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Notas Báquicas

2019 é o ano da ascensão dos vinhos da Borgonha e Portugal

Veja os assuntos palpitantes do mundo de Baco e seis rótulos para provar nesse ano

por Guilherme Rodrigues, enófilo e colunista do Bom Gourmet Publicado em 04/01/2019 às 17h
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Um famoso cronista gastronômico francês escreveu, cerca de 200 anos atrás, que felizmente a moda de beber Champanhe em copos flute, estreitos e fundos, estava chegando ao fim. Embora associados a um certo charme, as pessoas reconheceram
que esse tipo de copo não permitia à bebida revelar todas as suas melhores qualidades. É preciso mais espaço para os aromas exibirem toda a sua beleza.

No outro extremo dos modismos estão aquelas taças mais rasas, que se abrem bastante – chamadas coupes. Diziam que o tamanho certo era aquele onde coubesse o seio de uma mulher. No caso, a medida de Mme. de Pompadour, amante do rei Luis XV, corte famosa pela sensualidade e festejos orgíacos. Agora, de uns bons anos para cá, o pêndulo se move novamente do flute em direção a copos mais abertos.

Quem conhece,  independentemente da moda dos salões, escolhe para Champagne copos em estilo de tulipa, porém mais bojudos e amplos, como o Riedel Vintage Champagne, linha sommelier, por exemplo; ou copos aproximados aos de vinho branco, mais à mão e altamente satisfatórios.

Bom, mas se você aprecia flutes ou coupes, não se acanhe e pratique o gosto. Outra tendência a dominar as conversas e atitudes em relação aos vinhos em 2019 é a ascensão da Borgonha. Especialmente na faixa de vinhos caros e de preços estonteantes.

Bordeaux ficou para trás em termos de assunto palpitante. Os nomes sonantes dos Châteaux Pétrus, Cheval Blanc, Mouton-Rothschild, Margaux, Latour, Lafite, Haut Brion e outras tantas estrelas da constelação bordalesa que dominaram a cena nos últimos 30 anos, pelo menos, já não arrancam tantos suspiros de excitação como os rótulos da Borgonha: La Tâche, Chambertin, Musigny, Romanée-Conti, Richebourg e outros do mesmo quilate são o objeto de desejo mais cobiçado. O preço repercute
e testemunha a procura esfuziante.

Uma garrafa de Romanée-Conti 1945, leiloada em meados de 2018, bateu o recorde mundial de vinho mais caro do planeta. Nada menos de cerca de 550 mil euros em leilão! Um Richebourg de primeira já vale quase três Lafites de primeira – chegou a valer igual. É o esplendor da Pinot Noir.

De notar que os vinhos portugueses têm despertado crescente entusiasmo em todo planeta. Também no Brasil. Fazem como que uma síntese entre os vinhos franceses e os do Novo Mundo, com a facilidade e apelo direto dos últimos, mais a classe dos primeiros.

Além da grande diversidade de castas, regiões e estilos de vinhos. Assumiram de vez a merecida fama de nobreza junto aos melhores, com a vantagem da enorme diversidade e da personalidade de castas próprias, muito bem resolvidas. Destino preferencial do turismo universal nos últimos anos, Portugal acaba mostrando seus grandes tesouros. Entre eles, os soberbos vinhos. Tornou-se tema palpitante e obrigatório nas conversas e nas mesas.

Já o mainstream continua fluindo: Malbecs argentinos e Cabernets chilenos permanecem entre as preferências do público em volume. Os brancos e rosés também começam a ganhar momentum e a se afirmar.

No mais, resta torcer para que o novo governo acerte e afinal o custo dos vinhos no Brasil possa cair a patamares civilizados. O que seria uma grande dádiva e impulsionaria ainda mais o gosto pela “mais sã das bebidas”, na famosa definição de Pasteur.

A seguir, para brindar o fim de ano, seis vinhos memoráveis bebidos em 2018. Três disponíveis no mercado e três raridades de tirar o fôlego. Aos leitores, que o ano novo comece e siga repleto de muitos e bons vinhos, além de grandes motivos para comemorar. Tim tim!

6 vinhos para tomar em 2019

Champagne Veuve Clicquot rótulo amarelo

Veuve Clicquot – Reims – Champagne – França

>> LEIA TAMBÉM: Os 25 melhores vinhos que provamos em 2018

Foto: Henry Milleo/Agência de Notícias Gazeta do Povo

O imortal ícone rótulo amarelo (ou laranja para muitos) da Veuve Clicquot em perfeita
e grande forma. Surpreendente, com uma mousse refinada e viva. Muita energia, estimulante, bem equilibrado, corpo mais voluptuoso. Belíssimo frescor, com deliciosas nuances frutadas maduras e cheias a maçãs e peras, pêssegos, leve damasco. Um toque de brioche, ótima tensão e profundidade do começo ao fim da prova. Pinot Noir domina com 50% a 55%. Chardonnay responde por 35% a 25% e Pinot Meunier o restante.

