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Não é à toa que as atrizes Débora Falabella e Yara de Novaes venceram o prêmio de melhor atriz da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

O entrosamento da dupla na peça "Contrações", encenada na noite de sexta-feira (28) no Teatro Bom Jesus, parte da programação do Festival de Curitiba, é hipnotizante.

O texto da tragicomédia, do jovem autor britânico Mike Bartlett, é um retrato perfeito de uma situação contemporânea incômoda, porém recorrente: as práticas abusivas do mundo corporativo, onde o que interessa é a produtividade, e nada mais. Atingir metas, sorrir sempre, acenar positivamente e não dar problema. Essa é a chave para ser um funcionário ideal, que nunca se descontrola e esconde seus reais sentimentos.

Na história, Débora vive Ema, funcionária de uma grande empresa que, a princípio, tem um comportamento padrão. Questionada pela gerente, vivida por Yara, ela assina um contrato de trabalho em que precisa informar, obrigatoriamente, se começar um relacionamento "romântico e sexual" com algum parceiro de trabalho.

Ema é questionada de forma recorrente e exaustiva, até admitir que começou a se relacionar com um de seus colegas. Sabendo disso, a gerente exige que ela informe todos os detalhes dos seus encontros com o colega.

Essa situação deflagra a trágica trajetória da personagem, e expõe as práticas abusivas do trabalho, em que os gerentes de recursos humanos mal sabem da vida de seus funcionários, mas os pressionam tanto a atingir resultados que os empregados, por sua vez, topam alterar suas rotinas, mesmo que de forma inconsciente. Tudo em prol da produtividade.

Mesmo com as regras esdrúxulas, que vão contra suas vontades e sua ética, Ema acaba cedendo. Afinal, ordem é ordem. E funcionário obedece.

ClimaO cenário é um elemento importante e que ajuda na reflexão sobre como o trabalho acontece hoje, geralmente em escritórios fechados com ar-condicionado no talo. A gerente sempre está com um casaco mais pesado na mão para se proteger do frio, e vive resfriada e com lenços na mão. A sensação é que as personagens estão aprisionadas.

Mais do que uma profunda reflexão sobre as relações de trabalho, "Contrações" também gera questionamentos sobre outros tipos de relacionamentos, e faz pensar sobre o quanto o sistema que prioriza o capital e o dinheiro influencia nas nossas decisões pessoais, e de vida.

"Contrações" será encenada novamente neste sábado (29), mas os ingressos estão esgotados.

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