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Sem carne, por favor! Número de brasileiros vegetarianos dobra em 6 anos

Pesquisa revela crescimento no número de vegetarianos no Brasil. Eles já representam 14% da população brasileira

por Beatriz Pozzobon Publicado em 02/07/2018 às 15h
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A cozinheira Fernanda Silva Saltore, de 34 anos, deixou de comer carne no Natal do ano passado. Assim com ela, outros 30 milhões de brasileiros se declararam vegetarianos em uma pesquisa realizada pelo Ibope em abril de 2018. A estatística representa 14% da população e um crescimento de quase 100% em seis anos. Em 2012, a mesma pesquisa indicou que a proporção da população brasileira nas regiões metropolitanas que se declarava vegetariana era de 8%. Nas regiões metropolitanas de São Paulo, Curitiba, Recife e Rio de Janeiro este percentual sobe para 16%.

Fernanda tomou a decisão após assistir a um vídeo “impactante” na internet. Mas a aproximação com o vegetarianismo foi acontecendo aos poucos. Ela conta que sempre gostou de cozinhar comida vegetariana e que tem o hábito de seguir pessoas adeptas a esse estilo de vida nas redes sociais. Xuxa Meneghel, Júnior Lima, Tatá Werneck, Yasmin Brunet, João Gordo, Isabelle Drummond e Giulia Gayoso estão entre as celebridades que já declararam que não consomem carne em suas dietas.

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“Isso tudo me ajudou a entender que têm outras pessoas na mesma, que não estou sozinha nessa”, diz Fernanda, que começou a consumir mais cogumelos e folhas verdes escuras após se tornar vegetariana. “Minha cabeça foi se abrindo aos poucos. Cada um tem o seu tempo. Mas é importante as pessoas entenderem que a comida vegetariana também é completa, também sacia e que hoje em dia é muito fácil você explorar esse mundo”, completa.

fernanda saltore do fern bistro curitiba

Fernanda Saltore, que abandonou a dieta carnívora no fim de 2017: “A cozinha vegetariana é um mundo incrível que as pessoas deveriam conhecer mais”. Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo.

Para o presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), Ricardo Laurino, o aumento da população que não consome carne está estritamente ligado à informação e, neste sentido, a internet tem papel fundamental. “Com a informação correndo solta, as pessoas têm um conhecimento maior com relação a três fatores ligados ao consumo de produtos de origem animal: o impacto ambiental gerado pela pecuária, a indignação com as condições de vida impostas aos animais e os benefícios em se adotar uma alimentação baseada em produtos de origem vegetal”, enumera Laurino.

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Além disso, Laurino acrescenta que o acesso a produtos veganos e vegetarianos está cada vez mais facilitado, o que contribui para que as pessoas sintam que as dietas com restrição a produtos de origem animal são, de fato, passíveis de serem implementadas. Aqui é importante registrar que vegetarianos são pessoas que não consomem nenhum tipo de carne. Já os veganos, além da carne, excluem da dieta todos os derivados de animais, como leite e ovos, e rechaçam qualquer tipo de relação de uso e exploração de animais no seu dia a dia. Por isso, não usam couro, não vão ao zoológico e evitam comprar produtos de higiene e cosméticos que foram testados em animais.

No Brasil, já existem cerca de 240 restaurantes vegetarianos e veganos. Além disso, nos últimos cinco anos, houve um boom de lançamento de pratos e lanches sem utilização de carne ou produtos de origem animal em estabelecimentos convencionais. Nos supermercados brasileiros também é possível encontrar versões veganas de produtos cárneos ou lácteos, como nuggets, presuntos, quibes, coxinhas, salsichas, linguiças, sorvetes e requeijões.

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“Historicamente, nós sabemos que o vegetarianismo existe há bastante tempo. Mas, hoje em dia o tema é de interesse de quase toda a sociedade. Antes as pessoas tinham repulsa. Hoje elas estão curiosas”, afirma Laurino. Tanto que 55% dos brasileiros declararam interesse em consumir produtos veganos, segundo a pesquisa, se estivessem melhor indicados na embalagem e 60% consumiriam os produtos se tivessem o mesmo preço que os produtos que estão acostumados a consumir. Nas capitais, esta porcentagem sobe para 65%.

