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Os leitores, salvo alguns privilegiados, não saberão o que foi a casa Kieckbush e nem onde ela ficava. Não sabem como cheirava a queijos, presuntos, lingüiças, azeitonas, café moído na hora. Como tinha prateleiras enormes cobertas com produtos miraculosos em embalagens irresistíveis. Como era alto o balcão envidraçado para meus seis anos de idade e como tudo era misterioso lá dentro, com mercadorias e mostruários e caixas empilhadas fatiando os raios de sol que vinham da rua.

Mas o leitor lembrará de um equivalente, que terá outro nome. Para mim, no entanto, todas as casas de secos e molhados deveriam ter uma placa na entrada: Casa Kieckbush. Um sinônimo universal. Assim como toalhas deveriam se chamar artex e, cristais, hering. E revelar fotografias, baungarten. Um dicionário afetivo e único, fabricado pela memória.

Estas associações malucas me vieram à lembrança por conta do e-mail de um leitor, Heino Uwe Schmider – com este nome, só podia ser de Blumenau, convenhamos – me dando notícia de que a Casa Kieckbush havia fechado. Em anexo, uma página de jornal com a reportagem sobre o desfecho. O Heino me escreveu em outubro passado e a casa fechara no dia 30 de setembro. Soubesse antes, teria ido a Blumenau para uma última visita àquela casa de secos e molhados que para mim está ligada a tantas coisas boas. E a uma coisa ruim. Já explico.

O que havia de bom era aquilo que se podia comprar na Kieckbush. Eu ficava na ponta dos pés e meu nariz mal alcançava o balcão. Era atendido por sólidos alemães que me pareciam gigantescos. Fundada em 1932, e tendo resistido por 74 anos, a casa ficou na minha memória na esquina das ruas XV e Alameda Rio Branco. É onde ficará para sempre. Mas, além das balas, biscoitos, bolachas, a lembrança mais viva é o café Moka moído na hora numa maquinona imensa e barulhenta. Eu voltava para casa com o pacotinho verde de café, quentinho e cheiroso, mal podendo esperar minha mãe passá-lo em coador de pano, o que liberava um perfume delicioso pela casa, que sinto até hoje. Era o café. Jamais haverá um café como aquele.

Morávamos a umas sete quadras da Kieckbush. Sempre ocupado com fantasias e meio pateta – não é de estranhar que hoje ande escrevendo – lá ia eu, com meus seis anos, comprar meio quilo de café, 250 gramas de açúcar, uma lingüiça, fiambre, manteiga, banha, salsicha, arroz, feijão. Sete quadras depois, quando colocava o pé na pequena escada que dava acesso à loja, descobria que esquecera o que viera comprar. Voltava sete quadras. Minha mãe repetia a lista e eu, como se rezasse, os olhos quase fechados, vinha recitando cada item para não me distrair com pedrinhas, passarinhos, tampas de garrafa ou dezenas de formigas caminhando muito ocupadas à beira da calçada.

A lembrança má vem de 1951. Meu tio Otávio me deu de presente – eu ia ingressar no primeiro ano primário – uma caneta Parker 51. A glória, a mais desejada das canetas. Tampa folheada a ouro, reluzente, corpo de um azul profundo. E aquela pena minúscula, misteriosa, com a qual eu podia rabiscar qualquer pedaço de papel que me caísse nas mãos.

Tendo recebido o presente num dia, fui à Casa Kieckbush no dia seguinte fazer umas compras e levei a Parker 51 comigo. Não lembro o que fiz pelo caminho, mas devo ter parado várias vezes, me distraído com aquela enorme variedade de coisas interessantes que havia no mundo naquela época. Quando coloquei o pé na escada, pensei em exibir a Parker a quem me atendesse. Procurei-a no bolso. Havia sumido.

Foi um sofrimento insuperável. Refiz o caminho dezenas de vezes e, já noite, eu e minha mãe ainda vasculhávamos calçadas, meio fio, canteiros de flores, grama. Nada. Estava perdida. Eu chorava de ódio, inconsolável.

Agora, o leitor Heino Uwe Schmider me vem com esta. Além de minha caneta, perdi também o meu armazém de secos e molhados. Já não há mais café moído na hora, lingüiça Blumenau dependurada em sarrafo, alemães gigantescos por detrás do balcão, balas de hortelã.

Há uns dois anos, minha mulher, Iria, de tanto ouvir o relato desta perda irreparável, me deu uma Parker 51, comprada num anti-quário. Fantasio que é a mesma que perdi. Está aqui comigo, pronta para qualquer rabisco. Curei uma dor antiga.

Quanto à casa Kieckbush, ficará para sempre numa cidade que só existe em minha cabeça, numa esquina que inventei, bastando subir três ou quatro degraus, espécie de paraíso no qual todos os cheiros e sabores estão a minha espera. Memória é assim. Intransferível. Para sempre. Só eu e o Heino sabemos, cada um a seu modo, o quanto dói e o quanto faz bem.

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