Dependendo de sua voracidade, o apetite crítico do 59º Festival de Berlim, que começa nesta quinta-feira (5) com uma sessão hors-concours do thriller de espionagem The international, de Tom Tykwer, pode ser saciado por uma iguaria brasileira. Inédito mundialmente, o documentário Garapa, novo longa-metragem de José Padilha, ganhador do Urso de Ouro de 2008 com Tropa de elite, será exibido no dia 11, na mostra paralela Panorama. A mesma seção, dedicada a filmes independentes de fortes ambições autorais, receberá no dia 9 o thriller Vingança, do gaúcho Paulo Pons, já lançado no Rio. Na competição oficial, que termina no dia 15, não há concorrentes nacionais. Um ano depois de sua vitória em território alemão, onde a cruzada justiceira do Capitão Nascimento não chegou a estrear, Padilha promete perplexidade aos europeus com uma radiografia de um dos maiores sintomas da miséria brasileira: a fome.
- O tratamento que a mídia dá à questão da fome é sempre macroscópico. Fala-se de causas econômicas, políticas, ecológicas e de guerras em olhares que se distanciam da experiência individual do que é passar fome. Essa é uma experiência que só pode ser compreendida quando você se cola em pessoas que, efetivamente, passam fome. Só assim é possível ter o entendimento ideal, que vai além do que se lê em estatísticas. Um entendimento emocional - explica Padilha, que partiu de um veio aberto pelo livro "A geografia da fome" (1946), de Josué de Castro (1908-1973).
Em seus estudos, Castro flagrou a explosão da chamada fome crônica, que, ao contrário da inanição aguda, se caracteriza por dietas que estão aquém das necessidades nutricionais do organismo. No livro, ele mostra que tal mazela costuma ser agravada pelas desigualdades sociais. Sua tese é comprovada no filme de Padilha, na observação de quatro famílias sediadas em três localidades diferentes do Ceará, que são acompanhadas pelas câmeras do cineasta.
Ao expor as mazelas dos que carecem de uma alimentação adequada, Padilha sabe que vai entrar em um vespeiro de ferrões políticos, como indicam debates contra o assistencialismo do governo Lula esboçados na imprensa usando o filme como mote.
- Ataca-se o Fome Zero, por considerá-lo um programa eleitoreiro. Mas veja quantas pessoas já saíram da miséria por ter o Fome Zero somado à renda que possuíam antes dele. O Brasil tem um histórico de transferência de recursos de pobres para ricos, seja pela inflação ou pela corrupção. Talvez essa suspeita de práticas eleitoreiras devesse ter aparecido antes e não agora que há uma transferência de recursos de ricos para pobres - diz o diretor, convocado pela produtora Plan B, de Brad Pitt, para roteirizar e dirigir uma adaptação do livro "Marching powder: a true story of friendship, cocaine and South America's strangest jail".
O livro é parte dos relatos autobiográficos do inglês Thomas McFadden, que foi preso na Bolívia por tráfico de drogas e enviado para uma prisão onde imperava a corrupção. Don Cheadle (de "Crash - No limite") será o protagonista do longa.
- Don é também um dos produtores - diz Padilha, que trabalha ainda no projeto "Nunca antes na História deste país", longa de ficção sobre a realidade política brasileira com roteiro do sociólogo Luiz Eduardo Soares. - Será um filme nos moldes de "Tropa..." em relação à entrada de um indivíduo em um universo com regras às quais ele precisa se submeter. É uma visão sobre como processos eleitorais levam à corrupção.
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