Em gravações, a cantora demonstrava afeição a ritmos brasileiros| Foto: Valery Hache/AFP

Quando começou a fazer sucesso internacional, em 1992, com o álbum Miss Perfumado (que trazia "Sodade", canção que se tornaria sua marca registrada), a caboverdiana Cesaria Evora, morta no último sábado aos 70 anos, rapidamente despertou comparações com Edith Piaf e Billie Holiday – cantoras que, como ela, se impuseram no ambiente caótico e degradado dos bares, com vozes incomuns, curtidas no sofrimento e em outros venenos, mas de inigualável beleza.

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Nos quase 20 anos em que o público pôde partilhar de sua presença, Cesaria fez mais do que simplesmente cantar. A "diva dos pés descalços" realizou a façanha de botar no mapa da "world music" a bandeirinha do modesto arquipélago africano de Cabo Verde, ex-colônia africana de Portugal. Um "pequeno país", como Cesaria cantou em "Petit Pays" (de Nando da Cruz), provavelmente a canção que melhor explica os mistérios desta voz e de sua música.

Em criolo (a mistura de português, francês e idiomas africanos que vigora em Cabo Verde), Cesaria falou daquela "terra pobre, cheia de amor", que tem morna, coladeira, batuco e funaná. Todos são estilos musicais ricos, bem marcados (a morna é mais melancólica, a coladeira, animada), que nasceram nas ilhas guardando estreito parentesco com o fado português, as modinhas e o samba brasileiros, a música cubana e os ritmos e cânticos do continente africano.

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Cesaria Evora sempre cantou a variedade da música de sua terra, mas teve uma grande afeição pelos brasileiros, que a acolheram como parte de uma linhagem de grandes damas negras – Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus, Lia de Itamaracá, entre outras.

Em 1988, quando, aos 47 anos, gravou seu primeiro disco na França (levada pelo empresário José da Silva, que a acompanhou até o fim da vida), Cesaria já tinha um "Passeio Samba", de Tom e Vinicius, em seu repertório. Em 1996, ela cantou, com Caetano Veloso e o tecladista japonês Ryuichi Sakamoto, o samba "É Preciso Perdoar" (de Alcivando Luz e Carlos Coqueijo) para o disco beneficente Red Hot + Rio. Com Caetano, ela voltaria a fazer dueto em "Regresso", no disco São Vicente di Longe, de 2001.

"Eu preciso de vez em quando da minha terra, do povo que sou e do marulhar das ondas", disse certa vez Cesaria. Não é de se espantar que os seus caminhos fossem encontrar, do outro lado do oceano, com os de Dorival Caymmi. Com Marisa Monte, ela gravaria "É Doce Morrer no Mar", clássico do baiano e um de seus grandes momentos na música brasileira.