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O poeta iraniano Emadi Mohsen, no México: a imagem de um escritor no desterro | Divulgação
O poeta iraniano Emadi Mohsen, no México: a imagem de um escritor no desterro| Foto: Divulgação

Instituto de proteção a exilados pode abrir unidade no Brasil

O exílio de Mohsen Emadi e de vários outros escritores em todo o mundo é apoiado pelo Icorn, sigla em inglês para International Cities of Refuge Network. Trata-se de uma rede de casas de refúgio para autores nesta condição que ajuda também a recolocação profissional do escritor emigrante.

A Flupp 2014 discutiu a abertura de uma entidade integrante desta rede no país, a unidade da Casa Brasileira de Refúgio (Cabra), em Ouro Preto (MG), e os benefícios que ela pode trazer para a literatura nacional.

Para, Elisabeth Dyvikm, diretora do Icorn, as condições são boas, não só pela diversidade e hospitalidade da cultura, mas também pela história recente do Brasil.

"Artistas brasileiros, escritores e intelectuais passaram muitos anos no exílio há apenas algumas décadas e reconhecem as necessidades de seus colegas perseguidos hoje", diz.

Para o poeta iraniano Moh­­­sen Emadi, exilado político de seu país há cinco anos, a visita que fez a Curitiba no último fim de semana foi reconfortante. Além de poder falar sobre poesia e sua situação pessoal peculiar, Mohsen disse ter se sentido perto de Sari, sua cidade natal no norte do Irã.

"Nasci numa cidade muito verde e úmida em que chove quase o ano inteiro. Curitiba me pareceu assim também e as pessoas que conheci confirmaram minha impressão. Me senti em casa", observa.

O iraniano esteve por aqui participando da Festa Literária das Periferias (Flupp), evento voltado para a formação de leitores e escritores nas periferias que começou no Rio de Janeiro em 2012 e neste ano se estendeu para três outras capitais.

No sábado passado, dividiu uma mesa com o escritor Cristovão Tezza e pôde falar sobre sua condição de escritor desterrado.

"A vida diária no exílio tem duas dimensões. Uma é trágica. Neste ano, morreu minha avó, minha mentora na poesia. Não pude estar com ela, nem me despedir. Estas coisas acontecem e não tem volta", explica.

"Por outro lado, o exílio me dá oportunidade de ver outras culturas e apresentá-las a meus conterrâneos. A vida tem de seguir e, apesar de tudo, só depende do jeito como queremos vivê-la. Eu luto pela vida. Não posso estar a favor da morte", pondera.

Prodígio

Mohsen Emadi foi menino prodígio da poesia iraniana. Publicou ainda adolescente sua primeira coleção de poesia na Espanha. Ele estudou cinema, ciência da computação e a história da poesia persa.

Em seu país, criou vários sites sobre poesia, ora traduzindo para o persa poetas do mundo inteiro, ora fazendo o caminho contrário: em 2007, ao fundar a Antologia Mundial de Poesia Persa, da qual foi editor responsável.

Em 2005, com a ascensão do governo teocrático de Mahmoud Ahmadinejad passou a participar ativamente da oposição política do país. Após a reeleição do presidente em 2009, se viu obrigado a sair do Irã, depois de ver seus companheiros ideológicos presos e mortos pelo regime. "Minha prisão era questão de tempo", afirma.

Com a ajuda do Icorn (leia abaixo) conseguiu emigrar para o norte da Europa, depois para a Espanha e finalmente para a Cidade do México. "Uma cultura generosa com as diferenças" onde hoje, aos 38 anos, Emadi vive como professor, escritor e tradutor desde 2011.

Apesar de sua história de vida, Mohsen não se considera um "poeta político". "Tenho elegias a meus amigos mortos e alguns textos sobre política, mas me interessa principalmente o amor e sua gramática", afirma.

Para ele, o principal ativismo de um artista maior é fazer a cultura chegar às pessoas. "Como tradutor, desde sempre eu soube que em meu país as portas do pensamento estavam fechadas e com meu trabalho me dava chance de abrir este cárcere", conta.

Nesta passagem pelo Brasil, o poeta que se diz de "esquerda" não perdeu a oportunidade de criticar a política externa iraniana. "Nunca entendi como regimes que se dizem de ‘esquerda’, como o Brasil, Cuba e Venezuela, dão suporte a uma ditadura como a iraniana em nome de um muito superficial discurso e postura anti-imperialista. Que esquerda é essa?", indaga.

Mirando o futuro, Moh­­­­sen não se vê voltando ao Irã. "É um país ‘perdido’, que se converte em um abismo e te devora para sempre", filosofa.

Ele confessa viver dividido entre a vontade de rever seus amigos e as paisagens de sua infância (e espera poder fazê-lo um dia) e a necessidade de, como poeta, ser um cidadão do mundo. "A alma não tem fronteiras. Minha pátria verdadeira é minha memória e a minha poesia."

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