Não restauram o patrimônio histórico? Não restauraram o rosto da francesa comido pelo cachorro? Não restauram bairros inteiros? Não ameaçam até restaurar a moralidade nos poderes públicos? Então proponho restaurar o Carnaval.
O Carnaval das ruas decerto é irrestaurável. Uma vez, em Santo Antonio da Platina, vi um bloco de dois músicos, isto mesmo, dois músicos, que tocavam pandeiro e folhinha de árvore. O cara pegava uma folha de árvore, botava no bico dos lábios e soprava fazendo som de clarineta. E ia gente atrás, dançando. Eles paravam nos bares, ganhavam bebida e petiscos, tocando ali algumas músicas, iam em frente com seus seguidores fiéis. Ah, isso é irrestaurável.
Os corsos, com os carros desfilando enfeitados, cheios de gente fantasiada, a lançar serpentinas e punhados de confete, cantando peródias de músicas, o corso também é irrestaurável.
O Bloco do Pirulito também é irrestaurável. Começou na sauna, quando na sexta-feira véspera do Carnaval o Carlos Barbosa me contou que, quando morava em São Paulo, um dia estava na padaria tomando café para ir ao trabalho, ouviu uma voz grossa atrás pedindo uma cerveja tão cedinho. Olhou, era um cidadão ainda vestido de mulher na quinta-feira de Carnaval. Então tivemos a idéia de sair naquela noite mesmo vestidos de mulher, e ali já recebemos duas adesões, do Nelson e do Joel, e lá fomos nos vestindo de casa em casa, acabando por ir para as ruas à meia-noite, quando já não havia ninguém para apreciar nosso bloco.
Mas no dia seguinte voltamos, já em oito. Naquele ano, encerramos o carnaval com vinte no bloco, que percorria o clubes cantando e dançando feito uns doidos, mas restauremos a palavra certa para isso: foliões. Quatro anos depois, éramos quarenta, a maioria barbudos, até participando do desfile de escolas de samba lodrinenses. Éramos, aliás, os únicos a desfilar várias vezes, indo e voltando pela avenida. Depois de alguns anos, o bloco foi michando, o Apolo Theodoro chegou a sair sozinho um ano, aí acabou. E também é irrestaurável.
Mas podemos restaurar os bailes de carnaval de antigamente, tão deliciosos, a gente rodando pelo salão ao som dos ranchos e marchinhas, Chiquita Bacana, Máscara Negra, as maravilhas do repertório carnavalesco que foram trocadas por axés manés, funks porcos e até tecnojeiras.
Começaremos reunindo digamos 50 foliões, fazendo uma vaquinha de 50 reais por mês desde junho. Em janeiro já teremos mais de R$ 17 mil, suficientes para alugar salão e pagar a banda, já contratada de antemão, até para ensaiar o repertório escolhido. Cinquenta músicas, não é preciso mais. Um pistom, um teclado, um baixo, bateria e dois ou três percussionistas, pronto.
Cada folião receberá ingressos para, digamos, três mesas, uma dúzia de pessoas. E, em mutirão, dias antes decoraremos o salão. Ao baile levaremos os filhos, esses que ouvem no Ipod a parada de sucessos de Londres, mas não sabem que, entre tanto riso, tanta alegria, arlequim está chorando pelo amor da colombina no meio da multidão. Levaremos os netos, para aprenderem a sambar no pé desde criancinha. Levaremos os avós, pois a terceira idade não está cheia de gás?
Sim, um baile de carnaval é perfeitamente restaurável, com todo seu etecétera.
Faremos concurso de fantasias, de foliões mais animados e de blocos mais animado e mais original.
Teremos uma comissão de bêbados responsáveis, coisa só possível em baile de Carnaval que se preza, para ir de mesa arrebanhando para o salão os tímidos ou emburrados.
Teremos um bar com bebidas e salgados a preços razoáveis, tocado por uma entidade beneficente, de modo a podermos dizer depois que no Carnaval fizemos trabalho social.
Teremos sopa de mandioca com costelinha defumada, para tomar em copos de plástico na rua depois do baile, vendo o dia nascente, com blocos ainda cantando roucos e namorados recentes a se beijar como se o mundo fosse acabar.
Torceremos as roupas molhadas de suor e iremos para casa a pé, cantando e saudando as pessoas normais pelas ruas do cotidiano visto de fora.
Dormiremos com o som do bumbo ressoando na cabeça, para acordar restaurados depois da maior catarse já inventada no planeta, prontos para todo um novo ano até nosso próximo baile de Carnaval.
É, não precisam ser quatro. Pode ser um baile só, mas pleno, mágico e inesquecível.
É perfeitamente restaurável, e eu já fiz minha parte bolando o plano. Agora metam mãos à obra e me chamem. Vou de odalisca.
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