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Fenômeno

O Super El Niño que matou 50 milhões – e o que esperar do que vem aí

Mais intenso já documentado, Super El Niño de 1877 reduziu em até 4% população mundial. Condições podem se repetir este ano, mas efeitos devem ser distintos
Mais intenso já documentado, Super El Niño de 1877 reduziu em até 4% população mundial. Condições podem se repetir este ano, mas efeitos devem ser distintos (Foto: Imagem criada utilizando ChatGPT Images/Gazeta do Povo)

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A probabilidade cada vez maior de um Super El Niño ocorrer neste ano tem levado meteorologistas a comparar as atuais condições às do ciclo de 1877 e 1878. Naquele período, um fenômeno semelhante produziu consequências catastróficas, afetando diretamente a segurança alimentar global e provocando milhões de mortes em diferentes regiões do mundo, inclusive no Brasil.

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De lá para cá, os países desenvolveram muito mais capacidade de resposta a eventos climáticos extremos, o que torna improvável a repetição de efeitos da mesma magnitude. Hoje, o principal alerta recai sobre o agronegócio, diante do potencial aumento dos custos de produção, que pode encarecer os alimentos ao consumidor.

O fenômeno El Niño se caracteriza pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico Equatorial. No Brasil, esse desarranjo atmosférico tradicionalmente provoca chuvas excessivas na região Sul e secas severas nas bacias do Norte e Nordeste.

O Centro-Oeste, principal polo produtor do país, costuma enfrentar um regime irregular de precipitações, o que ameaça diretamente o período de enchimento dos grãos das safras de soja e milho.

Em 1877, a temperatura da superfície do Pacífico chegou a 3,5°C acima da média histórica em seu pico. Para este ano, projeções de diferentes institutos indicam que o aquecimento pode atingir ou superar a marca de 3°C. Algumas estimativas mais extremas apontam que a anomalia pode chegar a 3,8°C ou até 4°C nos próximos meses.

Mortes em razão do Super El Niño de 1877 chegaram a 4% da população mundial

O evento do fim do século 19 deflagrou secas simultâneas e severas na Ásia, na África e na América do Sul. As estimativas mais conservadoras indicam que a quebra generalizada das colheitas provocou uma fome em massa responsável pela morte de 30 milhões a 50 milhões de pessoas — o equivalente a entre 3% e 4% da população mundial da época.

Para dimensionar a magnitude da tragédia, se o mesmo percentual de mortalidade fosse aplicado à população atual, as perdas superariam 250 milhões de vidas — mais do que toda a população brasileira.

A letalidade do evento histórico não decorreu exclusivamente da falta de chuvas, mas também da ausência de tecnologia agrícola e do modelo político vigente. No livro Late Victorian Holocausts, o historiador Mike Davis relata como a Inglaterra mantinha exportações recordes de grãos enquanto a seca devastava a produção de subsistência na Índia colonial.

Diante das críticas sobre a recusa em intervir para conter os preços, o vice-rei da Índia, Lord Lytton, foi taxativo: “Os preços altos são os salvadores naturais da situação, não deve haver interferência de qualquer tipo por parte do governo”, afirmou, segundo registros da época.

O impacto estrutural replicou-se em outras regiões da Ásia, culminando na Fome do Norte da China. A ausência de chuvas devastou cinco províncias estratégicas, provocando quebra total de safra e resultando na morte de 9,5 milhões a 13 milhões de chineses.

Cidades inteiras perderam mais de 50% de seus habitantes, levando a um colapso social marcado por suicídios em massa e surtos documentados de canibalismo diante da paralisia logística do Estado imperial.

No Brasil, cerca de 500 mil pessoas morreram em razão da Grande Fome de 1878

No Brasil, os efeitos do choque climático de 1877 devastaram a economia do Nordeste e configuraram o episódio que a historiografia consolidou como a Grande Seca. Com a escassez prolongada de chuvas, as duas principais bases econômicas da região — a pecuária extensiva e o cultivo do algodão — entraram em colapso absoluto e imediato.

O desabastecimento resultou em um fluxo incontrolável de aproximadamente 190 mil retirantes, que migraram do sertão para o litoral em busca de água e trabalho.

O debate público sobre como lidar com os flagelados evidenciou diferentes visões econômicas dentro do Império. O engenheiro e abolicionista André Rebouças aconselhou o governo a evitar a simples distribuição de donativos, propondo que o socorro estatal fosse condicionado ao trabalho em obras públicas.

O objetivo era incorporar os retirantes a um modelo capitalista emergente. A gestão ineficaz dos recursos, contudo, agravou o desastre e provocou entre 400 mil e 500 mil mortes em oito províncias, reconfigurando a demografia regional.

