
Talvez tenha caído em desuso pensar na sabedoria como uma qualidade própria da velhice. Decerto a associação não se aplica a todo homem e toda mulher que já atingiram certa idade. Mas, sem dúvida, cabe à escritora parisiense Benoîte Groult, que compartilha sua sabedoria e sua lucidez com os leitores de Um Toque na Estrela, livro editado na França em 2006, quando a autora contava 86 anos, e recém-lançado no país pela Record.
Sua obra é um elogio consciente à velhice, que não a trata com inocência ou piedade, nem se acomoda em meias-palavras. Prefere um equilíbrio entre espirituosidade e sensibilidade como a maneira mais direta de abordar os sentimentos que acompanham a descoberta da proximidade do fim da vida em si e naqueles que se ama.
"A velhice é uma doença (...). É importante, portanto, não contraí-la", recomenda, ironicamente. Por mais que cosméticos e intervenções cirúrgicas maquiem os sinais da idade à flor-da-pele, as articulações e os órgãos internos antes desconsiderados não permitem ignorá-la. Chegará para todos os que sobreviverem até lá.
Chegou para a autora e seus personagens. Alice, a matriarca octagenária de Um Toque na Estrela, muito se parece com a própria Benoîte em sua história de luta pelos direitos femininos. Ela e sua filha Marion são a voz da autora contra o preconceito que recaiu sobre o movimento pós-1968 e ridiculariza as feministas sob a pecha de chatas e mal-amadas. Nenhuma das duas é qualquer dessas coisas. São, em vez disso, mulheres inteligentes, sensíveis à fragilidade da liberdade feminina e ao quão dolorosa esta é para o outro (o homem).
Moira, a deusa grega do destino, invejosa da mortalidade humana, assume o capítulo de abertura do livro. Os seguintes terão protagonistas diferentes entre os familiares de Alice. Ela investiga sua própria condição como mulher idosa e suas relações com o marido (que a ama "como uma criança velha que não quer perder sua naninha") e a irmã, casada com um homem conservador. Marion, por sua vez, se divide entre seus amores Brian, o amante irlandês que representa para ela o céu, e Maurice, o marido, a terra.
A velhice aqui é, ao mesmo tempo, "a hora do luto por você mesmo" e "a idade das descobertas". E, por mais que os mais novos, como diz Moira, vivam sob a ilusão da eternidade e se recusem a pensar no fim, os versos do poeta belga Henri Michaux (1889-1984), citados no livro, caem sobre eles como uma provocação: "Sabe que, embora seja muito jovem, antigamente eu era mais jovem ainda? O que isto significa? Certamente existe aí alguma coisa terrível."
Serviço
Um Toque na Estrela, de Benoîte Groult. Record, 224 pág., R$ 29.



