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Cinema

Fernando Morais: O “Chatô” que escrevi em 600 páginas está lá

  • Fernando Morais
  • Estadão Conteúdo
Parte da ação em “Chatô” transcorre como uma espécie de delírio. | Divulgação
Parte da ação em “Chatô” transcorre como uma espécie de delírio. Divulgação
 
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No dia em que o jornalista Assis Chateaubriand morreu, em outubro de 1968, o diretor do Museu de Arte de São Paulo (Masp), Pietro Maria Bardi, mandou decorar com três obras-primas a câmara ardente onde Chatô era velado: a tela “Banhista com o Cão Grifo”, um nu gigantesco de Renoir, ao lado da qual pendurou o “Retrato do Cardeal Cristófaro Madruzzo”, de Ticiano, e o Goya “Don Juan António Llorente”, um majestoso retrato do secretário da Inquisição espanhola. Aos olhos dos diretores dos “Diários Associados”, expor em um velório dois religiosos e uma mulher despida era algo inadmissível. Mandaram retirar os quadros, mas Bardi bateu o pé:

“Mas dottore, esta é minha última homenagem ao Chatô. Nesta parede, estão as três coisas que ele mais amou na vida: o poder, a arte e mulher pelada.”

Foi essa frase de Pietro Bardi – a última do livro “Chatô” – que minha memória desenterrou quando acabei de ver o filme homônimo de Guilherme Fontes. Não cheguei a perguntar ao diretor se essa tinha sido a inspiração de seu roteiro. Mas, se o Chatô pintado por Bardi é fiel, a adaptação atingiu seu objetivo. O filme retrata com humor e sarcasmo um homem patologicamente obcecado pelo poder, pelas mulheres e pelo sonho de construir museus “para civilizar o Brasil”.

Jorge Amado costumava fazer uma recomendação aos autores que vendiam seus livros para adaptação cinematográfica. “Não vejam o filme”, sugeria. “Livro é livro, filme é filme.”

Se a advertência vale para romances, mais ainda valerá para obras de não ficção, que é o caso do meu livro. Autor que for ao cinema à espera de ver seu trabalho sob a lupa do rigor histórico se frustrará. Desde que não fraude nem mutile a obra original, a chamada “liberdade dramatúrgica” é infindável.

Na saída do cinema, ouvi alguém dizer que o personagem Rosenberg, vivido no filme por Gabriel Braga Nunes, é uma fusão dos jornalistas Carlos Lacerda e Samuel Wainer. Mas alguém poderá perguntar: é possível fundir Lacerda e Samuel num único personagem? Na vida real, não. Mas cinema é mentira.

O Chatô que tentei exumar em 600 páginas de livro está lá, autêntico, na obra de Guilherme. “Chatô – O Rei do Brasil” é um filme divertido, inteligente, ousado, atrevido. Como foi em vida o fascinante Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo.

Fernando Morais é escritor e biógrafo.

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