Preço: R$ 299,50
Onde: Agin Bebidas – R. Prof. Assis Gonçalves, 775, Água Verde. Tel: (41) 3343-4624

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Nossa Calcário Branco 2016

Filipa Pato – Bairrada – Portugal

Foto: divulgação

Soberbo vinho branco, de excelente intensidade. Suavemente amanteigado, acidez translúcida e profunda, belíssima mineralidade que lembra calcário, frutado delicado,
maduro e envolvente a pêssegos, peras, um toque de maçã. A grandeza da Bairrada em brancos. Na linha de estilo de um belo Borgonha branco. Longo, harmonioso, cheio de
vida. Grande prazer beber já, com muitos anos de vida e grandeza pela frente. A nobre casta Bical no seu melhor.

Preço: R$ 250
Onde: Importado pela Porto a Porto. Disponível no www.meuvinho.com.br

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Ferreira Porto Tawny

Ferreira – Porto – Portugal

>> 4 dicas para não errar na hora de escolher um vinho no restaurante

Foto: divulgação

Rótulo branco e muito bem acabado. Um verdadeiro achado de fim de ano. Um Porto tawny de categoria espetacular e rara. Com a nobre grife da emblemática Casa Ferreira.
Aveludado, cheio, caldo de frutas vermelhas maduras. Refinado, notas de especiarias e leve frutas secas ao fundo. Longo, cremoso, arrebatador. Qualidade que costuma
custar pelo menos 2 a 3 vezes mais.

Preço: R$ 85,90
Onde: Pão de Açúcar – www.paodeacucar.com

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Richebourg Domaine de la Romanée- Conti 1999

Domaine de la Romanée-Conti – Vosne-Romanée – Borgonha – França

Foto: Guilherme Rodrigues

Distribuidor do produtor no Brasil (safras recentes): Optim Brasil . Uma verdadeira legenda, numa safra espetacular, dita “solar”. Quando tudo deu certo. Quase 20 anos de vida e ainda com muita força para crescer. Deve atingir o ápice em mais 10 ou 15 anos e permanecer em glória outros longos anos. Concentração e poder inacreditáveis. Ultra sofisticado, framboesas cristalizadas, grande energia e tensão durante toda prova. Uma usina de força, poder e sofisticação. Veludo, estrutura, voluptuosidade. Majestoso, para reis e imperadores. Miríade de facetas sobrepostas, multidimensional, inacreditável. A
glória da Pinot Noir.

Onde: Disponível em leilões e lojas no exterior. Difícil de encontrar.

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Niepoort Porto Colheita 1966

Niepoort – Porto – Portugal

Foto: divulgação

Distribuidores do produtor no Brasil: Mistral e Vinci. Permaneceu em cascos até 1978, quando foi engarrafado 1978, aos 12 anos de vida. Acariciante, epítome de maciez, suavidade e intensidade. Inacreditável sofisticação. Diversas facetas encantadoras perpassam os sentidos, como a cravos, frutos secos, figos, cerejas e framboesas, especiarias, suave fumé. Cálido e encantador, acariciante, muito longo, vivo e límpido.
Uma garrafa em cristal Lalique, colheita 1863, deste produtor, bateu o recorde mundial de preço por uma garrafa de vinho do Porto, em leilão no final de 2018: 127 mil dólares!

Onde: Disponível em leilões e lojas no exterior. Difícil de encontrar.

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Dagueneau Astéroide 2018

Domaine Didier Dagueneau – Pouilly-Fumé – Loire – França

>> LEIA TAMBÉM: Vinho Reserva ou Reservado: qual é o melhor?

Foto: divulgação

Produtor sem distribuidor no Brasil no momento. Uma legenda no mundo do vinho, Didier Daguenau criou inigualáveis Pouilly Fumé durante toda sua vida. Métodos naturais e altíssimo padrão. O filho, que o sucedeu, Louis Benjamin, tem sabido manter
a extrema qualidade da casa. O Astéroide é emblemático, raríssimo, proveniente de vinhas Sauvignon Blanc em pé franco. Vinha muito pequena e produção limitadíssima. Algo invulgar, especial. Sápido e fluído, encanta pela leveza e super elegância. Mineral, toque de pedra de isqueiro, frutos brancos e algo a groselha, delicado fundo de ervas finas. Mineral, etéreo, a Sauvignon Blanc na sua mais elevada dimensão. Muita vida pela frente.

Onde: Disponível em leilões e lojas no exterior. Muito difícil de encontrar.

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