Talvez uma simples retrospectiva de filmes não fizesse mesmo justiça a Rogério Sganzerla. Menino prodígio como escritor, aos 21 anos lançou um filme-bólido que virou de cabeça para baixo o cinema brasileiro daquele tempo - "O Bandido da Luz Vermelha".

Era 1968, e ele expressava o desespero político da época. Detalhe: foi feito antes do AI-5, sendo portanto premonitório. Desde então, Sganzerla viveu uma vida provocativa, antenado com as vanguardas e tendo como profissão de fé o cinema de invenção.

Brigou com o Cinema Novo e fechou com Orson Welles, uma de suas referências maiores. Ele começou muito cedo e também morreu antes da hora, indo-se aos 57 anos, em 2004. Rogério Sganzerla, ser múltiplo, merecia mais do que uma retrospectiva. Merecia uma "Ocupação", que é o nome que se dá ao evento multimídia que começa hoje para convidados no Itaú Cultural, em São Paulo, e abre amanhã para o público.

Em que consiste essa "Ocupação", que tem como curador o cineasta Joel Pizzini? "Numa aproximação multimídia ao universo do artista, a começar pela noite de abertura que terá a música de Lanny Gordin e presença do coletivo de Vjs Embolex", explica Pizzini. Gordin, guitarrista famoso na São Paulo dos anos 1960, aparece num dos filmes de Rogério. Os dois têm tudo a ver. Além disso, une-se, metonimicamente, a outra das referências permanentes do cineasta - o guitarrista norte-americano Jimmi Hendrix, a quem Rogério também dedicou um filme e sua admiração de toda a vida.

Evento terá uma mostra composta de manuscritos, roteiros (filmado e inéditos), objetos de uso pessoal como sua máquina de escrever. Material obtido com a família. Rogério deixou acervo incrível de material impresso. Parte dessa herança estará exposta. Mas a preocupação da curadoria é de que a mostra não tivesse caráter museológico, pois nada menos aparentado à personalidade de Rogério do que um museu. Assim, haverá um espaço com projeção de imagens para expor os eixos principais da visão de mundo de Sganzerla: além de Welles e Hendrix, Oswald de Andrade e Noel Rosa.

Também estará disponível ao público uma "guitarra interativa", que edita imagens dos filmes de Sganzerla (inclusive o raro "Mudança de Hendrix") à medida em que o participante toca as notas. Nomes como Julio Bressane, Bill Krohn, Helena Ignez e Ismail Xavier, entre outros, estarão por aqui para discutir uma obra multifacetada e muitas vezes enigmática do diretor.

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