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Em defesa da existência de Deus

O historiador britânico Paul Johnson e o crítico cultural e literário irlandês Terry Eagleton questionam o ateísmo e a descrença nas religiões

  • Paulo Camargo
Johnson descreve um Cristo conhecedor da obra de Homero e Eurípedes |
Johnson descreve um Cristo conhecedor da obra de Homero e Eurípedes
 
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Em defesa da existência de Deus

O debate sobre a existência de um ser supremo e a validade das religiões andam em voga. Seja para negá-las, questioná-las ou defendê-las, com ou sem ressalvas. Primeiro vieram duas obras que causaram estrondo no mercado editorial internacional: Deus Não É Grande (Companhia das Letras), do crítico literário britânico Christopher Hitchens, e Deus, um Delírio (Companhia das Letras), de seu conterrâneo, o biólogo e partidário radical do evolucionismo Richard Dawkins. Enquanto o primeiro defende a tese de que o mundo se livraria de boa parte de suas mazelas se as religiões deixassem de existir, o segundo, de forma mais enfática, descarta a existência de qualquer força superior e a inutilidade absoluta das crenças religiosas em um tempo que deve ser pautado pela razão e pela ciência.Em reação a esses autores e suas ideias, dois outros intelectuais de peso, o historiador inglês Paul Johnson e o professor de Literatura e Crítica Cultural irlandês Terry Eagleton, lançaram obras que batem de frente com o ceticismo e a descrença de Hitchens e Dawkins, recorrendo a diferentes argumentações e estilos de escrita.

Mais acessível, e um pouco menos polêmico, Jesus – Uma Biografia de Jesus Cristo para o Século 21 deixa claro, já em suas primeiras páginas, que Paul Johnson é um cristão convicto, um fã de Cristo, embora o livro não possa ser acusado de proselitista.

Historiador respeitado, o autor, colunista das revistas Forbes e Spectator e colaborador regular dos jornais The New York Times e Wall Street Journal, tem a Bíblia como principal fonte, apesar de não ser a única. Recorre aos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João e aos demais livros do Novo Testamento para construir um retrato complexo e poderoso de seu protagonista, que é problematizado, mas jamais despido pela prosa de Johnson de seu caráter heroico e sagrado.

De leitura envolvente, Jesus é dividido em nove capítulos, que abordam desde a infância e adolescência de Cristo até sua ressurreição, passando por aspectos mais intrigantes de sua trajetória, como a relação ambígua e sempre hesitante com o poder de realizar milagres; a predileção que parecia ter, segundo os evangelistas, pela palavra, pelo uso de poesia e de parábolas em seus sermões aos fiéis e, por vezes, aos próprios apóstolos; e os encontros que manteve ao longo da vida, sobretudo em seus anos de pregação, com pessoas do povo: homens, mulheres, crianças e velhos.

Letrado

Johnson defende a tese de que, como nasceu em uma família judaica religiosa e tradicional, de descendentes do rei Davi, Jesus teria, em sua infância e juventude, tido acesso às escrituras do Antigo Testamento, sobre as quais teria amplo conhecimento, assim como à produção literária secular e religiosa. “Minha crença é que ele era familiarizado com latim e grego, além de seu aramaico natal e o hebraico que falava e lia como judeu devoto educado”, escreve Johnson no capítulo relativo ao nascimento e à infância de Cristo.

Linhas abaixo, o historiador, mesmo não tendo provas concretas que o sustentem a não ser a análise que faz dos sermões e falas de Cristo, diz acreditar que ele tenha recitado passagens dos poetas gregos Homero (de A Ilíada) e Eurípedes (autor da tragédia Medeia), possivelmente também do romano Virgílio.

No capítulo em que fala do uso de poesia e de parábolas, Johnson escreve que “Jesus era menos um retórico, ou pregador, do que um poeta. Ele pensava, raciocinava e falava como um poeta – com imagens, visões e metáforas do mundo natural.”

Milagreiro relutante

Toda a narrativa de Jesus é permeada pela certeza do seu autor quanto à dimensão divina de Cristo, mas sem jamais descartar ou minimizar o seu duplo humano. Essa dualidade se faz muito presente, e clara, no capítulo intitulado, sintomaticamente, de “O Perigo dos Milagres”.

Descrito como um homem extremamente sociável e curioso em relação a outros seres humanos, independentemente de sua religião ou estrato social, apesar de dedicar maior atenção e apreço pelos pobres e despossuídos, Jesus era também capaz de praticar milagres de cura e até mesmo de ressurreição, como foi o caso de Lázaro. Preferia, no entanto, que esses atos sobrenaturais fossem mantidos entre poucos ou em segredo.

Para Johnson, Cristo desejava que a sua palavra se alastrasse, e não a sua reputação de milagreiro. “Jesus dava pouco crédito àqueles cuja fé era inspirada por um milagre realizado por ele. Ficava mais impressionado com aqueles que já tinham fé em que podia realizar um [milagre]”, escreve.

Eagleton

Bem menos concentrado especificamente na figura de Jesus Cristo, ou mesmo do cristianismo, Terry Eagleton tem como principal objetivo de seu livro O Debate sobre Deus – Razão, Fé e Evolução, resultado de uma série de palestras proferidas na Universidade de Yale em 2008, descredenciar os livros de Hitchens e Dawkins, que ele funde numa mesma entidade chamada “Ditchkens”, a qual trata com desfaçatez. Mas Eagleton vai bem além disso, traçando um painel bastante pertinente do mundo contemporâneo, no qual ateísmo e fundamentalismo são apenas duas das múltiplas facetas que a discussão sobre o peso da religião no âmbito político e social pode adquirir.

O autor de Deus Não É Grande até tem seu bom texto elogiado por Eagleton, que discorda de Hitchens – para quem a religião seria “repugnante” e um entrave para o mundo de hoje –, mas considera sólida sua argumentação. Já o escritor de Deus, um Delírio não tem a mesma sorte. Dawkins é execrado tanto na forma quanto no conteúdo. O autor irlandês zomba do ateísmo do biólogo e de sua crença de que o universo teria surgido a partir do nada. “Sem Deus, Dawkins ficaria sem emprego. Assim, é mesquinho de sua parte questionar a existência de seu criador”, escreve.

Críticas

Eagleton diz que não critica Dawkins por seu ateísmo. “Mi­­lhões e milhões de pessoas não acreditam em Deus. O problema é que ele não faz ideia do que significa acreditar em Deus.” Para o irlandês, Dawkins é um racionalista antiquado do século 19 que crê que Ele seria uma espécie de pseudocientista, ou um rival da evolução. “A doutrina da criação não tem nada a ver com a origem do mundo. E Dawkins não sabe disso.”

São Tomás de Aquino, classificado por Eagleton como o maior teólogo de todos os tempos, não descartava a possibilidade de o mundo não ter uma origem. A considerava plausível, e acreditava que essa seria uma questão para cientistas, e não para teólogos.

Serviço

Jesus – Uma Biografia de Jesus Cristo para o Século 21, de Paul Johnson. Nova Fronteira, 208 págs., R$ 29,90. GGGG

O Debate sobre Deus – Razão, Fé e Evolução, de Terry Eagleton. Nova Fronteira, 232 págs., R$ 49,90. GGGG

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