
Em Praia do Futuro, longa-metragem que o cineasta cearense Karim Aïnouz terminou de rodar na última semana em Fortaleza, Wagner Moura vive o papel de um salva-vidas que, por causa de uma grande paixão, deixa o Brasil e se muda para Berlim, na Alemanha. Lá, inicia uma nova vida e, com o passar do tempo, se distancia de seu passado, da família. Anos mais tarde, seu irmão mais novo, vivido pelo estreante Jesuíta Barbosa, que o via como um herói quando criança e com ele ansia se reconectar, vai a sua procura.
Os dois irmãos integram, segundo disse Aïnouz em entrevista por telefone à Gazeta do Povo, um tríptico, cuja terceira parte, que antecede as demais, narra a trágica história de um alemão, interpretado pelo ator Clemens Schick, que vê um amigo morrer afogado na praia que dá título ao filme, onde o personagem de Moura trabalha.
"Depois de discutir bastante o feminino em dois filmes que fiz, O Céu de Suely e O Abismo Prateado [ainda inédito], senti a necessidade de discutir a fragilidade masculina", explicou o cineasta, para quem seu novo longa também fala de outros temas que lhe são caros. Entre eles, a transtoriedade, uma vez que os personagens centrais estão sempre em movimento, a desterritorialização e, sobretudo, a sede por aventura.
"O filme fala de homens que ousam mergulhar no abismo, se aventurar, correndo riscos. Vivemos tempos estranhos, nos quais há uma tendência à imobilidade, ao conservadorismo." Praia do Futuro, assim, é uma espécie de reação a essa maré.
A geografia, os lugares onde a trama de Praia do Futuro se desenvolve, têm um papel fundamental no filme. "Escolhi duas cidades pelas quais sou apaixonado, com as quais eu tenho uma relação muito pessoal."
Berlim, onde Aïnouz já havia morado em 2004, como bolsista, é descrita pelo diretor, como uma fênix, capaz de sobreviver e se reconstruir muitas vezes, depois de tantas guerras. "Espero que a cidade não tenha de passar por isso de novo, mas toda essa experiência acumulada em sua história diz muito sobre sua identidade." E, portanto, a respeito dos personagens do filme.
Fortaleza, por sua vez, além de ser a cidade onde Aïnouz nasceu, em 1966, e viveu por muitos anos, também oferece ao filme seu título, o nome de uma praia urbana que guarda sutil, porém contundente ironia. "Apesar do nome, há no local tamanha salinidade no ar que nada resiste à corrosão. O futuro, assim, inexiste."
Roteiro
Dono de uma sólida filmografia (veja quadro ao lado), que inclui, além dos filmes já citados, o premiado Madame Satã, estrelado por Lázaro Ramos, Aïnouz é graduado em Arquitetura na Universidade de Brasília e tem mestrado em Teoria do Cinema pela Universidade de Nova York. Ele está neste fim de semana em Curitiba, onde ministra, até hoje, uma oficina de roteiro dentro do projeto Ficção Viva II.
Ironicamente, nas próprias palavras do diretor, apesar de ser o autor dos argumentos de seus longas, ele dificilmente chega ao set de filmagem com um roteiro totalmente pronto. Costuma, inclusive, trabalhar com colaboradores no caso de Praia do Futuro, teve a contribuição do cineasta Felipe Bragança (de A Alegria).
Para Aïnouz, cada filme é um. No caso de seu novo longa, os atores tiveram acesso a uma versão do roteiro já com diálogos, o que não ocorreu, por exemplo, com O Céu de Suely, estrelado por Hermila Guedes e João Miguel. "As cenas eram ensaiadas sem que o elenco tivesse acesso aos diálogos."
Por acreditar que o filme vem à vida não na escritura do roteiro, mas sobretudo na rodagem e na edição, Aïnouz diz preferir não chegar ao set com nada muito engessado, amarrado, sem a possibilidade de novos insights e desejadas mudanças que alterarão seu rumo. "O filme é um organismo vivo."
O Abismo Prateado
Do Brasil, Aïnouz agora retorna a Berlim, onde fará a montagem e a finalização do longa, uma coprodução entre o Brasil e a Alemanha. Prevê que esteja pronto para encarar a maratona de festivais nacionais e internacionais em julho de 2013. Antes disso, no entanto, ele pretende lançar, ainda no primeiro semestre do próximo ano, seu penúltimo longa, O Abismo Prateado, estrelado por Alessandra Negrini e inspirado pela canção "Olhos nos Olhos", de Chico Buarque.
O longa deu a Aïnouz, em 2011, o prêmio de melhor direção no Festival do Rio e foi laureado em quatro categorias em Havana (Cuba): melhor filme (Grand Coral, segundo prêmio), atriz (Alessandra Negrini), som (Ricardo Cutz, Waldir Xavier e Leandro Lima) e fotografia (Mauro Pinheiro Jr.). "Estávamos esperando o fim da rodagem de Praia do Futuro, para começar a planejar o lançamento."








