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Receita recorde

Por que turistas estrangeiros estão deixando mais dinheiro no Brasil

Junto com o aumento de turistas internacionais no Brasil cresce a procura por roteiros personalizados, nos quais a gastronomia e o contato com a cultura local passam a ocupar uma parte maior da viagem.
Cresce a procura por roteiros personalizados, nos quais a gastronomia e o contato com a cultura local passam a ocupar uma parte maior da viagem. Na foto, a cidade de Natal, um dos destinos mais procurados. (Foto: Alexis Regis/Ministério do Turismo)

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O número de turistas estrangeiros que o Brasil vem recebendo quase não mudou. O dinheiro que eles deixaram no país, sim: R$ 25 bilhões nos primeiros cinco meses deste ano, alta de 11% em relação ao mesmo período de 2025 e o maior valor já registrado para o período, segundo o Ministério do Turismo, com base em dados do Banco Central.

O descompasso entre os dois números aponta para uma pergunta que interessa mais do que contar visitantes na fronteira: o que faz um turista gastar mais depois que já está no Brasil. Os dados disponíveis, no entanto, impõem um limite a essa análise.

As estatísticas oficiais detalham a origem do visitante, o estado pelo qual ele entrou no Brasil e a via utilizada, mas não acompanham o roteiro que ele faz a partir daí nem mostram como o gasto foi dividido ao longo da viagem. A base da Embratur (Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo) é formada por registros migratórios coletados nos postos de fronteira, tratados para chegar ao número de entradas de turistas internacionais – visitantes não residentes que passam ao menos uma noite no Brasil.

Argentina, Chile e Estados Unidos respondem pela maior concentração de turistas estrangeiros no Brasil

As informações disponíveis permitem enxergar com mais clareza quem chega e por onde entra no país. Entre janeiro e maio, a Argentina respondeu por 1.912.095 visitantes, seguida pelo Chile, com 421.354, e pelos Estados Unidos, com 338.010.

O tamanho de cada fluxo, porém, é apenas uma parte desse retrato. Os argentinos chegam por diferentes corredores, com forte presença nas fronteiras terrestres do Sul, mas também desembarcam de avião no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Entre os norte-americanos, as entradas aéreas por esses dois estados concentram a maior parte do movimento. As próprias formas de acesso já indicam que o turismo internacional no Brasil reúne viagens com lógicas bastante diferentes.

O câmbio ajuda o Brasil a entrar na comparação com destinos mais próximos, mesmo quando a viagem exige um deslocamento maior. “Principalmente para os países do hemisfério norte, a possibilidade de fazer uma viagem de longa distância gastando um valor equivalente a uma viagem de curta distância, pelo mesmo período, faz com que o turista estrangeiro coloque o Brasil em sua cesta de compras”, afirma André Coelho, especialista em Turismo da FGV Projetos.

Essa vantagem ajuda a colocar o Brasil no radar do estrangeiro, mas não explica, sozinha, o valor deixado no país. Na avaliação do especialista, a competitividade brasileira está no custo-benefício formado pelo câmbio e pela oferta turística. Para que o gasto avance, o visitante precisa encontrar razões para estender a viagem depois que a passagem já foi comprada.

É justamente nesse ponto que as agências identificam uma mudança no comportamento do estrangeiro. Segundo Ana Carolina Medeiros, presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav Nacional), São Paulo e Rio de Janeiro continuam funcionando como grandes portas de entrada, mas já não encerram necessariamente o percurso.

“Uma mudança percebida pelo setor está na nova forma de consumo: há um prolongamento das viagens. Hoje, o turista estrangeiro desembarca em grandes portões de entrada, como São Paulo ou Rio de Janeiro, mas, em vez de limitar sua experiência à metrópole, busca ir além”, diz.

Segundo Ana Carolina, as agências têm vendido mais extensões para cidades situadas a três ou quatro horas desses grandes centros. Os roteiros podem levar o visitante a municípios históricos ou a destinos ligados ao litoral e ao ecoturismo. “Esse novo comportamento amplia o tempo de permanência no país, distribui melhor o fluxo turístico e fortalece economicamente destinos que antes ficavam de fora dos roteiros tradicionais”, destaca.

