Na última quinzena de julho, houve uma coincidência inesperada e incalculável entre o auge das manifestações que irromperam no país e a campanha ascendente da seleção na Copa das Confederações.
Por um lado, a ideia de que o futebol distrai a atenção popular dos problemas maiores ficou esvaziada. Por outro, mesmo que instada a fazê-lo por algumas vozes, a maioria das pessoas soube separar a seleção do campo, da CBF, Fifa e governos.
Entre as milhares de tantas faixas das passeatas, uma chamou a atenção do sociólogo e boleiro Mauricio Murad. Ela dizia: "Não é contra a seleção, mas contra a corrupção".
"De fato seria um equívoco identificar a seleção com os desmandos oficiais, com as promessas traídas e não realizadas pelos governos, com a mentira e a hipocrisia dos números em detrimento da qualidade, de um real e verdadeiro desenvolvimento social", disse. Em entrevista à Gazeta do Povo, Murad analisa a a relação entre futebol e política.
Achar que a seleção brasileira poderia distrair a atenção de problemas estruturais da república ou eleger a seleção como representante das mazelas oficiais são faces do mesmo equívoco?
Sim. Nem o futebol é o ópio do povo, nem é o responsável pelas falcatruas dos governos. Futebol é cultura coletiva, simbologia e representação popular. Historicamente, foi conquistado pela população e se tornou o maior fenômeno de nossa cultura das multidões, de nossa cultura de massas. E mais: além de cultura de massas, futebol também é cultura das massas. É usado, sempre que possível, pelos poderosos, sim, mas este não é um "pecado" do futebol, mas do uso político que se faz dele. Os poderosos sempre tentam usar politicamente qualquer evento que já tenha alcançado a alma popular. Hitler e o nazismo usaram a música erudita de Wagner e Wagner já havia morrido há 50 anos, quando o Partido Nazista chegou ao poder na Alemanha, em 1933.
Os protestos devem ser retomados durante a Copa no ano que vem. Como o país anfitrião deve se preparar para isso?
Acho que a vitória em campo poderá dar uma trégua nas manifestações, até porque a Copa das Confederações já acabou. Entretanto, o que irá acontecer daqui pra frente, nesse próximo ano até a Copa do Mundo e mesmo durante o próprio Mundial de Futebol, isso somente o tempo dirá e, principalmente, dependerá dos sentidos e direções que as coisas ganharem no Brasil. Dependendo do que e de como acontecer, poderá ou acalmar os ânimos da revolta popular ou acentuar as condições de seu retorno e, neste caso, creio, com mais força, maior participação e vitalidade.
A vaia que a presidenta Dilma levou na abertura da Copa das Confederações em Salvador mostra que o uso político do futebol é um erro ou é o povo que vaia mesmo até o minuto de silêncio?
A estrondosa vaia em Salvador e a cara da presidenta Dilma mostram que o "feitiço virou contra o feiticeiro". O governo que iria explorar politicamente o futebol, repetindo exatamente aquilo que os outros governos democráticos ou ditatoriais fizeram, e que o PT tanto criticava. O governo, na pessoa da presidenta, teve que se calar. Não significa que o futebol nunca mais será usado pelos governantes, não, claro que não, mas que foi uma dura e gloriosa lição, foi. Uma lição para aqueles que fazem no poder o mesmo que criticavam na oposição. Uma lição, portanto, de ética e civismo.
Como o senhor acha que a imposição do tal "padrão Fifa" vai ser aceita pelo torcedor de futebol brasileiro? Como o senhor olha para este "novo momento" do futebol brasileiro?
Terá que haver uma mudança de cultura do futebol e dos torcedores de futebol. Não se muda uma realidade já consolidada, por decreto, por acordos de cúpula. Enganam-se aqueles que pensam que futebol é só um jogo de futebol. Futebol é muito mais do que isso, é cultura, simbologia, história, representação coletiva. Expressa nossos modos de ser e de se comportar, nossas contradições e dilemas, nossas perspectivas e dificuldades. Que tal se os nossos governantes, depois das ruas e janelas terem mostrado que a política dos conchavos e negociatas de gabinete foi literalmente rechaçada, investissem mais em educação, cultura e cidadania? Não é favor, é obrigação constitucional e ética. Mas, infelizmente, ainda estamos longe disso. Contudo, as manifestações vieram pra provar que só a pressão coletiva poderá melhorar o nosso país, em direção de uma sociedade mais honesta, verdadeira e digna.
A violência que explodiu nas manifestações uma minoria de vândalos contra uma polícia despreparada é muito parecida com a que se vê nas brigas de torcida organizada nos estádios há muitos anos. São os mesmos atores e mesmos erros nas duas frentes?
As práticas de violência entre as torcidas organizadas, que já levaram a 8 mortes comprovadas (!), somente em 2013, até o final do mês de junho, são agressões e ilícitos praticados por uma minoria de vândalos, que não representam a imensa maioria pacífica das torcidas organizadas. Isto também aconteceu nas manifestações. Uma imensa maioria pacífica viu seu movimento ser infiltrado por grupos extremamente minoritários de vândalos e agressores. Não são exatamente os mesmos grupos, numa e noutra situação, embora, sim, alguns desses segmentos podem ser encontrados nas torcidas organizadas e nas manifestações. Também numa e noutra situação, a polícia provou seu total despreparo para lidar com multidões, para separar os pacíficos dos efetivamente violentos. As forças policiais só sabem reprimir e de forma indiscriminada e até covarde. Não há plano de segurança pública consistente nem para o futebol, nem para nenhum outro tipo de ajuntamento de massas, como da mesma forma não há um plano consistente de transporte coletivo (uma das reivindicações principais dos manifestantes), em quase 97% das cidades brasileiras, como ainda não há um plano estratégico de saúde, educação, saneamento e mobilidade urbana, de uma maneira geral. O Brasil precisa superar a hipocrisia dos números do discurso oficial e dar conteúdo, essência ao nosso tão propalado (oficialmente) desenvolvimento. É preciso sair do crescimento econômico e alcançar verdadeiramente o desenvolvimento social, com a tão desejada igualdade de oportunidades, efetiva distribuição de renda e ampliação dos modos de participação nas decisões de governo, que acabam atingindo toda a vida do país e a todos os cidadãos e cidadãs.



