Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Artigo

Da sala grande à tela reduzida dos notebooks

Em Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci a Cinemateca de Paris é palco de protestos em 1968 | Divulgação
Em Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci a Cinemateca de Paris é palco de protestos em 1968 (Foto: Divulgação)

Há um momento do filme Os Sonhadores ( 2003) em que o jovem norte-americano Mathew (Michael Pitt) narra seu espanto pela devoção dos franceses ao cinema. "Só em Paris poderia existir uma cinemateca dentro de um palácio", refere-se ele à beleza do prédio da Cinemateca da capital francesa, que na trama dirigida por Bernardo Bertolucci vive o turbulento ano de 1968.

Era a época em que Henri Langlois programava sessões de filmes americanos de todos os gêneros: noir, B, western, terror, dando continuidade a um dos mais criativos e bem sucedidos projetos de formação cinematográfica da história: aquele que, cerca de uma década antes, definitivamente consolidou a cultura da cinefilia entre uma geração de jovens franceses que viria a mudar o panorama da história do Cinema. Ainda moleques, Truffaut e Godard (só para ficar nos dois nomes mais conhecidos da geração Nouvelle Vague) eram jovens críticos e sob a tutela de Langlois foram iniciados na redescoberta do cinema norte-americano.

Fascinados com o talento de diretores como Samuel Fuller, Nicolas Ray e mesmo um então mero diretor de filmes de suspense, Alfred Hitchcok, os jovens bebiam, comiam e respiravam cinema nas sessões da cinemateca, ainda exercendo o ofício de críticos em revistas e jornais.

Nascia, ou melhor, cristalizava-se ali, em pleno pós-Guerra, o tal espírito cinéfilo, que o filme de Bertolucci resgata dez anos depois, já fundindo a paixão pelo cinema aos protestos estudantis dos fim da década de 60. Mathew (Michael Pitt), o jovem que na fita se envolve com outros dois irmãos cinéfilos parisienses, descreve as sessões na cinemateca como se elas fossem parte de um culto secreto e seus frequentadores parte de uma seita devotada ao sagrado amor pelos filmes.

O fato é que o espírito cinéfilo – aquele do fetiche pela sala escura e da luz que "sai do tamanho de um selo do projetor e chega enorme à tela", como lembra o personagem em Os Sonhadores – passou por profundas alterações nas últimas décadas. Já na metade dos anos 70, os grandes templos de exibição de filmes se dividem em duas ou mais salas, passam a exibir títulos eróticos e depois pornográficos, ou então simplesmente fecham para se transformarem em estacionamentos, depósitos, lojas, bingos ou, mais recentemente, igrejas evangélicas – não deixam assim de cumprir sua função de templos.

Diversos fatores contribuíram para essa situação: o elevado custo dos aluguéis nos centros urbanos, a queda violenta do público diante da sedução dos primeiros aparelhos de tevê em cores vendidos no crediário, a chegada do videocassete, o encerramento de salas em bairros (situação que afetou de forma muito similar todos os grandes centros urbanos, incluindo aí Curitiba).

O renascimento do circuito exibidor acontece associado a novos templos, estes voltados para o consumo, a partir da década de 90: os shoppings centers, que passam a abrigar grandes cadeias exibidoras multinacionais. Ver um filme se torna parte de um programa proibitivo para quem não tem carro e que inclui fazer compras e comer um big Mac.

Seria pessimista e saudosista restringir a relação do público com o cinema, apenas levando em conta o circuito de salas exibidoras. A programação da televisão já estava alterando a forma como se assiste a um filme, desde a década de 70: dublado, com intervalos comerciais, eventualmente com cortes e em uma tela menor, no conforto do lar.

Mas a grande revolução na recepção aconteceu e ainda ocorre com a Internet. Foi na rede mundial de computadores que o espírito cinéfilo renasceu com força e entusiasmo comparável ao dos jovens dos anos 60. Com muita reclamação e batalhas judiciais arrastadas promovidas pelas companhias distribuidoras, não se pode ignorar o fato de que atualmente uma grande parcela do público, sobretudo os jovens, opta por consumir filmes na tela de seu computador ou notobooks.

Praticamente todo e qualquer filme – do lançamento mais badalado ao título raríssimo de Ozu ou Candeias – circula livremente pela rede. Se a questão envolve desrespeito aos direitos autorais ou crime, não é o caso de discutir neste espaço. Além da livre troca de raridades que jamais chegariam às locadoras ou seriam exibidas em tevê aberta ou mesmo assinatura, os cinéfilos do século 21 sem manifestam livremente em redes sociais e em blogs pessoais. É difícil explicar, neste contexto, por que o filme vencedor do Festival de Cannes em 2010, Tio Boonmee Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, de um dos mais celebrados autores do cinema contemporâneo, o tailandês Apichatpong Weerasethakul, ainda não foi exibido em Curitiba e não tem previsão de estreia.

Com os recursos de imagem e som da web, trechos de filmes são partilhados seguidos de comentários, críticas, numa livre e ágil troca de conhecimento e paixão que supera o ideal dos jovens turcos franceses. Sem contar a crítica, que na rede encontrou seu espaço, cada vez menor nos veículos impressos, em sites como Contracampo, Críticos, Cinética, Paisà e nos blogs pessoais de críticos consagrados.

Pode-se alegar que a experiência de assistir a um filme na tela de um laptop, ou PC, IPad e até na minúscula tela do celular é incomparável ao fascínio da sala grande, escura, onde a emoção é dividida por muitos simultaneamente. Mas é nessa transformação do coletivo em individual, do público para o privado, que o cinema acabou encontrando seu caminho de resistência e mantendo vivo o amor pelos filmes e por tudo aquilo que eles criam de grandioso sobre a vida.

* Fábio Francener Pinheiro é mestre em Cinema pela Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP e professor do bacharelado em Cinema e Vídeo da Faculdade de Artes do Paraná (PAP)/Cinetv PR

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.