Serão menos de 3.000 pessoas por noite para assistir a uma banda que está no quase, acertando os ponteiros para chegar lá, bem perto da linha do mega. É nesse limiar que o Coldplay começa nesta segunda-feira (26), em São Paulo, a série de suas três únicas apresentações no Brasil.

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Os shows são parte de uma turnê latino-americana definida como intimista, em que o quarteto de Londres procurou evitar as grandes multidões que poderia reunir. Afinal, se trata de um grupo que vendeu 28,5 milhões de cópias no mundo inteiro em apenas três discos, cujo vocalista e principal figura é casado com uma estrela hollywoodiana e que suscita interesse cada vez maior sobre seus próximos passos. A platéia selecionada esgotou as três noites no Via Funchal em apenas 48 horas após o início da venda, apesar dos salgados preços.

A passagem pelo Brasil ocorre depois de três apresentações no Chile e outras três na Argentina. A tão propalada notícia - veiculada em site oficial - de que os latino-americanos testemunhariam músicas inéditas não se mostrou verdadeira. E houve ainda a interrupção da coletiva em Buenos Aires, provocada pela revelação de que os hermanos da imprensa chilena tinham detonado a performance dos ingleses. "Você pode ser a banda número um do mundo, vender milhões de discos, mas o comentário de uma só pessoa pode te destruir", declarou um abatido Chris Martin, segundo a agência argentina Telam.

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Sinal de que, pessoalmente, o líder do Coldplay ainda considera que existe algo a provar em sua carreira. Tanto que preferiu cercar de mais cuidados o processo de concepção de seu quarto disco, deixando para lá a idéia de tocar as novas músicas - internet, sabe? - e preferindo trabalhá-las mais tarde com o produtor Brian Eno. Ele é músico conhecido tanto pelo brilho em seus trabalhos experimentais quanto por ter pilotado alguns dos discos-chave da trajetória do U2 ("The joshua tree" é um deles).

Seu lado experimental como o fato de ter colaborado para a transição de uma banda para a fase mega podem ser as novas direções para o Coldplay. Mas, por enquanto, isso importa pouco. O que está em questão são as músicas, esperadas para os shows, que levaram 28,5 milhões de pessoas a irem até o balcão de uma loja e pedir um disco do grupo.

E como isso aconteceu a um nome que parecia não convencer muito executivos de gravadora sobre o seu potencial? - foi preciso que um rapaz do selo Parlophone acreditasse que "havia algo" para que o pouco disputado Coldplay ganhasse um contrato. Hoje em dia, dá para imaginar o efeito da música do grupo em pessoas que chegam cansadas em suas casas, às vezes tristes com um dia ruim, e Chris Martin está lá, dizendo "ninguém nunca disse que seria difícil assim" ("The scientist"). Se o negócio é que você está chateado de alguma atravessada na vida, ele fala sobre "o pensamento de todas as coisas estúpidas que eu fiz. E eu nunca tive intenção de te arrumar problema" ("Trouble").

Mas essa identificação com as pessoas só é possível devido ao talento de Chris Martin, ao lado da banda, para entregar belas melodias, fazer as passagens certas nas músicas e usar a guitarra certa ou o piano na hora devida, arrebatando assim o ouvinte. Alcançar isso não é nada fácil, e eles conseguiram com sucesso até agora - embora, no mais recente "X & Y", a banda esteve sob fogo cerrado da crítica, que a acusou de jogar seguro demais na sonoridade e fazer letras tingidas de uma melancolia em tom genérico; outros mais diretos falaram em música chata com cara de auto-ajuda.

Se não houver mudanças radicais em relação às apresentações chilenas e argentinas os fãs brasileiros deverão ter os hits "Yellow", "Clocks", "Speed of the sound", "Trouble", mas não "Shiver", sucesso do álbum de estréia, "Parachutes". Uma ou outra faixa variou nos seis concertos. O pontapé inicial é dado com "Square one".

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E assim se acabará uma fase? É o que se aguarda dentro dos preparativos que se seguem para a gravação do quarto trabalho, que pode avançar mais um patamar de uma banda pouco acreditada em seu início. Hoje, ser mega está no horizonte. Com essa trajetória, talvez seja bom não apostar contra o Coldplay.