Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Copa

O "ópio do povo no tempo dos militares"

Os protestos contra os gastos com a Copa do Mundo de 2014 fazem lembrar o tempo em que o futebol era usado no Brasil e em outros países da América Latina para manter os regimes militares.

Em 1970, o general Emílio Garrastazu Médici, que governou de 1969 a 1974, foi o maior beneficiado pela conquista do tricampeonato mundial pela seleção brasileira. O interesse do regime na Copa era tanto que o governo chegou a interferir até na escalação da equipe. O técnico João Saldanha teria sido substituído por Zagalo porque gozava de pouca simpatia dos militares. Saldanha revelou, anos depois, que não concordou em escalar jogadores sugeridos por Médici. "O senhor manda nos ministérios, no governo, mas na seleção quem manda sou eu", teria dito Saldanha a Médici.

A vitória do Brasil sobre a Itália na final, por 4 a 1, no México, foi tudo o que o regime precisava. Os brasileiros eram embalados pelo refrão "Ninguém segura este país", enquanto a repressão contra os opositores aumentava, a violência ganhava proporções monstruosas.

Muitos que estão protestando nas ruas hoje devem conhecer a balada "Pra Frente Brasil". A música transformou-se em hino dos militares.

O futebol era algo intocável: qualquer um que criticasse o esporte nacional era classificado de antipatriota. Em nome do futebol tudo era aceito.

Oito anos depois da Copa de 1970 foi a vez de os militares da Argentina fazerem a festa com a conquista do futebol. Os argentinos viviam situações distintas: a repressão de uma cruel ditadura militar e o êxtase por sediar o Mundial de 1978. No comando do país estava o general Rafael Videla, líder de um governo responsável pela morte de mais de 30 mil pessoas. A Argentina venceu a Copa e Videla, que usou a competição para encobrir as atrocidades do regime, entregou a taça aos campeões, uma imagem que entristece para sempre o futebol.

Depois de quase 30 anos do fim do regime militar no Brasil, muitos políticos ainda hoje pensam em usar o futebol para se promover. Mas se alguém acreditava que a Copa de 2014, em ano de eleição, seria uma grande chance para encobrir as mazelas do país, o tiro pode ter saído pela culatra.

Prometeram que tudo seria feito sem gastos públicos, que não haveria corrupção, superfaturamento e outros males. E o que ocorreu? Boa parte do dinheiro da população, que deveria ir para setores indispensáveis, como escolas, hospitais, transporte e moradia, foi parar no esgoto.

A população parece que acordou. Saiu às ruas contra o "ópio do povo", como as esquerdas chamavam o futebol na época. A Seleção, paixão de muitos, não tem nada com isso. Os governantes, sim.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.