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Café do Congo é o “café especial do futuro”

Entre muitas dificuldades, o país africano tenta reestruturar o setor cafeeiro destruído por exploração, violências e subornos

por New York Times Publicado em 04/09/2017 às 16h
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Bukavu, República Democrática do Congo — Linda Mugaruka sentiu o cheiro do café quente. Ao colocar um pouco na boca e depois cuspir, ela pôde perceber o sabor limpo e doce, com traços frutados. Na prancheta, marcou 94, uma nota alta para um café especial.

Mugaruka, de 24 anos, é uma das poucas degustadoras de café da região leste da República Democrática do Congo e a única mulher que trabalha como degustadora no país. Este ano, ao lado de especialistas da Coreia do Sul e dos Estados Unidos, ela provou taças de alguns dos cafés mais especiais do seu país, durante o enorme festival congolês do café, realizado todos os anos na cidade de Bukavu.

Durante o encontro, conhecido como Saveur du Kivu, ou Sabor do Kivu, os participantes buscaram descobrir os novos sabores de uma nação que, apesar de enfrentar conflitos e instabilidades políticas, continua a ser um dos produtores mais promissores de cafés especiais, com potencial para também ser um dos maiores produtores de café comum do planeta.

O café já foi o segundo maior produto de exportação do Congo, depois do cobre, contribuindo com cerca de 164 milhões de dólares para a produção econômica do país na década de 1980. Porém, durante as últimas décadas de conflito, as exportações caíram drasticamente.

Agora, com milhões de dólares doados nos últimos anos para reconstruir a indústria do café e ajudar a estabilizar a região, as exportações cresceram e as cooperativas agrícolas estão atraindo a atenção de compradores globais, como a Starbucks e a empresa israelense Strauss. Isso tudo, apesar da crise econômica congolesa, dos conflitos políticos causados pelo presidente Joseph Kabila, que se negou a deixar o poder ao fim de seu mandato e da violência, incluindo atrocidades realizadas por milícias ligadas ao governo, que foram criticadas pelas Nações Unidas.

Durante a primeira metade do século XX, quando o país estava sob o jugo colonial da Bélgica, enormes plantações de café ocupavam as montanhas verdejantes da região leste do Congo. Os grãos congoleses eram torrados em cafeterias de Bruxelas e Roma, produzindo um dos cafés mais finos do mundo.

O setor cafeeiro foi dizimado depois que grupos rebeldes marcharam sobre essas plantações, ao final do genocídio de Ruanda, em 1994, e com a queda do ditador Mobutu Sese Seko, em 1997, após décadas no poder. Os produtores fugiram para as cidades ou saíram do Congo, deixando para trás suas lavouras, enquanto as forças de segurança do governo e os grupos militantes rasgavam as paisagens do interior.

Como os registros meticulosamente anotados à mão pelos belgas — que detalhavam as espécies e variedades genéticas das plantas — desapareceram há décadas, a maioria dos agricultores sabe pouquíssimo sobre as variedades genéticas de Robusta e Arábica de suas lavouras e não fazem ideia de como registrar marcas, como fizeram muitos produtores de outros países, como a Etiópia.

E, embora mais pessoas no Ocidente estejam apreciando os cafés especiais congoleses, graças ao crescente interesse de compradores de comércio justo e ONGs, Mathias Sekabanza, um cafeicultor de 62 anos, nunca provou uma única taça de café.

Assim como muitos produtos no Congo, ele está mais interessado nos lucros. “Eu não sei para que serve o café, nem se é medicinal”, afirmou Sekabanza, dono de uma pequena propriedade em Tarika, perto da cidade de Ntamugenga. “Só sei que as pessoas realmente compram minha produção.”

Produzir um café especial, no entanto, exige muito mais do que colher e processar grãos comerciais, afirmou Kyle Tush, analista da Counter Culture, um atacadista que fornece cafés de alto padrão para os Estados Unidos. Sem assessorias técnicas avançadas e apoio para garantir a consistência no sabor e na cor dos cafés especiais, afirmou, “uma taça de café excepcional se torna muito pouco provável”.

