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Algumas lembranças foscas permanecem, ainda assim, em nossas mentes. Lembro-me agora de um café da manhã que tomei, por acaso, em um hotel de Porto Alegre, com o poeta Eucanaã Ferraz. Creio que foi no ano de 2013. Minha memória não é das melhores – não guardo as palavras de nossa conversa, mas certamente falamos de literatura e de nossa paixão por ela. Mesmo assim, conservo uma impressão forte, embora um tanto gratuita, de que eu estava diante de um grande poeta. Durante nosso diálogo, tive a sensação incomum de que o salão do café obscureceu. Uma terceira presença se insinuou entre nós. A poesia?

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Ainda havia hóspedes no café – mas a impressão que me ficou é a de que não havia mais ninguém. A voz de Eucanaã, embora frágil e com timbre juvenil, ecoava como um alerta. Foi uma dessas experiências inexplicáveis e intraduzíveis, que mais tarde se confirmou com a leitura de Sentimental, seu livro de 2012, vencedor do prêmio Portugal Telecom 2013. E que agora se reafirma na leitura de Escuta. Eu tinha um grande poeta diante de mim.

Livro

Escuta

Eucanaã Ferraz. Companhia das Letras, 136 pp., R$ 34,90.

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Já o primeiro poema, “Orelhas”, traz uma força que não me permite duvidar de mais nada. Nele, o poeta faz uma defesa apaixonada do banal. “Não busque senão na aberração a sinceridade”, escreve. Não teme (coragem dos poetas, com seu fardo da antevisão) defender sentimentos que – por esnobismo, por elitismo, por arrogância – costumamos repudiar.

Logo de saída, ele demarca seu território: “Estão certas todas as canções banais letras convencionais/ seus corações como são de praxe; estão certos os poemas/ enfáticos inchados de artifícios à luz óbvia da lua/ ou de estúpidos crepúsculos”.

Com esses versos corajosos, Eucanaã se desloca: desvia-se, inclusive, de seu próprio nome de poeta. Não está mais onde o esperamos. Não pensa o que julgamos que pensa. “... e quanto mais barato/ e quanto mais prolixo o alexandrino mais legítimo”. A palavra “verso” vem do latim, “versus”, isto é, “sulco que dá voltas”, ou “formação em linha de pessoas ou coisas”, como define Massaud Moisés. O verbo latino “vertere” significa “girar, voltar, retornar”.

A poesia de Eucanaã, de fato, se desenrola como uma dança, que faz rodar os significados e os sentimentos, obrigando-nos a encarar aquilo que, em geral, preferimos não ver. É uma poesia (uma escuta) que se desenrola (que “dá voltas”) contra a ignorância. Saber da poesia: um torto saber, no qual as palavras se deslocam de seus estojos e o próprio poeta se vê exilado de seu nome.

Ganhador de honrarias literárias, Eucanaã Ferraz escreve: “prêmios literários/ não passam de hipocrisia; estiveram desde sempre certos os erros/ de tipografia”. Só a escrita errante garante ao poeta algo que se aproxima da sinceridade. Busca – está na segunda parte – um “poema em que a língua diga mais”, e para isso é preciso que ela não tenha hostilidades, ou repugnâncias. Que ela aceite. Procura uma “língua inexplicavelmente/ que para facilitar chamemos beijo”. Uma língua que se aferre ao corpo e aos sentimentos mais simples que ele sustenta.

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Logo à frente, em “Esta placa”, o poeta se posta aquém do próprio nome. Ele precisa se desarticular para ser. “Meu nome não sou agora,/ moro no mundo futuro./ Meu pai me deu esse nome/ sem que eu pudesse fazê-lo”. Delimita a poesia como um território no qual o desejo do pai está excluído - e, com isso, também, o nome que o filho dele recebeu. Apagada a sombra paterna, o poeta se vê solto em uma passagem do tempo que fica entre o presente e o futuro. Em vez de garantia, o nome se torna um peso. “Mal posso escrevê-lo certo/ nos documentos que o pedem./ Não existo no meu nome,/ coisa que vive sem mim”. Vive (sobrevive), na verdade, nos traços da poesia. Seu nome é só uma busca. É a busca de um nome - de uma palavra que enfim o acolha. O problema do poeta é que essa palavra (esse nome) não existe. “Ele se diz sendo eu,/ este nome que me afirma,/ mas o que nele me aponta/ é também o que me acusa”.

Que acusação lhe pesa? Do poeta, esse “eu-ninguém”, diz-se que se esquiva. Que se furta a viver. Mas será? Com seus versos longos e sensuais, Eucanaã Ferraz nos mostra que, ao contrário, só há poesia porque há vida. Salto algumas páginas e em outro poema, “E não bastasse todo o ouropel”, encontro a afirmação da poesia como lugar da verdade. Escreve: “E era a mais pura verdade./ Aliás, tudo ali naquela noite/ (também agora, este poema)/ foi a mais pura verdade”. Aqui é a poesia que se desloca, deixando seu lugar de invenção para ocupar o lugar da realização.

Não é, porém, porque assinala a verdade que a palavra (o nome) pode dizer a verdade. Não: não diz. Está em “Quando já desfeita a mímica”: “Quando houve a esperança/ de um pedido de socorro,/ a palavra, quando veio/ bateu num muro fechado”. O caráter verdadeiro não garante a aproximação das coisas. Tampouco a sinceridade. O poeta escreve sem garantias. “Você diz coisas de amor/ e a boca não obedece”. Na verdade, sobra ao poeta uma mímica, com a qual ele tenta capturar as coisas que lhe escapam. Você quer dizer isso - e diz aquilo. “Quando, depois, foi preciso/ dizer apenas que não/ a boca já se ocupava/ de outra frase, bem mais longa”. A boca nos trai. Também a escrita. Ao poeta, resta esbarrar no muro do real e fazer alguma coisa de seu choque.

Na vida, a mímica substitui a palavra. A boca é rebelde. Há sempre um “descompasso/ entre seus lábios e a frase”. Sem piedade, o poeta nos defronta com a pergunta terrível: “Alguém duvida que a vida/ é um negócio perdido/ em que ninguém acredita?” É, porém, dessa inadequação - a língua dizendo o que não planejamos - que a poesia se faz. O poeta afirma, sem medo: “não há nexo em nada”. E só por isso ele insiste em escrever. Enxerga a existência como um teatro - um teatro do absurdo - mas, ainda assim, ou por isso, resta um espaço (como o vão sob a escada em que se esconde a Senhora D., de Hilda Hilst). Vácuo que serve ao poeta de abrigo.

Em “Index”, ele nos faz a pergunta mais dura: “Como explicar a poesia a uma baleia morta?/ Como explicar a poesia?”. O silêncio se multiplica. O nome não passa de um vaso quebrado.

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