| Felipe Lima/Gazeta do Povo
| Foto: Felipe Lima/Gazeta do Povo

Ser orgulhoso é ruim, mas sentir orgulho é muito bom. É o que Dalva e eu sentimos sempre que vamos ao Museu Oscar Niemeyer, especialmente agora que tem três exposições inesquecíveis.

Das Vozes da Cidade, sobre os 50 anos do arqui-urbanismo mundial de Jaime Lerner, nos dá o orgulho de saber que sua obra começou em Curitiba e Londrina, cujo calçadão ele projetou.

A exposição Gênesis, de Sebastião Salgado, nos orgulha por ser brasileiros como esse super fotógrafo, diante de cujas fotos as palavras se calam.

E a exposição sobre João Turin consegue ser ao mesmo tempo carinhosa e estupenda, minimalista e monumental. Como Poty, Turin foi desses que entregou a vida à arte, mas faltava entregar sua arte ao mundo.

É o que faz a família Lago, reunindo suas esculturas, fundindo os moldes, publicando livro sobre sua imensa obra e intensa vida, e enfim encarregando Samuel Ferrari Lago de produzir uma exposição daquelas.

Só gente de pedra não se emociona ao passar pela réplica do humilde quarto-ateliê em que Turin vivia e criava suas esculturas e pinturas, sua arquitetura, seus desenhos e vitrais, com raízes paranistas, visão universal e estilo arrebatador. Começando a criar antes do Modernismo e durante décadas depois, não se rendeu aos facilitarismos modernistas, sempre fiel ao figurativismo e a seu povo. Turin é a florada artística das nossas raízes.

Deve ter sofrido o preconceito de ser visto como "ultrapassado" e "conservador", mas o que vemos em suas esculturas é a atualidade e permanência de toda obra genial, que supera escolas e épocas.

Qualquer caboclo entende e se emociona com as esculturas de Turin, e o crítico fica sem ter onde pegar para depreciar, pois sua competência técnica e sensibilidade fina estão sempre abraçadas com uma arquitetada rusticidade, uma rusturinidade que o faz único e moderno.

A carinhosa curadoria de José Roberto Teixeira Leite emociona com detalhes como as ferramentas de Turin enferrujadas e iluminadas feito preciosas relíquias; o catre onde o artista descansava os ossos depois do dia operário; seus objetos pessoais reveladores da orgulhosa simplicidade; seus escritos íntimos ampliados em telões a nos roçar a alma; os vestidosque desenhou, faceta estilosa de seu gênio múltiplo; e o vídeo sobre sua Pietá recuperada na França depois de meio século, milagrosa sobrevivente.

Talvez nenhum artista tenha dedicado mais olhares aos animais do que Turin: em bronze suas onças urram, caçam, brincam, amam, espreitam, meditam.

E quando deixamos o imenso salão de sua vida e sua obra e piscamos à claridade do dia, o coração bate com orgulho de ser humano, este animal que, graças a Deus, não consegue viver sem arte.

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