Experiência

Vitivinicultura

A riqueza do vinho da Sierra de Gredos, a nova região vinícola da Espanha

A uma hora a oeste de Madri, pequenos produtores estão criando vinhos com estilo a partir da uva Garnacha

por New York Times Publicado em 16/06/2018 às 10h
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Navarrevisca, Espanha – Antigos vinhedos pontilham a paisagem que rodeia o vilarejo a cerca de uma hora a oeste de Madri, mas para encontrar a minúscula e impressionante vinícola Rumbo Al Norte – onde as videiras de Garnacha de 70 anos crescem em encostas de granito e arenito permeadas com quartzo e repletas de rochedos –, não basta conhecer alguém; é preciso conquistar sua confiança.

Fernando García, esquerda, e Daniel Gómez Jiménez-Landi, os proprietários da marca de vinhos Comando G, em uma de suas vinícolas em Navarrevisca, Espanha, a uma hora de Madrid.Foto: Gianfranco Tripodo/The New York Times

Há muito tempo, os velhos vinhedos no sopé das montanhas da Sierra de Gredos foram cultivados com carinho por pessoas dedicadas, que cuidaram deles nos verões quentes e nos invernos frios. O trabalho era exaustivo, especialmente nos anos anteriores à automação e aos automóveis. O simples fato de se chegar às plantações, que podem estar localizadas a 1.200 metros acima do nível do mar, já era uma empreitada árdua. Mesmo hoje, são cultivados quase que totalmente de forma manual.

A recompensa? Durante décadas, a produção de Garnacha, como a Grenache é conhecida em espanhol, ia para a cooperativa local para a produção de vinhos que eram misturas anônimas. Muitos vinicultores perderam dinheiro com suas videiras, mas seu apego à terra era profundo, transcendendo a economia.

Além dos proprietários idosos, cujos filhos raramente se interessavam em continuar seu trabalho, poucos valorizavam esses antigos vinhedos. Vinte anos atrás, as poucas vinícolas comerciais da área plantavam Cabernet Sauvignon e Merlot nas planícies, na tentativa de apelar aos mercados internacionais.

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Uma vinícola do Comando G nas montanhas da Sierra de Gredos, perto de Navarrevisca. Foto: Gianfranco Tripodo/The New York Times

Muitos vinhedos foram abandonados ao longo das décadas. Às vezes, é possível ver seus vestígios, os antigos terraços de pedra sendo tragados pelas encostas. Apenas nos últimos dez anos ficou evidente que a área poderia oferecer riquezas agrícolas para aqueles dispostos a procurá-las.

Ninguém faz isso de modo mais dedicado que Fernando García e Daniel Gómez Jiménez-Landi, de 40 e tantos anos, que produzem vinhos frescos, precisos e delicados sob o curioso rótulo Comando G. E ninguém trabalha mais para mostrar que essas uvas poderiam resultar em vinhos de classe mundial.

Durante esse tempo, García e Landi foram atrás de vinhedos que mais pareciam lendas contadas em tavernas ou nos campos; fizeram amizade com fazendeiros e ganharam sua confiança e respeito.

“Temos um tesouro muito grande aqui. Os maiores heróis são aqueles que trabalharam e mantiveram esses vinhedos, mesmo quando perderam dinheiro vendendo para as cooperativas”, disse Landi.

Landi, que responde por Dani, disse que a prospecção de vinhedos exigiu uma quantidade enorme de pesquisa.

“Conversamos com muitos caras mais velhos nos bares. Descobri que, quando você bebe cerveja, encontra bons vinhedos”, disse.

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Foto: Gianfranco Tripodo/The New York Times

Hoje, além da Comando G, um grupo de produtores que trabalha na Sierra de Gredos está mostrando como os vinhos de uma área que foi ignorada por tanto tempo podem ser distintos.

Entre eles está a Bernabeleva, que faz tintos e brancos soberbos de Garnacha e Albillo Real; a Daniel Ramos, cujos vinhos são muito bons, embora ainda pareçam estar procurando uma identidade; a RuBor Viticultores, que faz vinhos naturais que podem ser fascinantes e desafiadores.

Mas as garrafas com mais sutileza e nuance, e que atraem o maior interesse, são as da Comando G, cujos vinhos estão agora entre os mais atraentes da Espanha.

Dez anos atrás, quando ela estava começando, a maioria dos vinhos Garnacha da Espanha eram doces, concentrados, com notas de carvalho e alta concentração alcoólica. Sua equipe procurou então inspiração na França, onde encontraram vinhos com um estilo diferente, como o lendário Châteauneuf-du-Papes, da Château Rayas, feito inteiramente de Grenache e conhecido por sua graça sutil e intrincada, e o requintado Ceps Centenaires la Mémé Cuvée da Domaine Gramenon, produtora em Côtes du Rhône.

