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Literatura

As palavras são inesgotáveis

O escritor angolano radicado em Portugal Valter Hugo Mãe tem, finalmente, um livro publicado no mercado editorial brasileiro. Trata-se do romance o remorso de baltazar serapião

O escritor Valter Hugo Mãe venceu o prêmio José Saramago de 2007 e foi saudado pelo grande escritor português como um “tsunami literário” | Ana Pereira/Divulgação
O escritor Valter Hugo Mãe venceu o prêmio José Saramago de 2007 e foi saudado pelo grande escritor português como um “tsunami literário” (Foto: Ana Pereira/Divulgação)
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Aos 39 anos, após publicar mais de 20 livros, o escritor angolano radicado em Portugal Valter Hugo Mãe tem, finalmente, um livro publicado por uma editora brasileira, a 34. A obra escolhida para a estreia do escritor no mercado editorial do Brasil é o romance o remorso de baltazar serapião (em minúsculas).

Em entrevista realizada por e-mail, o autor explica o motivo de usar apenas minúsculas, seja em seu nome nas capas de seus livros como nas palavras e nos títulos de suas obras. "O modo como escrevo pretende ir ao en­­contro da natureza do discurso. Em verdade, não falamos e não pensamos com maiúsculas, assim como pouca pontuação fazemos. Tento reduzir tudo ao essencial procurando essa liberdade que é a do texto do pensamento ou a do texto oral, que desobedece a quase tudo e está preocupado apenas com fazer sentido e ser genuíno", diz.

Neste romance, publicado originalmente em 2006, o leitor se depara com um universo mítico, situado em algum lugar do passado. "Quis que o livro remetesse o leitor a um tempo medieval, que é sobretudo mental. Quis que houvesse uma espécie de treva ao nível das ideias, uma torpeza que significa a imaturidade da sociedade em relação a tanta coisa, mormente em relação à condição ainda tão desprezada da mulher", afirma.

A mulher, neste contexto de ficção, é considerada inferior ao homem. O protagonista, baltazar serapião, se casa com ermesinda, tida, pelos personagens masculinos, como incapaz de raciocinar, e vocacionada para a cópula. "Sempre acreditei ser mais feminista do que muitas mulheres, e pretendi com o livro fazer uma certa justiça às mulheres ostentando toda a es­­tupidez a que já foram submetidas. Não porque hoje continue a ser assim, mas porque hoje ainda falta percorrer um caminho longo para que se estabeleçam mecanismos de igual dignidade social, laboral, política, o que seja."

O relacionamento de baltazar serapião com ermesinda naufraga a partir do momento em que surge, e se instala, a suspeita de um adultério. "Sabemos apenas que a sua esposa é obrigada a visitar o senhor feudal muito cedo de manhã, sempre sozinha. Por mais que ela confirme que não acontece nada de inapropriado, baltazar não acredita e o ciúme condena a mulher", diz o autor deste enredo que, por ter como um de seus pilares uma ambiguidade sobre traição, estabelece diálogo com Otelo, de William Shakespeare, O Primo Ba­­sílio, de Eça de Queiroz, e Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Idioma revigorado

Mais do que mostrar a opressão que a sociedade, medieval e mesmo no tempo presente, exerce sobre a mulher, o romance trata de uma situação que se repete desde a origem dos tempos, a subjugação humana. "Parece que, em último plano, vamos funcionar sempre assim, uns bichos mais fortes subjugando outros bichos mais fracos. É frustrante, precisa de ser ultrapassado."

Mas, bem mais do que o enredo, por si só algo surpreendente, a construção de cada frase do romance impressiona ainda mais. Basta recortar, ao acaso, um trecho para entender como é diferenciada a dicção literária de Valter Hugo Mãe: "essas coisas do sexo eram muito importantes, por isso parecia muito difícil conciliar uma fidelidade amorosa com a vontade tão desenfreada de entrar numa rapariga."

A escrita de Mãe tem bossa – ele segue por veredas pouco percorridas anteriormente. E essa experimentação com a palavra escrita tem, pelo menos, uma motivação: surpreender o leitor. "Eu uso palavras que retiro do lugar onde costumam estar e coloco noutro. Troco um pouco as coisas, para que as mesmas palavras passem a dizer coisas diferentes. Isso agrada-me muito, mostrar o lado surpreendente das palavras que julgamos conhecer. As palavras, na verdade, são inesgotáveis." E, mesmo com as suas conquistas, sejam livros aplaudidos e premiados e ainda um refinamento com a linguagem, o escritor segue inquieto. "É importante que não nos ofusquemos com o que fazemos para que possamos continuar a fazer. Tenho de a­­­creditar que ainda vale a pena escrever novos livros e que, provavelmente, outros livros que escrevi são até melhores, chegam mais fundo às questões, são melhores participações na vida das pessoas."

Serviço

o remorso de baltazar serapião, de Valter Hugo Mãe. Editora 34, 200 págs., R$ 37. Romance

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