“Com a literatura, não quero ser ninguém”, afirma Mario Sabino| Foto: Divulgação

Um clássico anunciado

Há muitos motivos para ler a ficção de Mario Sabino. Em primeiro lugar, fato principal: ele escreve bem. Isso pode ser comprovado em qualquer fragmento do livro A Boca da Verdade: "Fora-lhe um pai sem dentes. Sem dentes que lhe cravassem com força suficiente as marcas da interdição ancestral".

Mas se o fato de escrever bem não for suficiente para levar o leitor à ficção de Sabino, há mais um argumento: ele é uma voz dissonante em meio à maioria (absoluta) dos escritores brasileiros. Não lamenta o tempo perdido. Não recria impasses da classe média.Acima de tudo, não tenta ser uma réplica de outros autores.

O leitor que não espere encontrar rastros de Machado de Assis, Guimarães Rosa ou de qualquer outro escritor no texto de Sabino. Ele parece, antes de tudo, flertar com a filosofia.

Sabino é um escritor que consegue, mesmo em (relativo) pouco tempo de trajetória (ele estreou em 2004), conceber textos inconfundíveis. O leitor lê um conto e sabe, de fato, que quem escreveu foi ele. Sabino desmonta certezas, ri de quase tudo e não teme o Juízo Final.

Com obras traduzidas e bem-recebidas em dez países, Sabino é (sem dúvida) um excelente escritor. E esse livro, A Boca da Verdade, apresenta-se – desde o lançamento – como um provável clássico de nossa literatura.

(MRS) GGGG1/2

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Mario Sabino, de 47 anos, é um dos raros casos de um sujeito que consegue separar, com muita clareza, as suas duas atividades, ambas ligadas diretamente à escrita. Ele é um dos todo-poderosos da revista Veja, mais especificamente, o redator-chefe.

Simultaneamente, mantém uma bem-sucedida carreira de escritor.

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O seu livro de estreia, O Dia em Que Matei Meu Pai, saiu em 2004 e já foi traduzido para o francês, inglês, italiano, espanhol e holandês. O Antinarciso, coletânea de contos publicada em 2005, recebeu o Prêmio Clarice Lispector, da Biblioteca Nacional.

Agora, em agosto, chega ao mercado mais um livro de contos, A Boca da Verdade.

Enquanto jornalista, independentemente das funções de seu alto cargo na revista, Sabino apresenta um texto padronizado, com frases curtas e ágeis – como recomendam muitos manuais.

De toda forma, ironia e sarcasmo são "ingredientes" que costumam invadir os textos informativos do jornalista Sa­­bino.

O texto do escritor Sabino é muito diferente. Antes de mais nada, faz emergir, sem nenhum disfarce, a sua visão de mundo. Ele não acredita em nada. Pode ser chamado de niilista. Não tem muita fé no futuro nem nas ações do ser humano.

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O título de seu primeiro livro (O Dia em Que Matei Meu Pai) sugere um tema que estaria presente em seu livro de contos O Antinarciso e que também aparece em A Boca da Verdade.

O escritor procura – por meio da ficção – "matar" o pai, seja cortando toda e qualquer espécie de cordão umbilical e mesmo aparando ou apagando quaisquer raízes.

"Os melhores romances e contos são aqueles em que os protagonistas são movidos por angústia, tormento, sofrimento. A dor de existir, enfim", escreveu Sabino, no texto "Uma Palavra", que funciona como posfácio nesse livro recém-lançado e que revela a sua opção estética, a sua visão de mundo: ele não tem expectativa, em relação a ninguém e a nada.

Serviço

A Boca da Verdade. Mario Sabino, Record, 144 págs., R$ 29.

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