Além disso, a violência continua a assolar a região. Nos últimos meses, o exército do Congo realizou operações contra grupos rebeldes, e os sequestros e a violência persistem.

Sekabanza faz parte de uma associação agrícola que foi criada no fim dos anos 1990, quando a violência expulsou agricultores e suas famílias. O coordenador do grupo, Norbert Lulihoshi, de 45 anos, abandonou sua lavoura de café no vilarejo de Kishishe há dois anos por causa dos conflitos.

“Enfrentamos muitos desafios; um dos maiores é a falta de segurança”, afirmou Lulihoshi.

O legado da guerra é outro. As solas dos pés de Lulihoshi, que era enfermeiro, ficaram feridas depois que uma pequena bomba o atingiu em 1996, no caminho até o acampamento de refugiados onde estava trabalhando. Outros perderam membros depois de atingirem granadas e minas com as enxadas enquanto limpavam os campos para a plantação.

Ainda assim, Lulihoshi e o diretor da associação, Celestin Magura, esperam transformar o grupo em uma cooperativa, depois de verem o modelo prosperar com a ajuda de doações.

Chris Treter, fundador do festival Saveur du Kivu e proprietário do Higher Grounds, uma empresa de comércio justo com sede em Michigan, afirmou que as comunidades agrícolas como a de Ntamugenga oferecem uma chance de reconstruir um setor que foi historicamente definido pela exploração. “Essa é a linha de frente do futuro do café no Congo”, afirmou Treter.

Em junho, a Agência de Desenvolvimento Internacional dos EUA prometeu dar 25 milhões de dólares ao longo dos próximos cinco anos para fomentar a agricultura no leste do Congo. O setor de café e cacau deve receber uma boa parte desse investimento.

Porém, os exportadores argumentam que o mais importante é uma reforma institucional. Embora os impostos pagos pela exportação de café congolês sejam oficialmente de 0,25 por cento, na prática o total chega a 11 por cento, de acordo com a Associação do Café e dos Exportadores de Café e Cacau, comparados com apenas dois por cento em países vizinhos, como Uganda e Ruanda.

Os subornos são um fator relevante, e entre 50 e 80 por cento das exportações de café do Congo são realizadas por meio de contrabando para países vizinhos, onde os preços são até 15 por cento mais altos.

A burocracia e os subornos atrasam em meses a chegada do café aos portos de Mombasa, no Quênia, ou de Dar es Salaam, na Tanzânia, antes de serem enviados para os EUA ou para a Europa.

Além disso, os principais exportadores de café argumentam que o influxo de doações em dinheiro para o Congo e o foco em cafés especiais — que representam apenas três por cento do mercado local — estão atrapalhando o crescimento do setor.

Andreas Nicolaides, exportador de cafés grego-congolês que vive em Uganda, afirmou que os preços pagos pelos cafés especiais congoleses eram “astronômicos” — às vezes até duas vezes mais altos do que os dos cafés comerciais.

“Precisamos levar um volume mais alto possível de café do Congo para o mercado global”, afirmou Nicolaides. “Precisamos que ele tenha um preço competitivo para que possamos concorrer com os países vizinhos.”

Os doadores acreditam que os agricultores deveriam pedir ainda mais. Eles afirmam que o mercado de cafés especiais é responsável por 55 por cento dos 48 bilhões de dólares do mercado norte-americano, e essa fatia continuará a crescer.

Apesar da presença da corrupção e dos impostos mais altos, “ainda há oportunidade de crescimento”, afirmou Christophe Tocco, diretor da missão da USAID no Congo.

E isso não leva em conta o potencial de vendas dentro do próprio país.

Dennis Sangara, de 28 anos, é dono de duas cafeterias em Beni, uma cidade no noroeste do país que foi uma região de massacres e violência nos últimos anos, e afirma que poucos têm falado sobre o consumo local.

Ainda assim, o mercado apresenta uma série de desafios, uma vez que a maioria das pessoas toma Nescafé com leite em pó no Congo — isso quando bebem café.

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