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Meteorologia

El Niño retorna e acende alerta no Brasil; veja quais regiões podem sentir mais impactos

Fenômeno climático volta a ganhar força e preocupa especialistas pelos impactos no Brasil.
Fenômeno climático volta a ganhar força e preocupa especialistas pelos impactos no Brasil. (Foto: Bruno Peres/Agência Brasil)

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A confirmação do fenômeno climático El Niño pela Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos reacendeu o alerta para possíveis impactos em diversas regiões do Brasil nos próximos meses. A agência norte-americana anunciou nesta quinta-feira (11) que o fenômeno já está estabelecido, após meses de aquecimento gradual das águas do Oceano Pacífico Equatorial.

"As condições do El Niño estão presentes e espera-se que se intensifiquem durante o inverno de 2026-2027 no Hemisfério Norte e atinjam o ápice entre a primavera e o verão 2026/2027 do Hemisfério Sul", afirma a agência climática dos EUA.

Uma nota técnica publicada nesta sexta-feira (12) pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) alerta sobre os riscos que os efeitos do El Niño representam. A nota relata a possibilidade de fortes ondas de calor, seca e excesso de chuva.

"Extremos climáticos podem causar impactos marcantes em diversos setores da sociedade e da economia, afetando o abastecimento de água, a segurança alimentar, a geração de energia, a mobilidade, a saúde pública e as atividades produtivas em diferentes regiões do país", aponta a nota.

O último El Niño contribuiu para uma das secas mais severas já registradas na Amazônia.O último El Niño contribuiu para uma das secas mais severas já registradas na Amazônia. (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

El Niño no Brasil: Sul terá mais chuva e Norte pode enfrentar seca

De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), os episódios intensos não produzem os mesmos impactos em todas as regiões do Brasil. No entanto, quanto maior a intensidade do El Niño, maior tende a ser sua influência sobre os padrões de temperatura e precipitação no país.

No Sul, a tendência é de aumento das chuvas, com maior frequência de temporais e risco ampliado de enchentes. Já no Norte e em parte do Nordeste, o fenômeno costuma reduzir os volumes de precipitação, favorecendo estiagens mais severas e prolongadas.

No Sudeste e no Centro-Oeste, os efeitos mais comuns incluem temperaturas acima da média, ondas de calor mais frequentes e distribuição irregular das chuvas ao longo da estação, abrangendo os estados de Minas Gerais,
Espírito Santo, Rio de Janeiro, Goiás e Bahia.

O acompanhamento feito por meteorologistas também aponta para um cenário de atenção para os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, onde a combinação entre volumes elevados de chuva e eventos extremos tem potencial de aumentar o risco de novas inundações.

Em contrapartida, a previsão para o segundo semestre indica agravamento da seca em áreas da Amazônia, da Caatinga, do Cerrado e do Pantanal. Nessas regiões, a redução das chuvas pode afetar rios, reservatórios, atividades agropecuárias e elevar o risco de queimadas.

O Inmet realiza previsão climática para até três meses. A mais recente, publicada nesta sexta-feira (12), corresponde ao trimestre julho-agosto-setembro.

A previsão aponta probabilidade de ocorrer chuva acima da média no Rio Grande do Sul no período, em até 200 mm. Já as temperaturas médias tendem a ficar acima da média com desvios de até 1,5ºC no Paraná e até 1ºC acima em Santa Catarina e centro-norte do Rio Grande do Sul.

O último episódio de El Niño coincidiu com enchentes históricas que devastaram cidades gaúchas.O último episódio de El Niño coincidiu com enchentes históricas que devastaram cidades gaúchas. (Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

As consequências regionais do El Niño no Brasil, de acordo com o Inpe

Região Norte

  • estação seca longa, calor e baixa umidade elevam o risco de incêndios (alta de 36% no histórico)
  • rios baixos: seca nas cabeceiras reduz o nível dos rios, isolando ribeirinhos, afetando a pesca, a agricultura e a geração hidrelétrica

Região Nordeste

  • seca extrema: bloqueios atmosféricos cortam as chuvas e reduzem as nuvens.
  • calor e incêndios: maior radiação solar eleva as temperaturas e acelera a evaporação, desidratando a vegetação e facilitando o fogo.

Região Centro-Oeste

  • calor e baixa umidade: forte tendência de altas temperaturas em MT, GO e DF, agravando o risco de queimadas na primavera
  • El Niño forte: traz chuvas regulares ao sul (MS e sul de GO), mas mantém as chuvas irregulares no norte da região

Região Sudeste

  • chuva irregular: Frentes de chuva mudam para o sul (sudeste de SP, centro-sul do RJ e MG), enquanto o norte da região sofre com estiagem.
  • ondas de calor: bloqueios atmosféricos impedem frentes frias de subir, causando calor prolongado na primavera e verão.

Região Sul

  • chuvas e inundações: transporte mais intenso de umidade da Amazônia e ciclones causam temporais severos e grandes enchentes.
  • inverno mais quente: temperaturas acima da média, com frentes frias mais curtas e menor incidência de geadas severas.

Enchentes históricas no Sul e seca recorde na Amazônia marcaram último El Niño

Um estudo publicado em 2025 pelo Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) analisou 45 anos de dados hidrológicos e concluiu que o El Niño aumenta a probabilidade de cheias na Bacia do Prata, região que abrange parte do território gaúcho.

Segundo o pesquisador Rodrigo Paiva, ainda não é possível prever se o Sul enfrentará cheias semelhantes às registradas em 2024. Mesmo assim, ele defende a aceleração de medidas preventivas "como investimentos em Defesa Civil, sistemas de monitoramento e reconstrução de estruturas de proteção".

Entre 2023 e 2024, as enchentes históricas registradas no Rio Grande do Sul afetaram cerca de 2,4 milhões de habitantes, com quase 200 mil pessoas desalojados ou desabrigadas. O estado registrou 184 mortes na tragédia, de acordo com os dados do governo do Rio Grande do Sul.

No mesmo período, o Amazonas enfrentou a maior estiagem de sua história recente, com o rio Negro atingindo o menor nível em mais de um século. De acordo com o governo do estado, o colapso ambiental afetou mais de 750 mil pessoas, isolou comunidades inteiras devido ao desaparecimento de rios, e deixou 100% dos municípios em situação de emergência.

Temperaturas acima da média estão entre os principais efeitos do El Niño no país.Temperaturas acima da média estão entre os principais efeitos do El Niño no país. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Fenômeno pode alcançar níveis históricos nos próximos meses

A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos informou que existe 63% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Caso a projeção se confirme, o episódio poderá integrar o grupo dos mais intensos já registrados desde 1950.

"Há 63% de probabilidade de um El Niño muito forte durante o período de novembro a janeiro, que se classificaria entre os maiores eventos El Niño já registrados historicamente, desde 1950", afirma o órgão norte-americano.

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) também projeta um evento ao menos moderado, com possibilidade de atingir intensidade forte. Modelos climáticos do Centro Europeu para Previsões Climáticas de Médio Prazo indicam que o aquecimento das águas do Pacífico pode superar 3°C.

O El Niño se caracteriza pelo aquecimento de pelo menos 0,5°C das águas do Pacífico Equatorial. A La Niña, por sua vez, ocorre quando essas mesmas águas apresentam resfriamento. Os dois fenômenos representam fases opostas do El Niño-Oscilação Sul (Enos).

O fenômeno costuma ocorrer em intervalos de dois a sete anos, tem duração média de até 12 meses e influencia os padrões climáticos em diversas partes do mundo. Além disso, contribui para o aumento da temperatura média global.

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