns com pastagem para as vacas que cria. Sob as leis de água, os fazendeiros dos pueblos seriam os últimos a perder água.

Seus ancestrais cultivaram essa região por centenas de anos, nos períodos secos e molhados. Mas Lente, que também é legislador estadual, reconhece que há um problema de longo prazo à frente. Seu pai e tios, que são fazendeiros há muito mais tempo do que ele, percebem as mudanças. “Isto é o pior que eles já viram na vida. Os tempos estão mudando e está ficando mais quente.”

Lente não possui poços de irrigação em sua fazenda, mas fez melhorias para conservar água, alinhando algumas de suas valas de irrigação e substituindo outras por um túnel. “Nunca fiz essas coisas achando que não teria água. Não quero pensar nesse momento, realmente não quero. Precisamos tomar algumas decisões difíceis.”

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