García e Landi fizeram muitas viagens à Borgonha, ao Reno e ao Loire, e até a Roussillon, no sul, à Sicília e à região do Barolo na Itália.

“Na Espanha, não tínhamos referências. Aprendemos sobre o terroir e a mineralidade na França e na Itália, não na Espanha”, disse García, a quem todos chamam de Fer.

A necessidade de procurar a inspiração em outro lugar foi em parte um legado da longa ditadura de Franco, que efetivamente isolou as vinícolas espanholas do resto do mundo do vinho, e de sua própria tradição. García disse que, emergindo da ditadura nos anos 1980 e 1990 e desconectados de suas próprias tradições, tentaram duplicar estilos de vinhos internacionais populares, buscando cores escuras, poder e impacto, em vez de frescor ou expressão de lugar.

Apenas nos últimos anos, continuou ele, os enólogos espanhóis se sentiram mais livres para explorar seus próprios gostos e inspirações.

Não estamos tentando copiar o estilo da Borgonha, mas sim seguir a filosofia. Os vilarejos daqui são completamente diferentes. Queremos expressar o estilo de cada um”, disse Landi.

Landi cresceu na região. Sua família possuía vinhedos e foi uma das primeiras na área a engarrafar seu próprio vinho. Com o encorajamento da União Europeia, começaram a plantar variedades internacionais, e não as uvas tradicionais.

Mas descobriu que a Garnacha cultivada em grande altitude lhe agradava mais. E finalmente deixou o negócio familiar para começar seu próprio rótulo, o Daniel Gómez Jiménez-Landi, fazendo vinhos semelhantes aos da Comando G, mas de diferentes locais.

Em Madri, Landi conheceu García, que estudava engenharia agrícola e trabalhava em uma das melhores lojas de vinhos da cidade. Juntamente com um terceiro parceiro, Marc Isart, que acabou saindo da sociedade, começaram a Comando G em 2008.

No início, era um passatempo. Landi tinha seu rótulo familiar, enquanto García trabalhava para Telmo Rodriguez, um dos mais dinâmicos empreendedores do setor de vinhos da Espanha e um dos primeiros exploradores do potencial da região da Sierra de Gredos. García também iniciou outro rótulo, a Bodega Marañones, que, como o de Landi, faz excelentes vinhos da região.

“Até 2012 ou 2013, nós dois tínhamos empregos integrais e trabalhávamos em fins de semana e feriados na Comando G. Agora nos dedicamos só a ela”, contou García.

Em sua busca por antigos vinhedos, procuraram três qualidades: solos de granito, uva Garnacha e altitude. “O solo fornece a força e o frescor dos vinhos”, afirmou Landi.

A Garnacha, que ele chama de Pinot Noir do Sul, dá aos enólogos a capacidade de produzir vinhos frescos e elegantes. Altitudes de pelo menos 750 metros, mas preferencialmente entre 900 e 1.200, permitem um ciclo de amadurecimento mais longo e vinhos com menos álcool e mais equilíbrio. Estão especialmente interessados em vinhedos com face leste e norte, que recebem menos calor direto, algo especialmente importante na era das mudanças climáticas.

A região engloba três vales diferentes com três climas distintos, do mediterrâneo nos vales sulinos de Tiétar e Alberche até o continental no Alto Alberche do norte. A divergência se reflete na paisagem, onde lavanda, figueiras e oliveiras no sul dão lugar a carvalhos, castanheiras e amendoeiras no norte.

Mesmo com a diversidade da terra, o sistema de denominação não foi mantido. A oficial, Viños de Madrid, engloba três províncias com clima e geologia amplamente diferentes. Assim, a Comando G prefere a não oficial, Sierra de Gredos, que é a região mais específica, com garrafas identificadas também com o nome da cidadezinha, quando apropriado.

Em uma espécie de círculo completo, os parceiros da Comando G estão agora consultando a cooperativa local, a Granito del Cadalso – cujo pico da produção de vinho no atacado ocorreu na década de 1980 –, que se encontrava em sérias dificuldades, pois as pessoas deixavam a agricultura para trabalhar em fábricas ou construções.

Desde 2015, o objetivo é produzir quantidades menores de vinho de melhor qualidade em garrafas, e não a granel. O de 2017 estava fresco, frutado, direto e fácil de beber, um bom custo-benefício por cerca de US $15. Os vinhos da Comando G variam de cerca de US$ 25 a US$ 100, ou mais para os de vinha única.

Para a vinícola, a década foi notável. “Dez anos não é muito no negócio do vinho, mas, dez anos atrás, não havia praticamente nada aqui”, disse García.

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