
O futuro tem inquietado os povos desde sempre. A partir do final do século 19, o cinema configurou o conjunto de recursos técnicos e de linguagem que propiciaram projeção e visibilidade a essa inquietação como nunca antes, nas imagens em movimento, particularmente, nos filmes de ficção científica.
Para pensar e projetar possibilidades sobre o futuro, homens e mulheres têm lançado mão das mais diversas ferramentas de que disponham: artefatos, tecnologias, sonhos, memórias, medos e desejos conformam os futuros possíveis de se imaginar. É a partir do já vivido, e do vivendo, que os povos pensam e projetam o por viver, o devir... Afinal, lembrando o hegeliano Croce, dentre outros pensadores, escrever a história do passado representa, sempre, recontar o passado a partir das instalações do presente, de modo que toda história possa ser considerada história contemporânea. Então é possível pensar que as histórias sobre o futuro sejam, também, contemporâneas, porquanto ancoradas no presente de quem as conte. É o presente a fonte primaz dos referenciais que conformam o imaginário nas formulações do futuro... Futuros...
Observando a fisionomia das cidades projetadas em filmes de ficção científica realizados ao decurso do século 20, é possível notar que as paisagens foram sofrendo mudanças, refletindo as questões que mobilizaram as sociedades ao longo desse período, sobretudo no tocante às questões ambientais e às perspectivas de futuro ante os desafios do desenvolvimento científico-tecnológico, acompanhado pela intensificação das guerras. As imagens passaram do preto-e-branco para as cores, da tecnologia analógica à digital, incorporando sonorização e efeitos especiais cada vez mais sofisticados. No entanto, na passagem das utopias às distopias, o otimismo com as primeiras promessas feitas pelo processo de industrialização, notado no antológico filme Viagem à Lua, realizado por Georges Méliès em 1902, deu lugar à advertência quanto à maquinização das relações humanas, sobretudo da classe operária, a serviço das elites, como propõe a metáfora de Metrópolis, dirigido por Fritz Lang em 1927. As preocupações com o meio ambiente, inteligência artificial, natureza humana, por exemplo, ganharam espaço nos roteiros de filmes como Blade Runner, de Ridley Scott, lançado em 1983. Ao lado dessas, figuram as inquietações relativas a novos princípios de eugenia que possam vir atrelados ao desenvolvimento da biogenética, argumento central de Gattaca, assinado por Andrew Niccol, em 1997. As preocupações com os riscos representados pelos projetos de perfeição das sociedades utópicas inspiram-se no desenvolvimento da racionalidade técnico-científica, que pode redundar em sistemas totalitários, como os esboçados nos filmes Fahrenheit 451 e THX-1138, realizados em 1966 e 1971, por François Truffaut e George Lucas, respectivamente. Muitas dessas histórias chegam, mesmo, a antever a extinção da humanidade, como em Inteligência Artificial, lançado em 2001, por Steven Spielberg.
Em todas as narrativas, é possível notar que, a despeito da aposta da modernidade numa possível reordenação racional do mundo, a vida prática continua plena de rituais, sonhos e orientações não-racionais. Nesse sentido, a ciência e a tecnologia representam o poder mágico do mito, que atravessa as narrativas de ficção científica. Sua natureza mítica, portanto, estaria na configuração de um mundo imaginário, comum a todos os súditos da formação social capitalista contemporânea. Assim, o mito da ficção científica forneceria uma mediação para a angústia e as contradições sócio-culturais trazidas pelo desenvolvimento da urbs tecnológica.
Nesses termos, na ficção científica, a questão mítica das origens é camuflada pela indagação, ansiosa, em torno do futuro, acionada pelos temores às catástrofes, dominações tecnocráticas, novas eugenias, profundas transformações na natureza, que podem de-flagrar a própria extinção da espécie humana. Produzida e consumida como um mito de destino, a ficção científica aparece como meio de exploração lógica dos paradoxos do desenvolvimento científico e tecnológico da sociedade capitalista, em que prevalecem as advertências quanto à possibilidade de morte para a humanidade.
Em última instância, a análise dos filmes de ficção científica possibilita constatar que, por trás das máscaras pseudocientíficas e tecnológicas de suas narrativas, dos embates entre forças sociais que disputam o domínio nas relações econômicas e políticas, da desesperança que assola a contemporaneidade, lateja, sem trégua, o desejo de voltar ao princípio, ao elo mítico onde o passado remoto e o futuro longínquo se entrelaçam para dar sentido à grande viagem da saga humana.
Alice Fátima Martins
Doutora em Sociologia, mestre em Educação e arte educadora. Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Cultura Visual da FAV/UFG profalice2fm@gmail.com







