“Agora é só stand-up. Acho tudo tão raso. É simbólico, e reflete parte da mentalidade do brasileiro atual. As pessoas estão muito estranhas, acreditando em coisas loucas | Marcos Hermes/Divulgação
“Agora é só stand-up. Acho tudo tão raso. É simbólico, e reflete parte da mentalidade do brasileiro atual. As pessoas estão muito estranhas, acreditando em coisas loucas| Foto: Marcos Hermes/Divulgação

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Ney Matogrosso

Atento aos Sinais. Teatro Positivo – Grande Auditório (R. Prof. Pedro Viriato Parigot de Souza, 5.300). Dia 25 às 21 horas. R$ 280 e R$ 140. Assinantes da Gazeta do Povo têm 50% de desconto na compra de até dois ingressos.

Ney Matogrosso se apresenta no próximo sábado, 25, no Teatro Positivo, em Curitiba. O show Atento aos Sinais mostra uma versão mais pop do intérprete – há músicas de Criolo e Dani Black. Aos 72 anos (40 de carreira), o cantor também se prepara para receber o prêmio Grammy, em Las Vegas, pelo conjunto da obra. Na entrevista a seguir, Ney falou sobre música, Curitiba e não fugiu da raia quando o assunto foi política.

Este parece ser um momento mais pop na sua carreira, talvez menos romântico. Isso surgiu de que maneira?

É mais a letra do que a melodia que me faz acatar uma música. As ideias vêm se desenvolvendo. Mas agora estou um pouco desprevenido sobre o que virá daqui para frente. Tenho algumas músicas selecionadas, mas nada me deu um acendimento. Talvez precise de uma pausa para ver aonde vou. Mas não pensa em parar?

Não. Penso mais sobre a obrigatoriedade ou não de fazer outro trabalho. Vou te contar uma história: durante a gravação de Bugre (1986), já estava até ensaiando os shows. Mas algo dentro de mim dizia: "Você não está acrescentando nada, só repetindo o que já sabe fazer." Chamei todo mundo e disse que não era aquilo. Depois, reencontrei o [pianista] Arthur Moreira Lima, o [violonista] Raphael Rabello e o [percussionista] Chacal. Resultou no Pescador de Pérolas (1987), um marco na minha vida. Este seu show utiliza muita tecnologia. Você pensa em atingir um público mais jovem nesse novo momento? Ampliar a abrangência de sua música?

Para mim, nada passa pelo lado de fora. Tudo é por dentro. O Beijo Bandido era mais introvertido. Então necessito de algo extrovertido. É o equilíbrio.

No disco, há releituras de Criolo a Itamar Assumpção. São diversas gerações no mesmo álbum. Mas por que deu vez a Criolo, por exemplo?

Não é porque é gente desconhecida que não vou gravar. O Criolo no palco é uma entidade. Quando o vi pela primeira vez, falei assim: "Meu Deus, onde esse rapaz estava antes?" Gosto muito dele. O Nó na Orelha tem muito de jazz. Ele até aborda as temáticas do rap, mas de outra maneira. Curitiba é diferente?

Da primeira vez que toquei aí, no Guaíra, em 1975, não entendi nada. Era um público formal que quase não aplaudia. Pensei que não estava agradando. Mas, quando o show acabou, todo mundo aplaudiu freneticamente e ninguém queria ir embora. Hoje está diferente.

Isso é ruim?

É. Eu gostava das particularidades de cada lugar. Fazer show no Nordeste era muito diferente do que fazer show em Curitiba. Podemos falar sobre política?

Ihhh...

Em maio, em Portugal, você disse que a corrupção é muito mais "visível no governo do PT..."

Não esperava essa repercussão toda e não tinha ideia de que as pessoas fossem tão maléficas. Que pessoas?

Essas pessoas que criaram "o bloco do PT." Eles se sentiram ofendidos com o que falei. Da parte do governo, houve um questionamento. Recebi um e-mail do Ministério das Comunicações dizendo que tinha errado. Porque falei que eram 10 milhões de miseráveis no Brasil. E eles me corrigiram: "são apenas 7." Eu não vou ficar atrás de números porque, nesse caso, não faz diferença.

A música está menos politizada?

Vamos falar de teatro? Agora é só stand-up. Acho tudo tão raso. É simbólico, e reflete parte da mentalidade do brasileiro atual. As pessoas estão muito estranhas, acreditando em coisas loucas. O movimento em torno da Marina Silva, por exemplo. Não consegui entender. Tudo aquilo só porque morreu o camarada? E aí esqueceram de tudo antes do primeiro turno? Sabe em quem vai votar no 2.º turno?

Estamos entre a brasa e a panela. Na Marina Silva não votaria. Nunca confiei. Mas vou ter que votar, né? Ou posso anular também. Faço isso com maior naturalidade e sem nenhuma culpa. Se houver pessoas em quem acredito minimamente, tomo um posicionamento. Foi o caso do Lula. Mas no primeiro escândalo do mensalão, quando vi o que era aquilo, cortei o cara da minha vida e nunca mais votei nele.

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