Mudanças
Bailarinos sob nova direção
As mudanças dentro do Guaíra não param nas reformas físicas e no maior apoio à dramaturgia. No corpo de baile do teatro, quem assume a direção é Cintia Napoli, que substitui Andreia Serpro. Cintia começou como bailarina do teatro em 1980 e era, até o ano passado, ensaiadora e professora da companhia.
"O que mais me motiva é dar continuidade ao projeto da Andreia, que me encantou, e inclui a diversidade estética, unindo o tradicional e o contemporâneo", disse a nova diretora à Gazeta do Povo.
Continua, portanto, o projeto Perfume, que leva a dança a lugares e pessoas com pouco acesso a ela. A proposta de tornar o balé mais próximo do público que encantou uma multidão durante a Virada Cultural, em novembro passado, com projeções e dança nas proximidades do Teatro Guaíra, na peça Coreografias para Ambientes Preparados será transformada em DVD para difusão em tendas no interior do estado.
A diretora artística do Guaíra, Mara Moron, dirige o corpo de baile G2, que define como "uma delícia". A coreografia Blow, Elliot, Benjamin volta ao cartaz no primeiro semestre, e uma nova montagem estreia no segundo. Integrantes do grupo participarão também da abertura do Festival de Teatro, na peça espanhola Los Pájaros Muertos.
Se depender do Guaíra e do Sesi, Curitiba verá muito mais teatro experimental a partir de agora. No fim de março, as aulas avançadas do núcleo de dramaturgia coordenado pelo Sesi começam em espaço novo, numa sala desocupada atrás do Guairinha, onde se reunirá também uma nova turma de formação de diretores e serão feitas apresentações. A turma iniciante terá aulas no miniauditório do Guaíra.
A sala de teatro alternativa, para cerca de 50 pessoas, fica onde funcionou, até meados da década passada, a marcenaria do teatro, num espaço de 140 metros quadrados. Os espectadores conhecerão o local em junho, quando passarão a ser apresentadas leituras dramáticas de textos produzidos no núcleo. Montagens dos trabalhos dos autores participantes estrearão ali, no segundo semestre.
Os ingressos devem ter um "custo bem baixo", de acordo com a diretora do Centro Cultural Teatro Guaíra, Mônica Rischbieter. "A ideia não é ganhar dinheiro. Para a gente é muito interessante ter esse projeto no coração do teatro", disse à reportagemda Gazeta do Povo.
As obras de reforma serão simples, incluindo a pintura, abafamento do som e colocação de cadeiras móveis.
Quanto ao conteúdo que será apresentado ali, o coordenador do Sesi Dramaturgia, Roberto Alvim, tem muito a dizer. "É o que tem de ponta sendo feito no Brasil", empolga-se, ao falar sobre os quase cem textos escritos pelos autores que passaram pelo núcleo desde sua criação, em 2009.
"Percebemos que muito poucos foram encenados, e que seria preciso completar o fomento à escrita com um mecanismo efetivo para amadurecer esses textos e completar o círculo." O ciclo termina no palco, e para treinar os jovens artistas curitibanos a ousar na montagem de textos que já são ousados por natureza, foi acrescido às turmas básica e avançada do núcleo um grupo para diretores, c om 15 vagas para encenadores estreantes ou com carreira em andamento e 20 atores a "matéria-prima" das montagens.
"Teatro transumano"
Apesar de valorizar a inventividade e liberdade de criação dos autores que chegam ao núcleo, Alvim não esconde que seu interesse é ver surgirem textos (ou "sistemas cênicos") que "reinventem a ideia de ser humano". "[O núcleo] não pretende formar técnicos que escrevam peças bem-feitas", diz.
Para Alvim, Curitiba pode ser considerada um celeiro de dramaturgia que irá revolucionar o teatro mundial. Mostra disso, segundo ele, é a escolha de sete autores curitibanos ou residentes daqui entre um grupo de oito que terão textos publicados pela editora 7 Letras (Andrew Knoll, Alexandre França, Luiz Felipe Leprevost, Diego Fortes, Patrícia Kamis, Martina Sohn Fischer e Angélica Kauffmann). Com subsídio do governo federal, elas serão montadas e encenadas de abril até o fim do ano em São Paulo, e devem vir para Curitiba em 2013.
O novo orientador da turma iniciante do núcleo é o dramaturgo Antônio Rogério Toscano, que ensina há oito anos na Escola de Arte Dramática da USP. Ele diz considerar cedo para se posicionar sobre a posição radical de Alvim a respeito do futuro dos dramaturgos curitibanos, mas espera "conseguir formar um grupo de artistas que articule com liberdade ideias criativas e autorais, que configurem uma dramaturgia de relevância".
Das peças escritas dentro do curso, foram encenadas Hieronymus nas Masmorras, de Leprevost; Pequeno Inventário de Impropriedades, de Max Reinert, Antes do Fim, de Marcelo Bourscheid, Habitué, de Alexandre França, e Os Invisíveis, de Diego Fortes, que integraram a mostra Outros Lugares no Festival de Teatro do ano passado.
Outros autores que passaram pelo núcleo montaram seus textos de forma independente, como Douglas Daronco, cuja peça Teia apareceu em Amores Repartidos, com direção de Thadeu Peronne. "É válido que se invista em diretores, porque os já estabelecidos, muitas vezes, têm dificuldade em reagir a esses textos novos", diz Douglas.
Serviço:
Núcleo de Dramaturgia. Inscrições abertas até 10 de março pelo site www.sesipr.org.br/nucleodedramaturgia.