Inaugurado em março deste ano, o Fern Bistrô, em Curitiba, de propriedade de Fernanda, serve pratos com carne e pratos veganos e vegetarianos. Na quarta-feira, por exemplo, é servida a feijoada tradicional e a vegana. Das quatro opções de pratos fixos no almoço e na janta, metade não vai carne. Além disso, todas as sobremesas são veganas.

“Muitos clientes do bistrô não são vegetarianos e pedem a opção sem carne para experimentar. O fato é que a cozinha vegetariana é um mundo incrível que as pessoas deveriam conhecer mais”, finaliza.

Vegetariano raiz

Quando alguém se diz vegetariano, é comum vários questionamentos virem em seguida. O primeiro deles diz respeito ao momento em que a pessoa parou de comer carne. No caso do músico e radialista Renato Rigon, a resposta seria: desde sempre. Filho de pais vegetarianos, o músico nunca comeu carne em seus 32 anos de vida. Ele, que sempre foi o único vegetariano da escola, conta que o que antes chocava, hoje é visto com mais naturalidade. “Hoje se fala mais do assunto. As pessoas estão percebendo que ser vegetariano que não é nenhuma aberração”, diz.

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Renato Rigon e o cão Capim: “Para mim, o natural é ser vegetariano”. Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo.

Segundo Rigon, os pais sempre deixaram em aberto a possibilidade de ele consumir diferentes tipos de carne. “Eu nunca quis. Para mim, o natural é ser vegetariano. E eu me mantenho assim porque não me atraio pela carne. Nunca tive coragem de comer um bicho”, declara o músico, ao lado do cachorro de estimação Capim, adotado há quatro anos. “Eu amo os animais tanto quanto amo um ser humano. Não tenho o direito de matá-los para me satisfazer”, complementa.

Para Rigon, um dos mitos que precisa ser derrubado é o de que a alimentação vegetariana é cara. “Muito pelo contrário, é impressionante o quão barata é”, defende o músico, que prepara quase todas as suas refeições em casa. “Cozinho tudo com muito cuidado. Gosto desse contato com a comida e de fazer pratos com bastante verduras, legumes e grãos”, diz ele, que pretende se tornar vegano. “A transição para o veganismo está acontecendo naturalmente. Estou perdendo o encanto por queijos, ovos e leite. Hoje, não faço mais questão”. (BP)

Muito além da alimentação

O veganismo ultrapassa as fronteiras da alimentação e se caracteriza mais como um estilo de vida. Vegetariana há dois anos e vegana há um, a estudante Sarah Nascimento de Souza, de 21 anos, busca aplicar as lógicas de respeito entre as espécies e consumo consciente em todas as questões da sua vida. Por isso, além de não ingerir nenhum produto de origem animal, prefere comprar suas roupas em brechós, usar cosméticos de marcas veganas, ou ainda produzir os próprios produtos de beleza em casa. Sarah utiliza leite de magnésio como desodorante, bicarbonato como shampoo e óleo de amêndoas com soro fisiológico como demaquilante.

A estudante conta que a aproximação com o vegetarianismo se deu, de início, pela irmã mais velha, que havia adotado a alimentação vegana havia pouco tempo. “Comecei a me interessar pelo assunto, a ler mais e a ter contato com a questão da ética animal, que não é legal a apropriação dos seres humanos sobre outras espécies”, afirma Sarah. “Não senti dificuldade nenhuma em me tornar vegetariana. Também porque estou num meio muito ligado a isso”.

Sarah e a irmã, Júlia, que é cabeleireira, vieram de Joinville (SC) para Curitiba estudar. Elas imaginaram que os pais, que não são vegetarianos, ficariam desconfortáveis com a decisão delas. “Mas, na verdade, eles foram muito queridos. E agora vivem pesquisando receitas veganas para fazer para a gente quando vamos visitá-los”, afirma Sarah, que diz que também se aproximou da cozinha após parar de comer carne.

“Comecei a cozinhar coisas bem simples, como legumes refogados no forno. Depois de um tempo, passei a entender como funcionam as substituições e a testar receitas mais elaboradas, como strogonoff de palmito e risotos”, conta a estudante. “É maravilhosa a sensação de saber que estou me alimentado bem e que não tem nenhum animal sofrendo nesse processo. Estou com a consciência tranquila”.