Além do portão de entrada e a busca por roteiros personalizados

Os grandes destinos continuam concentrando a maior parte do movimento, favorecidos pela oferta de voos e pela estrutura consolidada. A percepção das agências aponta, ao mesmo tempo, para um interesse crescente pelo Nordeste e por viagens ligadas à natureza.

Recife e Natal ganham espaço ao lado de destinos conhecidos, enquanto Bonito, Amazônia e Lençóis Maranhenses aparecem em roteiros que avançam para além da combinação tradicional entre praia e grandes centros urbanos. É nesse “alargamento” da viagem que aparecem as primeiras pistas sobre onde a receita pode crescer.

Turismo de estrangeiros no Brasil: Lençóis Maranhenses é um dos roteiros nacionais que avançam para além da combinação tradicional entre praia e grandes centros urbanosLençóis Maranhenses é um dos roteiros nacionais que avançam para além da combinação tradicional entre praia e grandes centros urbanos, no gosto do turista estrangeiro. (Foto: Biaman Prado/Ministério do Turismo)

Os dados oficiais informam quanto os estrangeiros deixaram no Brasil, mas não repartem os R$ 25 bilhões por atividade ou destino. Segundo a Abav, cresce a procura por roteiros personalizados, nos quais a gastronomia e o contato com a cultura local passam a ocupar uma parte maior da viagem. A busca por natureza também abre espaço para experiências ligadas ao turismo de aventura e ao bem-estar.

Segundo André Coelho, a hospedagem costuma ser o primeiro ponto dessa circulação. A partir dela, o visitante movimenta outros negócios ao contratar serviços e consumir no destino.

O dinheiro pode aparecer em atividades abertas, como festas de rua e praias, ou em propostas mais sofisticadas, como hotéis de luxo e experiências gastronômicas. Para o especialista, a oportunidade econômica não está necessariamente concentrada em um único segmento, mas na variedade de negócios que passam a fazer parte da viagem.

A conta que começa depois da chegada

Um número maior de visitantes, por si só, não garante que o dinheiro permaneça na economia local. “Receber turistas é o primeiro passo para um destino conseguir se posicionar em um mercado e ter um fluxo regular de visitantes. A transformação disso em receita local leva tempo e precisa ser monitorada de acordo com a capacidade de carga de cada região”, afirma Coelho.

Segundo o especialista, a diferença entre receber turistas e capturar o gasto que eles deixam se torna ainda mais importante fora dos grandes centros. Uma paisagem atraente ou a repercussão de um destino nas redes sociais pode despertar interesse, mas dificilmente sustenta um fluxo internacional regular.

Câmbio favorável pode trazer o turista ao Brasil, mas não elimina os atritos que surgem quando ele encontra barreiras para se comunicar ou pagar.

O visitante precisa conseguir chegar ao local e entender o que pode encontrar ali, o que depende de uma oferta preparada antes mesmo da promoção. “Não há uma fórmula exata para compor um destino de interesse internacional, mas há questões que precisam ser observadas, como a existência de bons hotéis, acessibilidade aérea ou terrestre, serviços em línguas estrangeiras, sinalização e, claro, boa promoção turística – considerando que exista, de fato, um produto já formatado”, explica Coelho.

A mesma lógica vale para os negócios que esperam aproveitar o aumento da receita. Um câmbio favorável pode trazer o consumidor ao Brasil, mas não elimina os atritos que surgem quando ele encontra barreiras para se comunicar ou pagar. Esses obstáculos ajudam a definir se a vantagem de preço será percebida apenas na compra da passagem ou continuará fazendo diferença durante a estada.

“O visitante estrangeiro valoriza uma experiência completa, que inclui qualidade no atendimento, facilidade de pagamento, disponibilidade de informações em diferentes idiomas, boa infraestrutura, conectividade e serviços qualificados. O Brasil reúne atributos muito competitivos, mas seguir investindo na experiência do visitante é fundamental para ampliar a sua promoção lá fora”, afirma a presidente da Abav.

O mapa do turismo internacional brasileiro ainda é desenhado, em grande parte, pelos países vizinhos, mas a oportunidade econômica vai além dos recordes de chegadas — ela começa quando o desembarque deixa de ser o principal indicador e o país passa a olhar para o valor gerado ao longo da viagem. Afinal, trazer mais turistas estrangeiros é uma conquista para o Brasil. Fazer com que o dinheiro permaneça e circule melhor é outra história.

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