Waldick Garrett completa 19 anos na Polícia Militar em março do ano que vem. O capitãoé subchefe da assessoria militar da Secretaria de Segurança Pública| Foto: Aniele Nascimento/Gazeta do Povo

Trecho de A Sete Palmos, de Waldick Garrett

"Havia um sutil e inebriante odor de fumaça pairando no quarto parcialmente escuro... e mesmo sem enxergar, sabia tratar-se de velas espalhadas pelo cômodo com seus pavios fumegantes, recém-apagados...

A intensa e quase surreal luz prata agora se enfraquecia no quarto. Conservava-me ali, sentado sobre a cama, uma esguia silhueta, olhos distantes, mãos sobre a cabeça pendida, os pulsos ensanguentados. Por vezes murmurava frases desconexas, um filete de saliva alongava-se da boca em direção ao piso em madeira rústica. Abaixo, várias manchas avermelhadas e irregulares manchavam o assoalho, penetravam pelas grossas frestas e cintilavam, de forma quase translúcida, os contornos da enorme janela lateral... sua superfície quase negra, densa e tétrica. Havia também pedaços disformes de espelho espalhados pelo assoalho. As cortinas, majestosamente presas, horrivelmente conspurcadas pelo vermelho intenso da morte."

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É em um quarto iluminado apenas por velas brancas que ele lê. Cerca de uma hora por dia, alternando entre Stephen King, Ste­­phen Baker e Arthur Conan Doyle. O bruxulear das chamas está de acordo com o conteúdo dos livros, todos ligados ao gênero do suspense ou do terror, permeados por personagens sobrenaturais. É com The Cure, U2 e The Smiths nos ouvidos que ele escreve. A música que se repete funciona com impulso para sua segunda profissão, que por sua vez é válvula de escape para esquecer as mazelas da primeira.

Waldick Garrett completa 19 anos na Polícia Militar em março do ano que vem. O capitão, subchefe da assessoria militar da Secretaria de Segurança Pública, é também escritor. Seu segundo livro, A Sete Palmos, foi lançado há algumas semanas. É uma coletânea de sete contos que mistura o fantástico com doses de terror e suspense. O trabalho anterior, Manuscritos de Sangue, foi lançado em 2006. Mas sua história na literatura começou como obrigação.

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Foi a professora da sétima série do colégio estadual Doraci Cesarino que obrigou todos os alunos a ler um livro qualquer. Já inclinado para um lado mais obscuro das letras, Garrett escolheu os exemplares da Coleção Vagalume. Escaravelhos do Diabo foi um dos títulos.

"Comprei e li vários. Gostava das histórias, me empolguei com a leitura", diz o curitibano de 36 anos.

Um ano mais tarde, surgiu um concurso de contos que envolvia uma série de escolas. "Escrevi uma história de suspense com pitadas de terror. É o meu estilo até hoje", define Garrett, que ficou entre os dez vencedores da disputa literária. "O prêmio, acho, foi um ingresso para o cinema."

As armas foram mais relevantes que as palavras por um breve período porque "a escola de oficiais é muito puxada". Mesmo assim, conseguia vencer algumas páginas durante à noite. Sempre à noite.

Uma faculdade de direito depois, e outro concurso aparece. O primeiro conto do livro Manuscritos de Sangue venceu uma disputa nacional em 2003. O católico praticante diz que os sinais não eram mais necessários. "A partir disso comecei a escrever e não parei mais."

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Medalha de sangue

Uma das seis medalhas que o capitão Garrett ostenta na farda é vermelha e retangular. É chamada de medalha de sangue, e concedida a quem é ferido gravemente em serviço ao que pratica um ato heroico. O episódio que a justifica aconteceu na favela do Parolin, em 1996. Garrett e um companheiro abordaram quatro homens que haviam invadido e roubado uma construção. O policial que estava em sua companhia foi dominado pelo assaltante, que queria lhe tirar a arma, e Garrett interviu. Os dois caíram por cima de seu braço, quebrado em duas partes.

Fatos como esse, segundo o policial-escritor, não são determinantes na hora da escrita. O que coloca na tela de seu laptop quando liga Smiths no fone é mais um "impulso inexplicável" do que propriamente reflexo de seu trabalho nas ruas.

"O conto vem meio pronto. Ele surge como uma ideia e os detalhes futuros do texto eu nunca sei. Entro em um estado que não sei definir. É uma tensão muito rígida na hora, é como se passasse um filme na minha cabeça. Aí já estou dentro da história e nem me dou conta disso" explica o capitão, considerado até mesmo médium por alguns. O medo, a tensão, a coragem e os sentimentos com os quais conviveu em seus quase 20 anos de polícia, são influência, mas não método de trabalho. "Não estou concentrado em resgatar isso e colocar nas minhas histórias", diz.

E, ao que parece, a preferência por temas soturnos acabam proporcionando histórias dignas de livros de Stephen King. Ou de Waldick Garrett.

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Também sommelier, o policial-escritor viajava com a esposa e um casal de amigos pela França há alguns anos, a bordo de um motorhome. Passavam pela região de Margot, sul do país, para conhecer vinícolas. E lá algo aconteceu.

Era domingo e a noite caía. A cidade parecia fantasma, deserta. De um mercado fechado e escuro ouviam-se barulhos. Um carro na frente do estabelecimento parecia ser o esconderijo de alguém, ou de alguma coisa. A tensão aumentou quando os quatro turistas entraram no trailer. Choros de alguém que parecia velho e desesperado foram ouvidos em diversos lugares. Até que os grunhidos chegaram na porta do veículo. Garrett saiu, não viu nada. E a cidade continuou deserta.

"Essa história estará em 3:33, meu próximo projeto", diz o policial. "Se chamará ‘Margot’."

O livro recém-lançado e o que está por vir colaboram para aumentar o fluxo de obras do gênero. Waldick Garrett cita Andre Vianco, Nelson Magrini e Julia Moon como parceiros dessas obras, que mesclam terror e suspense em contos curtos, enevoados e sombrios. Exatamente como aquela vez na França.

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Serviço

A Sete Palmos – O Julgamento Chega Quando Você Menos Espera!, de Waldick Garrett. Novo Século, 190 págs., R$ 35.