O número, que inclui tanto vítimas da fome quanto de epidemias disseminadas entre retirantes, representava cerca de 5% da população brasileira da época, estimada em aproximadamente 10 milhões de habitantes.

Como comparação, a pandemia de Covid-19, entre 2020 e 2022, matou cerca de 0,3% da população brasileira. Proporcionalmente, a Grande Seca foi 17 vezes mais letal do que a pandemia recente.

Fortaleza: má gestão de recursos e Dia dos Mil Mortos

A capital cearense, Fortaleza, tornou-se símbolo do fracasso estrutural das cidades em absorver o impacto de um evento climático daquela magnitude.

A população urbana local, inicialmente estimada em 30 mil habitantes, ultrapassou rapidamente 100 mil pessoas com a chegada das famílias desabrigadas, confinadas em moradias insalubres.

Sem infraestrutura de saneamento, os alojamentos improvisados transformaram-se no epicentro de uma epidemia letal de varíola, que fulminou os sobreviventes da fome.

O ápice da crise sanitária foi documentado pelo farmacêutico e escritor Rodolfo Teófilo, que registrou o caos no dia 10 de dezembro de 1878. A data ficou conhecida na história local como o Dia dos Mil Mortos.

“O dia 10 de dezembro foi de verdadeiro terror. Haviam falecido de varíola 1.004 pessoas na capital e seus subúrbios”, relatou o escritor. A gravidade da situação levou o poder público a contratar os próprios migrantes doentes para abrir valas comuns e sepultar cadáveres durante as madrugadas.

Mais de um século depois, vestígios da calamidade ainda permaneciam no solo de Fortaleza. Em 1994, durante obras de expansão do saneamento básico no bairro Jacarecanga, operários encontraram dezenas de ossadas empilhadas em uma vala coletiva.

O local correspondia a um dos cemitérios temporários criados pela administração provincial, servindo como evidência material da dimensão do colapso urbano provocado pelo fenômeno climático.

A dimensão da tragédia humanitária gerou forte pressão política sobre o Estado, levando a promessas públicas que demorariam décadas para se concretizar. “Não restará uma joia da Coroa, mas nenhum nordestino morrerá de fome”, prometeu o imperador Dom Pedro II.

A principal solução estrutural concebida à época foi a transposição das águas do Rio São Francisco, cujas obras só começaram efetivamente em 2007. Com previsão inicial de conclusão em 2012, sucessivos atrasos levaram a entregas parciais realizadas pelos presidentes Dilma Rousseff, Michel Temer, Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.

Efeitos do Super El Niño de 2026 devem recair sobre preços dos alimentos

Para 2026, agências meteorológicas internacionais apontam probabilidade de até 80% para a formação de um Super El Niño até o fim do ano.

Os desafios atuais são diferentes dos enfrentados no século 19, principalmente devido à globalização do comércio e aos avanços agronômicos.

Entidades internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), avaliam que a mortalidade em massa não deve se repetir, uma vez que as tecnologias de previsão de safras e a infraestrutura logística global oferecem mecanismos de contingência inexistentes no passado.

Contudo, persiste uma lacuna crítica: os modelos climáticos ainda não conseguem estimar com precisão o volume e a distribuição geográfica das chuvas previstas para os próximos meses.

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“O problema não é apenas o quanto chove, mas quando chove. Podemos ter o volume anual dentro da média, mas concentrado em poucos períodos, deixando lacunas hídricas em fases sensíveis das culturas”, explica Felipe Schwerz, professor da Universidade Federal de Lavras (UFLA).

Nesse sentido, o principal desafio trazido pelo El Niño é a dificuldade operacional do produtor e de tomada de decisão no campo, explica Roney Smolareck, engenheiro agrônomo da Motomco, empresa de tecnologia de medição de umidade de grãos no agronegócio brasileiro.

“O produtor deixa de trabalhar com uma janela bem definida e passa a lidar com decisões muito mais rápidas. Quando não há informação precisa, ele acaba reagindo ao clima, e não se antecipando a ele — e isso normalmente resulta em perda de qualidade e de valor”, explica Smolareck.

A apreensão do setor produtivo com o aumento de custos ultrapassa as porteiras do campo.

O setor de alimentação coletiva inclui em suas projeções uma alta de até dois dígitos nos preços. A Nutrisaude, que serve mais de 18 milhões de refeições anualmente, estima em até 15% a o aumento nos custos com alimentação durante períodos de maior pressão climática, especialmente em itens mais sensíveis ao calor e à irregularidade das chuvas, como hortaliças, frutas e legumes.

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