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jantar às cegas
Durante o jantar, os comensais têm os olhos vendados.| Foto: Divulgação

Há alguns anos, entre uma leitura e outra de textos sobre gastronomia, lembro de ter tomado conhecimento da experiência de jantar com os olhos vendados. Acredito que o Dans Le Noir (no escuro, em francês), que hoje tem filiais na Europa, Oceania e África, foi um dos precursores na experiência de jantar às cegas. Desde aquela época, lá pelos idos de 2015, eu fiquei com aquela vontadezinha de experimentar. A gente cresce ouvindo que, quando limitamos alguns dos cinco sentidos, os outros se potencializam. Como seria, então, sentir o sabor dos alimentos sem enxergá-los?

jantar às cegas
No jantar às cegas, é natural que o prato não fique muito apresentável depois de explorado, como no meu caso. Foto: Pamela dos Santos| Divulgação

Por isso, quando recebemos o convite do Ricardo Fagundes, que organiza o jantar às cegas do Mangôo, em Curitiba, dei um jeito de arrumar um espaço na agenda para viver a experiência e compartilhar aqui, no Bom Gourmet. Ao contrário do que havia imaginado, o início da experiência é às claras. Na mesa, apenas a venda cuidadosamente dobrada e a corrente com presilhas destinada a segurar um babador para proteger a roupa, deixam pistas do que está por vir. Ricardo faz as honras da casa, passando as regras aos comensais, que deixam transparecer uma euforia quase infantil. "A ideia aqui é vocês prestarem atenção nesse momento, se concentrar nele, nessa experiência", reforça.

Quando as vendas são colocadas e as luzes desligadas, apenas uma réstia entra pela porta de vidro, vinda do poste da rua. E aí que começa a brincadeira, por assim dizer. Sim, o objetivo do jantar às cegas é se desprender das amarras, do medo de passar vergonha. A ideia é abrir a mente para a amplitude das nossas experiências sensoriais. Sujar a roupa? Pode! Quebrar uma taça? Também - mesmo que na noite em que experimentamos, a louça tenha passado ilesa.

Sobre a mesa, a venda para os olhos. Foto: Gisele Rech
Sobre a mesa, a venda para os olhos. Foto: Gisele Rech

O banquete começa com uma taça de vinho longilínea, que entrega como provável conteúdo um espumante, harmonizado com uma entrada impossível de ser cortada com os talheres. É algo que oferece resistência ao toque do garfo. Aparentemente, é uma espécie de torradinha com algo macio por cima. Ao levar o preparo à boca, jogo minha arrogância por terra e levo mais de um minuto para sentir a textura e as nuances do steak tartare de mignon preparado pelo chef Gabriel Fagundes. Enquanto as provas são feitas, cá e lá surgem os palpites: é peixe cru, tem mostarda, está bem temperado!

Na sequência, mais um vinho, desta feita mais encorpado. Desta vez, mais à vontade, não me faço de rogada e logo levo a mão ao prato. Trata-se de um sanduíche, mas os ingredientes... Dá pra sentir, de cara, o sabor marcante do camarão. As papilas gustativas me impelem para algo de porco, mas um dos colegas que dividem a experiência levanta a voz: é rã! Alguns protestam, com um certo preconceito em relação ao animal pouco usual no nosso dia a dia.

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Ravióli de queijo com molho de maçã verde e lascas de amêndoas. Foto: Pamela dos Santos

O primeiro prato principal, dada a sua textura, forma e sabor acentuado foi batata - ou melhor, ravióli de queijo, com gorgonzola no meio. Impossível não sentir a força desse queijo azul. O molho? Opiniões divididas entre pera e maçã, pela textura e pela combinação perfeita com o queijo. O segundo, servido com um vinho claramente tinto, é uma carne, fato. Mas o tempero e o tempo de cozimento podem enganar. Ossobuco? Costela? O acompanhamento é aveludado e divide a plateia entre mandioquinha e mandioca. O toque de queijo entrega: é um aligot.

Por fim, um pouco de doce para fechar o jantar. E, nessa, o chef levou a tarefa de percepção sensorial ao nível hard. Foi possível, de cara, sentir o contraste entre o doce em calda e o gelado do sorvete, de sabor neutro. A crocância das castanhas, também foi fichinha. Agora a fruta da compota! Ah, chef Gabriel, que maldade! Bacuri? Apesar de ter morado dois anos em Manaus quando criança, nunca havia provado a frutinha, também popular no cerrado. Dia desses, inclusive, escrevi sobre frutas e frutos típicos das duas regiões, mas o bacuri ficou de fora. Impossível de acertar, convenhamos! Pelo menos para quem vive pras bandas de cá.

Ao final do jantar, o chef é convidado para revelar cada um dos pratos e bater um papo com os presentes. "A massa era com maçã verde com cebola caramelizada e a carne costela, mas tiramos a gordura", diz Gabriel. Sim, rolaram umas pegadinhas. E, sim, a plateia adorou: a vibração ao acertar os ingredientes foi comparável à emoção de um estádio de futebol.

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Ao final do jantar, os comensais trocam impressões e batem papo com o chef Gabriel. Foto: Pamela dos Santos

Mas, aqui entre nós, se você ficou a fim de provar o jantar às cegas e acha que vai entrar na experiência com uma lista de spoilers dados por esta escriba, esqueça! A cada jantar, realizado sempre às quartas-feiras, mediante reserva, o menu muda. A ideia, afinal, é surpreender e forçar os comensais a buscarem memórias e referências em seus respectivos repertórios gastronômicos. Transformar a limitação da visão, tão importante no ato de "comer com os olhos", e potencializar o tato, o olfato, a audição e, especialmente, a gustação, é um belo exercício sensorial, que nos reconecta com a essência do prazer verdadeiro de comer e beber.

Serviço
O que: Jantar às cegas no Mangôo
Quando: 29/09, 13/10 e 20/10
Onde: Rua Visconde do Rio Branco, 948 - Mercês,
Quanto: R$ 150 só o jantar e R$ 230 jantar harmonizado com vinhos
Mais informações: @mangoocwb

O Mangôo fica na Visconde do Rio Branco, no Centro de Curitiba. Foto: Reprodução
O Mangôo fica na Visconde do Rio Branco, no Centro de Curitiba. Foto: Reprodução
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