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Wil­son Mar­tins

O Livro Nacional (I)

Concordando com o general Mitre, Joaquim Na­­bu­co pensava que, como a literatura hispano-americana, a nossa ainda não havia produzido o seu livro nacional. É possível que, como a francesa, e mais do que a francesa, a literatura brasileira, para lembrar uma distinção conhecida, seja o contrário de uma literatura "monântica", isto é, não pode ser representada exclusivamente por um único escritor ou uma obra única: contudo, e por singularidade, um dos nossos livros "nacionais" mais indiscutíveis estava sendo obscuramente elaborado no instante mesmo em que Nabuco falava, e seria, gerado pelo trauma profundo de Canudos, o de Euclides da Cunha (Revista Bra­sileira, fase VII; abril-maio-junho, 2009, ano XV. n. 19).

Não é temerário supor que ele haja encontrado a sua tese em outra Revista Brasileira, a de novembro de 1897, formulada por antecipação no artigo de Nina Rodrigues "A loucura epidêmica de Canudos", mais tarde incluído no volume As Cole­ti­vi­dades Anormais. O cientista baiano, como se sabe, encarava a "psicose progressiva" de Antônio Conselheiro como um reflexo das "condições sociológicas do meio em que se organizou, e os acontecimentos de Canudos como um exemplo típico de epidemia vesânica. O "monarquismo" de Antônio Conselheiro e seus jagunços era apenas o sentimento político correspondente à idade mental e sociológica das populações sertanejas. A população sertaneja, escreveu, "é e será monarquista por muito tempo, porque no estádio inferior da evolução social em que se acha, falece-lhe a precisa capacidade mental para compreender e aceitar a substituição do representante concreto do poder pela abstração que ele encarna – pela lei. Ele carece instintivamente de um rei, de um chefe, de um homem que a dirija, que a conduza, e por muito tempo ainda o Presidente da República, os presidentes dos estados, os chefes políticos locais serão o seu rei, como, na sua inferioridade religiosa, o sacerdote e as imagens continuam a ser os seus deuses. Serão monarquistas como são fetichistas, menos por ignorância, do que por um desenvolvimento intelectual, ético e religioso, insuficiente ou incompleto".

Mas, como se diz, é preciso "situar Euclides da Cunha no seu tempo": do ponto de vista estilístico e ideológico, há uma linha sensível de unidade entre o ano intelectual de 1888 e o de 1912: as histórias literárias falam-nos de Parnasianismo e de Naturalismo, de impressionismo, como se fossem princípios antagônicos e irreconciliáveis; ora, é fácil perceber que, do Parnasianismo de Olavo Bilac à "escrita artista" de Raul Pompéia vai apenas um passo, já que ambos se deixavam conduzir pelo princípio implícito da correção linguística e da expressividade; outro passo natural, se não inevitável, conduz da "escrita artista" ao estilo de caracteres barrocos, isto é, a Rui Barbosa, a Coelho Neto, a Euclides da Cu­­nha. Estes, por sua vez, remetem, num movimento de retorno, aos mesmos postulados de correção linguística e de riqueza vocabular que identificavam os primeiros; assim, geralmente ignorado pelos historiadores e críticos quando sucumbem à concepção linear e sucessiva dos movimentos literários, há um contínuo jogo de lançadeiras dentro desse bloco estilístico. Quando louvamos a natureza escultórica do estilo de Euclides da Cunha (lugar-comum da literatura crítica), o que fazemos é aproximá-lo de Olavo Bilac. com quem, à primeira vista, nada terá de comum; e quando menosprezamos Rui Barbosa e Coelho Neto, parecemos não perceber a contradição que isso representa com os louvores jamais denegados ao estilo de Euclides da Cunha.

Junte-se a isso, pelo menos no que se refere a Euclides da Cunha, a Raul Pompéia, a Sílvio Romero, a Graça Aranha e a Augusto dos Anjos o "cientificismo" característico desses finais do século 20. Mesmo a correção linguística, com a sua superabundância barroca, e o nacionalismo, com os seus aspectos mais limitativos ou empobrecedores, eram manifestações indiretas do espírito científico. Tal cientificismo tem despertado, igualmente, algumas críticas fáceis, pois nos recusamos a compreender que, onde vemos, com prazer de alguma forma farisaico, o cientificismo, estava, na verdade, a ciência da época. Como observava Sérgio Milliet, com grande compreensão: "Euclides da Cunha teve a serviço de sua observação aguda quase todos os conhecimentos da sua época. Foi ainda um precursor desses estudos entre nós. (...) Suas teses continuam em debate, e esse é o maior elogio que lhe pode ser feito do ponto de vista sociológico, o que já não é pouco pois o valor de uma obra de ciência se mede mais pela fecundidade de sua sugestões que pelo dogmatismo de sua certezas".

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