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José Castello

Elfriede e o desejo

  • Porjosegcastello@gmail.com
  • 14/09/2013 21:04
Romance - Desejo - Elfriede Jelinek. Tradução de Marcelo Rondinelli. Tordesilhas, 240 págs., R$ 45 |
Romance - Desejo - Elfriede Jelinek. Tradução de Marcelo Rondinelli. Tordesilhas, 240 págs., R$ 45| Foto:

Contaram-me uma história, vivida por supostos personagens cujos nomes aqui omito, não só porque não me pertencem, mas porque a verdade é que os esqueci. Uma história que fica melhor anônima, pelo que contém de violência contra si. Não sei se é verdadeira, quem me contou pode simplesmente a ter inventado por alguma razão vingativa, ou cruel. Não importa: interessa que, verdade ou lenda, ela fala, fala, de modo exemplar, dos tempos em que vivemos.

Certo autor brasileiro jovem, de carreira literária ascendente, teve um de seus romances traduzidos nos Estados Unidos. Semanas depois, a pessoa que me relatou a história esteve, por coincidência, em Nova York, esbarrou com a tradução em uma livraria, e, por curiosidade, e também por amizade, a comprou. Como não tinha o que ler durante o voo de volta, resolveu a ela se dedicar, mesmo já tendo lido o livro em sua versão original. Tomou um choque: parágrafos inteiros foram arrancados, outros inteiramente transformados, diálogos inexistentes acrescidos, enfim — o estilo de seu amigo, submetido à velha arte da traição, fora mastigado pelo "estilo internacional".

Chegando ao Brasil, procurou o autor do romance. "Você viu o que fizeram com seu livro?" O amigo escritor não se alterou e respondeu algo assim: "Você fala das modificações? Ora, para ser traduzido nos EUA hoje é preciso aceitá-las, e então eu aceitei". Talvez o fato nem tenha se passado em território americano, mas europeu. Talvez seja uma simples fantasia da pessoa que me contou. Um delírio? Nada disso importa: interessa, sim, o quanto a história, verdadeira ou falsa, está encharcada de verdade. Importa como ela espelha uma situação de nosso tempo e de nossa cultura.

A nova geração brasileira de escritores produziu excelentes nomes. Vou, para ser discreto, citar nomes de uma geração anterior: qual literatura não se orgulha de ostentar escritores como Michel Laub, Bernardo Carvalho e Rubens Figueiredo? Contudo, a geração seguinte começou a escrever em um momento de grande expansão não só do mercado brasileiro, mas também do mercado internacional. Ótimo: quem pode ser contra isso? Mas há sempre alguma sombra despejada pelas coisas mais belas. Muitos escritores jovens — não todos felizmente! — passaram a escrever com os olhos no mercado. Para galgar listas de mais vendidos, para conseguir traduções rápidas, para ganhar prêmios de prestígio. Isso, na maior parte das vezes, como se sabe, quase nunca funciona. Mas é o que fazem.

Aí estou eu, aqui no meu canto, lendo Desejo, da escritora austríaca Elfriede Jelinek — uma mulher que já passou de seus 65 anos e que, em 2004, ganhou o Nobel de Literatura. Não conheço o alemão, então não posso avaliar o rigor da tradução de Marcelo Rondinelli. Posso afirmar, ainda assim, que o resultado é esplêndido. Leio o romance e, no avançar das páginas, me vem uma ideia simples: Elfriede é uma escritora que, em definitivo, não escreve para o mercado. Não aceitaria alterações em seu texto, ainda que propostas pelos melhores editores e tradutores. É fiel ao estilo rascante, enroscado, e ao amor obsessivo pela linguagem. Eis uma escritora que devia ser leitura obrigatória para os jovens escritores de todo o mundo: Elfriede Jelinek. Não há melhor palavra para defini-la: intransigência.

Todo escritor (todo artista) deve ser intransigente e levar às últimas consequências os resultados de sua linguagem. Se ele é bom, se é ruim; se é vendável ou invendável; se é "internacional" ou "regional" — nada disso deve importar. Já pensaram o que aconteceria se Guimarães Rosa resolvesse internacionalizar suas narrativas? Se passasse pela cabeça de Clarice Lispector a ideia insana de padronizar seus escritos? Se José Saramago resolve pontuar à maneira clássica, e tornar mais "digestivos" seus alucinados diálogos? Seria o desastre. Seria a morte da literatura. E é da morte da literatura que se trata aqui.

A personagem principal de Elfriede, a infeliz Gerti, torna-se exemplar. Submete-se aos desejos sexuais do marido Hermann, portador de uma doença sexualmente transmissível. Apaixona-se por um jovem, Michael, que só se interessa em subjugá-la. Seu pobre filho, ainda criança, se deixa fascinar pela mente perversa do pai. Gerti está cercada de senhores — está escravizada. Que vantagens tira disso? Uma coisa certamente se põe em risco: o contato com seu desejo. E é o contato com o desejo que está em jogo no que estou falando.

Em momento avançado de Desejo, assim se descreve a tragédia de Gerti: "Ela se encontra consigo onde quer e ao mesmo tempo foge de si, porque pode haver em algum outro lugar um encontro mais esplêndido com seu íntimo, onde a pessoa possa ficar sentada nas nuvens e desejar dentro de si ainda mais de suas sentimentalidades. Ela é tão fugaz quanto uma ligação que a qualquer momento acabará por se dissolver". É frágil o desejo — ele facilmente nos escapa se, sem levar muito a sério, começamos a ceder aqui e ali. Mas ele é também tudo o que temos — e é com ele que os escritores escrevem.

Diante de uma montanha, Gerti se espanta com a dificuldade de chegar a este lugar que chamamos de desejo. Ponto de intransigência e de resistência — de transformação e criação. "A mulher nota que falta a ela um ponto fixo, um ponto de parada onde sua vida possa esperar". Se o que sairá desse ponto será extraordinário, ou assustador, ninguém pode prever. Mas foi sem dúvida agarrada a esse suporte que Elfriede Jelinek escreveu seu romance. É para experimentar o contato com esse ponto fatal — no qual uma vida se decide, ou se perde — que devemos lê-lo.

Meu amigo, o escritor Ronaldo Correa de Brito, com quem costumo dividir minhas aflições, me lembra da história de Lao Tsé, o grande pensador oriental, que viveu até os 80 anos de idade recolhido em uma floresta para escrever o Tao Te King, livro que é uma dos pilares do pensamento chinês. Ao fim, em vez de procurar alguém que o vendesse, entregou-o a um guarda qualquer de fronteira, sem nada falar sobre o livro, sem nada recomendar. Passaram-se vinte e dois séculos e, maravilhados, ainda lemos o Tao.

Elfried Jelinek é uma escritora que devia ser leitura obrigatória para os jovens escritores de todo o mundo.

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