Filhos

Emerson Apio é proprietário do restaurante vegano Semente de Girassol, localizado no bairro São Francisco, em Curitiba. Aos 35 anos, é casado e tem três filhos: Leonardo, de 3 anos, a Sofia, de 2, e Fred, de dois meses. Assim como pai e mãe, as crianças são veganas e nunca consumiram nenhum produto de origem animal.

O grande problema dos pais está sendo encontrar uma escola condizente com os hábitos alimentares que as crianças vivem fora do ambiente escolar. “Se você nasce em um lugar onde todo mundo é igual, onde não existe ninguém melhor que ninguém, e você vai para um lugar que é o contrário, para você aquilo é chocante”, diz Apio.

“Eu já visitei algumas escolas e ainda não encontrei nenhuma que atenda aos critérios que para mim e minha esposa são básicos”, afirma o empresário. Segundo ele, a busca é por uma escola que se baseie em valores de igualdade entre as crianças e entre as crianças e os animais e que valorize todas as formas de vida, inclusive as plantas. “Eu quero que meus filhos tomem decisões por si só, mas que não sejam influenciados pelo lado negativo”, afirma. (BP)

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Curitiba, capital vegana?

Não há dados oficiais que comprovem, mas já tem muita gente que levanta a bandeira de que Curitiba é a capital vegana do país, por causa do destaque que a cidade tem na área. Foi na capital que, em 2013, foi inaugurado o primeiro empório 100% vegano do Brasil, o Veg Veg Empório Vegetariano, que hoje também funciona como café e restaurante. Curitiba também foi a primeira cidade a ter um açougue vegano, o Armazém VegAninha, especializado em carnes e queijos vegetais.

Além do pioneirismo, a capital paranaense oferece opções diversificadas em alimentação, cosméticos e vestuário para o público vegano, vegetariano e simpatizantes. Os estabelecimentos convencionais de Curitiba, até mesmo o comércio de rua, também estão cada vez mais preparados para oferecer produtos sem ingredientes de origem animal.

Para o presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira, Ricardo Laurino, Curitiba é, de fato, a capital que melhor atende o público vegano. Esse potencial já foi identificado e já ocorreram reuniões com a prefeitura para tornar o título oficial. A ideia é que uma eventual nomeação atraia mais turistas para a cidade.

Uma nova abordagem

Caroline Melo Ferreira, proprietária do Veg Veg Empório Vegetariano, diz que o que mudou com relação ao vegetarianismo foi a abordagem. Ela lembra da sua adolescência no Rio de Janeiro, quando participava de um grupo de libertação animal cujo foco era o ataque direto às pessoas. “Eu cresci e percebi que isso mais afastava do que aproximava”, afirma.

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Carol Ferreira, do Veg Veg, em Curitiba: “Mais da metade do nosso público é formada por pessoas que não são veganas ou vegetarianas”. Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo.

Hoje, aos 31 anos e à frente do Veg Veg desde 2013, Caroline destaca que a abordagem agora é outra, que o que funciona mesmo é tratar as pessoas com carinho e compreensão. Além de empório com venda de vasta linha de produtos exclusivamente veganos, o Veg Veg funciona também como café e restaurante.

Mais da metade do nosso público é formada por pessoas que não são veganas ou vegetarianas. São pessoas curiosas. Que querem saber mais, se interessam, perguntam como funciona”, explica a proprietária. “Nossa proposta é exatamente essa. Ser a porta de entrada para o vegetarianismo. E a melhor forma de fazer com que as pessoas se aproximem, é fazer coisas que elas já comiam antes, de uma forma diferente. Tudo isso acompanhado de um atendimento pessoal e muito caloroso”, acrescenta.

Comida vegetariana no bandejão

Desde julho de 2013, os restaurantes universitários da Universidade Federal do Paraná (UFPR) servem opções veganas para o prato principal, atendendo aos pedidos dos próprios alunos. Além disso, o RU também oferece opções de acompanhamentos e sobremesas veganas, quando as convencionais contêm algum produto de origem animal.

Entre as refeições veganas servidas estão refogados de proteína de soja, de grãos, ou de leguminosas (feijão e suas variações, lentilha, grão de bico, ervilha), panquecas, tortas e empadão de proteína de soja, grãos ou leguminosas, hambúrguer, croquete, nuggets e bolinhos de leguminosas, proteína de soja ou grãos.

Dos 10 mil usuários dos RUs atendidos diariamente, 6 a 13% escolhem as opções veganas, porcentagem que depende do cardápio servido.

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